Crítica | Todos os Homens do Presidente (1976)

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE

estrelas 4

Todos os Homens do Presidente é um filme conceito para a contemporaneidade. Alguns jornalistas investiram no enredo como fermento metafórico para discutir as questões políticas envolvendo o Brasil contemporâneo, sendo o filme quase “obrigatório” no circuito dos cursos de Comunicação Social e Jornalismo, utilizado como objeto de estudo das práticas éticas deste campo de atuação, além de ser um dos marcos do heroísmo estadunidense que as plateias ao redor do mundo tanto adoram.

A narrativa inicia-se com um interessante jogo metalinguístico: a mixagem de dois sons. Uma máquina de datilografar trabalha incessantemente, tendo como acompanhamento sons de tiros, numa alegoria sobre as palavras como “armas” em certas situações, principalmente as abordadas em questão: o escândalo político em Watergate, um dos maiores na história da orgulhosa nação estadunidense.

No filme, dois jornalistas investigam o caso para o jornal Washigton Post. Eles descobrem uma rede de espionagem e lavagem de dinheiro, informações que podem coadunar na renúncia do então presidente Richard Nixon, também apresentado nos momentos iniciais da produção, a circular pelo Congresso Nacional, antes das preocupações que o caso iria lhe trazer posteriormente.

Neste cenário jornalístico surgem os repórteres investigativos Robert Woodward (Robert Redford) e Carl Berstein (Dustin Hoffman). Juntamente com a equipe de redação, eles refletem que talvez a invasão realizada no edifício Watergate seja mais interessante adentrar nas páginas policiais, mas ao passo que alguns fatos se aproximam dos profissionais, o caso ganha novos contornos.

O que ocorreu durante a invasão dos cinco ladrões ao “imaculado” edifício não foi uma tentativa de roubo qualquer. Tratava-se de um amplo esquema de espionagem política que levou à renúncia do presidente Nixon, eleito em 1972, para execução do seu segundo mandato. As cenas durante a exibição destes fatos são permeadas por registros ficcionais bem elaborados, o que reforça o cuidado da produção ao reproduzir cinematograficamente o caso.

Assim, os jornalistas descobrem que os invasores foram apreendidos com câmeras e microfones. Ligados ao FBI e a CIA, as suspeitas de envolvimento no caso por parte do presidente Nixon aumentaram, fazendo-o sucumbir diante das pressões internas e externas em seu cotidiano, forçando-o à abandonar o caso.

Quatro décadas após o seu lançamento, Todos os Homens do Presidente, dirigido por Alan J. Pakula, roteirizado por William Goldman, tendo como base o livro homônimo de Carl Bernstein e Bob Woodward, montado por Robert L. Wolfe e orquestrado musicalmente por David Shire, é um filme que agrada a um amplo público. Apesar de não ter o dinamismo que a maldita contemporaneidade exige, haja vista os seus 138 minutos de duração e algumas cenas letárgicas, a produção é uma aula interessante de jornalismo, bem como funciona como narrativa “dramática policial de suspense político investigativo”.

Em sua dinâmica interna, Todos os Homens do Presidente pode ser considerado um filme cuidadosamente erguido. Os produtores não conseguiram autorização para filmar na redação original. Sendo assim, tiveram que reconstruir uma réplica da sede do Wasshigton Post em estúdio. Este local, fundamental para o filme, é o espaço da repetição, um ambiente sem o glamour que aparentemente existia na profissão de jornalista. As canecas de café para afastar o sono dos heróis estão presentes, personagens que precisam pensar como detetives, abandonando certos hábitos pessoais, distanciando-se da família e dos amigos por um bem maior: o amor ao trabalho e a propagação da “verdade”.

Por falar em dinâmica, a dupla Redford e Hoffman está magnífica. Robert como pragmático, cuidadoso com as fontes era o equilíbrio para Carl, desorganizado, menos metódico e despreocupado com a aparência. Ambos mergulharam profundamente na pesquisa para a construção dos personagens e convenceram em suas atuações desafiadoras, afinal, eles estavam diante da representação de personagens sociais vivos e atuantes na época, a espera das suas versões cinematográficas poucos anos após o escândalo político de proporções gigantescas.

No que tange aos aspectos metafóricos, o relógio está sempre presente em cena. “Como o tempo se curva ao impacto da gravidade”, os jornalistas sabem que assim como alimentar-se faz parte da agenda, é preciso manter uma boa relação com o tempo. Símbolo da ordem social no mundo urbano, o relógio surge no filme tal como a belíssima imagem proporcionada por Salvador Dalí em A Persistência da Memória: esvai-se, derrete-se diante dos fatos, por isso, é preciso correr o mais rápido que for, pois a notícia pode tornar-se perecível a depender da ordem dos acontecimentos seguintes.

Todos os Homens do Presidente foi bem na recepção crítica em 1976, além de ser indicado e premiado em um amplo feixe de categorias nos principais prêmios da indústria. Venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Jason Robards), Direção de Arte, Som e Roteiro Adaptado. Indicado ao BAFTA como Melhor Filme e também em diversas categorias técnicas, também foi ovacionado no Globo de Ouro.

Paradigmático, o filme nos fornece a representação de algumas teorias importantes para o jornalismo, com maior destaque para a hipótese da Agenda-Setting (teoria do agendamento) e do Newsmaking. No caso da teoria do agendamento, pressupõe-se que as notícias são como são porque os veículos nos dizem em que e como pensar diante dos fatos noticiados. A mídia nos diz sobre o que falar e de alguma forma pauta os nossos relacionamentos. Ao adentrar na seara do Newsmaking, a produção nos apresenta a teoria que aponta as notícias como parte de um esquema da rotina industrial que determina o que vai ser dito e circulado, organizando a rotina dos protagonistas através da prática da noticiabilidade, da sistematização e dos valores-notícia.

Em um mundo em que as redações atuais remodelaram informações que chegam por meio de agências de notícias, a prática jornalística, em muitos meios de comunicação, diluiu-se em apenas reestruturar o texto.  Todos os Homens do Presidente, mesmo sendo mais um produto que torna a imagem do jornalista um feixe de estereótipos, consegue mostrar que ainda hoje, mesmo descolado do contexto histórico do filme, é preciso ir além ao “lutar com as palavras” na elaboração das matérias, pois neste caso, não estamos diante de uma “luta vã”.

Como último ângulo à iluminar, percebemos que no percurso da história os personagens tornaram-se heróis. A mídia, numa representação máxima de sua alcunha de 4º poder, ganha uma representação benfeitora para a nação, diferente de tantos filmes que a apresentam apodrecida, banal e dissimulada, em exercícios de personificação dignos de uma boa aula de figuras de linguagem. Os heróis deixaram as suas vidas pessoais por causa do trabalho, mesmo diante do descrédito dos colegas e do perigo de vida iminente. Um belo “clássico” hollywoodiano, caro leitor, sem ironia.

Todos os Homens do Presidente (All the President´s Men) – EUA, 1976.
Direção:  Alan J. Pakula.
Roteiro: William Goldman, baseado no livro homônimo de Carl Bernstein e Bob Woodward.
Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Martin Balsam, Hal Holbrook, Jason Robards, Jane Alexander, Meredith Baxter, Ned Beatty, Stephen Collins.
Duração: 138 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.