Crítica | Todos Dizem Eu Te Amo

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estrelas 3,5

O musical de Woody Allen, Todos Dizem Eu Te Amo, evidentemente traz as paixões do cineasta, praticamente todas, às telonas. Temos Nova York, Paris, o cinema em si (através da óbvia homenagem aos clássicos all singing, all dancing de Hollywood) e, é claro, o amor. Não há melhor maneira de descrever o filme em questão do que uma obra melodramática sobre diversos casais (ou tentativa de casais), essa é claro, uma visão superficial sobre a obra, já que qualquer um com o mínimo de noções de interpretação facilmente irá perceber o tom ácido, marca de Allen, no filme, que desconstrói a paixão trazendo à tona os obstáculos da vida real, mostrando que o felizes para sempre é algo praticamente inatingível.

Uma sensação quase onírica nos é passada com o início da projeção, conforme assistimos Holden (Edward Norton) e Skylar (Drew Barrymore) cantando nas ruas de Nova York sobre seu amor perfeito. Uma voz em off prontamente substitui a cantoria por uma narração que nos situa no enredo da obra. DJ (Natasha Lyonne), irmã de Skylar, quebra a quarta barreira e começa a nos falar sobre sua família que em nada se assemelha aos musicais de outrora, traz para o palco os diversos problemas que são, posteriormente, abordados no longa que constroem esse retrato, pelo período de um ano, desses personagens, todos em suas buscas pessoais pelo amor da maneiro como eles enxergam tal sentimento.

O primeiro aspecto que logo nos chama a atenção é a forma como a música é encaixada na narrativa. Woody utiliza as canções como para finalizar um raciocínio – não temos um desenvolvimento em suas letras e sim a conclusão de uma cena, o que, muitas vezes faz o aspecto musical da obra soar como desnecessária, um adendo completamente dispensável para a progressão da trama. Esse fator, contudo, é rapidamente combatido pela qualidade das coreografias empregadas em cada sequencia musical, cada um trazendo de volta a mágica do cinema dos anos de Fred Astaire e Gene Kelly. Essas sequências conseguem fisgar o espectador com exatidão através de músicas que seguem uma temática central, garantindo coesão ao longa.

Fruto disso, naturalmente, é a direção de Woody, que faz uso de inúmeros planos sequências que enaltecem o trabalho coreográfico empregado. Ao seu lado, uma montagem precisa mantém a fluidez de cada cena tornando-se um espetáculo à parte observar cada corte e como eles organicamente são inseridos dentro do filme.

Existe, porém, uma inconstância no roteiro de Allen, que não sabe exatamente em qual personagem focar. No início do filme esperamos que os protagonistas sejam Holden e sua esposa, em seguida pensamos o mesmo de DJ, posteriormente de seu pai, Joe (Woody Allen). Esse pulo em pulo de personagens acaba nos trazendo a sensação de que alguns deles são esquecidos ao longo da projeção, ao passo que se cria uma narrativa capitular que, no fim, deixa cada um deles na mesma posição que iniciaram – não há qualquer amadurecimento, progressão de nenhum deles e o que podemos tirar, de fato, da trama é que o amor pode ser tanto ideal quanto problemático, sendo tão verdadeiro quanto etéreo ao mesmo tempo.

Todos dizem eu te amo de fato, e cada um conta com sua visão singular sobre o que o amor é – seja uma série de aventuras, perigo, sonhos ou uma simples e duradoura parceria. Woody Allen, através da música e da acidez, nos conta sua versão sobre esse sentimento tão humano em um longa-metragem que peca em alguns aspectos, mas acaba sendo uma experiência, como um todo, positiva para o espectador. Está longe de ser um dos melhores filmes do diretor, mas com certeza merece ser assistido.

Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You – EUA, 1996)
Direção:
Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Woody Allen, Goldie Hawn, Julia Roberts,  Edward Norton, Drew Barrymore, Natasha Lyonne, Natalie Portman.
Duração: 101 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.