Crítica | Todos os Belos Cavalos, de Cormac McCarthy

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Se sua mãe tivesse um filho com outro marido e seu pai com outra esposa qual seria você?” é o questionamento de John Grady Cole, o protagonista do livro, ao seu amigo e companheiro de viagem, Lacey Rawlins, logo nas primeiras páginas de Todos os Belos Cavalos, primeiro livro da trilogia da fronteira, que segue com A Travessia e Cidades da Planície, escritos por Cormac Mccarthy (Onde os Velhos Não Têm Vez). A pergunta surge em um momento simples: um diálogo entre dois amigos sobre revolta contra os pais. Pela banalidade (e por acontecer logo no início do livro) o diálogo pode ser entendido apenas como uma justificativa para a revolta dos dois e sua subsequente fuga, porém, se torna todo o escopo para o tema, brutalmente analisado pelo autor, durante todo o livro, do existencialismo.

A história começa, e termina, com John Grady Cole, um adolescente de 16 anos que acaba de se tornar o último homem de uma família de rancheros no Texas. Sua mãe, atual dona do rancho da família, que já não dava mais sustento, decide vender as terras. Cole se revolta e decide fugir e descobrir uma nova vida para si. Ele parte para o México com seu amigo Lacey Rawlins e um garotinho, que se junta a eles no meio do caminho e diz se chamar Blevins. Essa primeira parte – de quatro – do livro tem uma veia “Senhor dos Anéis”, descrevendo a caminhada (ou cavalgada) dos três por um cenário selvagem épico, espetacularmente descrito por McCarthy, um mestre na descrição visual, por vezes acre e hostil, por vezes doce e acolhedor. Viajamos junto com eles pelo norte de um México dos anos 1940, desenvolvendo-se em meio a conflitos políticos e grandes divergências de ideais, cravando também o início de um inevitável destino de conservadorismo no país. Apesar de ser um pouco mais fatigante, essa primeira parte termina na hora certa e em momento algum se demonstra enfática demais.

McCarthy, diferente de seus contemporâneos, reforça o imaginário da busca do indivíduo pela liberdade, parte essencial da literatura americana clássica. Outra de sua influência na literatura clássica dos EUA é a forma que cria diversos níveis e tipos de liberdade, e como a relaciona com a interação do indivíduo com a natureza. Quando começa a segunda parte do livro, Cole e Rawlins começam trabalhar em uma grande fazenda, que é a base econômica naquela área — sustento das humildes famílias que moram ao redor e lar de dezenas de trabalhadores da própria fazenda. Lá eles ganham a atenção do poderoso dono do lugar, Don Hector (o hacendado), pela sua excelência em domar os cavalos – todos selvagens – da fazenda. Ao mesmo tempo, Cole se apaixona pela filha do hacendado, Alejandra. Um conflito começa, a partir disso, com a tia-avó de Alejandra, Alfonsa – intelectual e ex revolucionária. O livro traz em seu texto a temática do amadurecimento, impulsionado pelo descobrimento de si próprio no mundo. O caminho dos personagens e seus trabalhos na fazenda são componentes do amadurecimento – e da busca pelo Eu –, mas tudo isso faz parte de um mundo já conhecido pelos personagens. E, para um processo como o narrado pelo livro, seria necessário um rompimento com esse mundo. É o que acontece.

Da metade para o fim da obra McCarthy irrompe sua narrativa com uma explosão de violência, e a consequente exposição da brutalidade do mundo nu. É nesse momento que o autor coloca seus personagens cara a cara com o que buscavam em sua viagem. O escritor norte-americano é um odiador de vírgulas, como James Joyce, e altamente influenciado por William Faulkner, um dos mais famosos admiradores de Joyce. Assim como Faulkner, McCarthy evoca emoções da simplicidade linguística e é, por primazia, um homem das palavras. E as escolhas delas nessa segunda metade evocam o terror, necessário para o leitor, advindo da violência. Palavras sempre simples e cruas, sem refinamento, como a brutalidade ali descrita.

O México é o país usado para descrever o processo que acontecia na América Latina, na época. Um verdadeiro turbilhão de ideias políticas e revoluções, enquanto governos autoritários tomavam o poder. É nesse cenário, de um continente novo, tentando se encontrar, que McCarthy joga seu personagem, novo e tentando se encontrar. Fazendo-o se deparar com violência para conquistar o que é seu, e Cole sempre sabe o que é seu. Tudo o que há no mundo virará, para John Grady Cole, de alguma forma, algo em seu caminho de ser um homem. Cormac McCarthy não nos deixa com nada amaciado nos temas que trabalha, aprofunda-se em tudo e deixa o peso – e a preciosidade – do que está contando totalmente conosco. No final do livro, o autor nos larga com uma verdade sem fuga: uma vez iniciada a jornada ela nunca vai acabar. E a jornada continua.

Todos os Belos Cavalos – All The Pretty Horses (EUA, 1992)
Autor: Cormac McCarthy
Editora original: Alfred A. Knopf
No Brasil: Alfaguara (2017)
Tradução: Marcos Santarrita
Capa: Christiano Menezes
288 páginas

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...