Crítica | Toda Nudez Será Castigada (1973)

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Foi dando um mergulho abissal na psique do homem moderno que o dramaturgo Nelson Rodrigues conseguiu construir seu texto áspero, cínico e iconoclasta. Na rede intrincada de suas obsessões, tal qual a vida como ela é, família, igreja, escola e jornalismo afundam em pântanos de hipocrisia. Não há redenção ou segunda chance: as personagens, em plena intensidade, consumam atos drásticos e sem retorno. A obra de Nelson é explosiva e desbragada, universal e multifacetada, com grande capacidade audiovisual. Por isso, e não à toa, ela tem sido continuamente adaptada para as telas. São raras as exceções, mas, infelizmente, trabalhos fracos formam a maior parte dessa filmografia, cuja primeira obra data de 1950 (Somos Dois de Milton Rodrigues). Entre equívocos, alguns apelam para o pastiche, outros para o deboche e aqueles que se pretendiam sérios falham consideravelmente. No entanto, em meio aos morangos mofados, reluz em vermelho vivo Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor.

Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, o longa-metragem nos mostra o Brasil de 1973, urbanizado e decadente, vivendo o famigerado “milagre econômico”. No ápice da ditadura, o então engajado Arnaldo Jabor escolheu o mestre da implosão burguesa, Nelson, para criticar a moral e os bons costumes que regiam a cívica e honrada nação militarizada. Herculano (Paulo Porto) é um viúvo que rompe a casta nobreza a que pertencia ao casar-se com a prostituta Geni (Darlene Glória). Passando por cima das tias (Elza Gomes, Isabel Ribeiro e Henriqueta Brieba) e, sobretudo, de seu filho Serginho (Paulo Sacks), Herculano, para viver essa paixão, dá início a uma derrocada familiar rumo ao abismo dos desejos ocultos, da mentira e do ódio.

Os casarões da família são imponentes, tradicionais, mas estão em ruínas (o filme ganhou merecidamente o prêmio APCA de Cenografia). Todos os ambientes e figurinos, embora almejem o luxo, sugerem um certo declínio estético, entre o kitsch e o abatimento, tudo rimando muito bem com a destruição e ocaso das personagens. O que o filme pode apresentar de precário, por óbvias questões orçamentárias, também deve ser incorporado à experiência imersiva, porque tudo na trama é decomposição, fraqueza e instabilidade. Sejam as janelas quebradas ou a luz vulgar da boate, a fotografia naturalista de Lauro Escorel ou a trilha sonora, as paredes descascadas ou Paulo César Peréio, nada escapa à tragédia, à sensação de falência que faz ruir o país e seu modelo de família.

Jabor soube apresentar o universo rodriguiano e Toda Nudez é uma boa amostra disso. No entanto, o filme não seria 90% do que é sem Darlene Glória. Ela apresenta uma Geni possessa e intensa, sem meio-termo. Sua persona condensa tudo que há de aterrador e infausto na obra, deslizando de uma romântica passional à mater dolorosa pura, porém incestuosa no gesto. No teatro, muitas atrizes, inclusive Fernanda Montenegro, recusaram o papel, isso porque Geni é uma aventura emocional: mártir, louca, amante, esposa, santa e puta. Não bastaria ser uma grande atriz para interpretá-la, era preciso um certo estado de graça que Darlene alcançou com dor e plenitude.

Nelson Rodrigues gostou muito do resultado do filme e cedeu os direitos para Jabor filmar o agoniante O Casamento, filme operístico, cruel e difícil assim como o romance homônimo. A partir de então vieram adaptações de A Dama Do Lotação, Os Sete Gatinhos, Engraçadinha, Álbum De Família, Bonitinha Mas Ordinária, entre tantos outros. O fato é que Nelson é uma fonte longe de se esgotar e ele ainda será visto e revisto, bem e mal adaptado. De todo modo seria interessante que, antes de qualquer investida, os futuros realizadores dessem uma olhada nesse Toda Nudez Será Castigada para entenderem que o filme é a obra seminal que explica o porquê de Nelson ser também uma potência no cinema. Assistam.

Toda Nudez Será Castigada – Brasil, 1973
Direção: Arnaldo Jabor.
Roteiro: Arnaldo Jabor e Nelson Rodrigues.
Elenco: Paulo Porto, Darlene Glória, Paulo Sacks, Paulo César Peréio, Isabel Ribeiro, Hugo Carvana, Henriqueta Brieba, Elza Gomes, Sérgio Mamberti.
Duração: 102 min.

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.