Crítica | Todos os Paulos do Mundo

“O cinema é a principal identidade cultural de um povo.”

Apesar dos mais de 60 anos (dentre seus 81 de vida) dedicados ao trabalho na TV, teatro e até mesmo na rádio, o próprio Paulo José deixa claro que foi com o cinema que encontrou sua própria plenitude, tendo atravessado os mais diversos movimentos, sejam eles políticos ou não, que marcaram a história do cinema brasileiro, desde a concepção do Cinema Novo até o surgimento da condenável AI-5, que forçou a migração dos grandes nomes da tela grande para a telinha. Todos os Paulos do Mundo se aproveita de toda esta história para recontar/relembrar/repaginar e homenagear a figura de Paulo José, fazendo sua própria reflexão sobre a importância deste grande nome na nossa cinematografia.

Produzido por Vania Catani (de O Filme da Minha Vida) e dirigido por Rodrigo de Oliveira (de As Horas Vulgares e Teobaldo Morto, Romeu Exilado) ao lado do estreante Gustavo Ribeiro, o documentário abre mão dos depoimentos convencionais sobre a figura do homem para construir sua narrativa em cima de uma junção ambiciosa e absolutamente rica de imagens que resgatam o extenso trabalho de Paulo José no cinema, desde quando começou com Joaquim Pedro de Andrade em O Padre e a Moça, passando pelo icônico Macunaíma e chegando até os dias atuais com títulos como Quincas Berros D’água e O Palhaço. Enquanto as imagens de arquivo se desenrolam na tela, vozes em off pronunciam textos de autoria do próprio ator sobre sua própria vida, numa valorização admirável dos tantos nomes que marcaram a vida da figura, tais como Fernanda Montenegro, Selton Mello, Matheus Nachtergaele, Milton Gonçalves, Mariana Ximenes, Helena Ignez, Kika Lopez e diversos outros.

Partindo do trabalho de pesquisa de Amanda Baião (que roteirizou Capoeira, Um Passo a Dois), Oliveira e Gustavo tecem essa reunião de sequências histórias e antológicas que dão vida a essa reflexão contundente sobre os feitos e as dificuldades que marcaram a passagem do cinema brasileiro ao longo de seis décadas, celebrando a figura do ator das mais diversas formas e visões, reencenando os personagens de Paulo José através do naturalismo do próprio ator, cujas figuras que coleciona em sua filmografia se revelam uma desmistificação dele mesmo em cena, e como este deixa claro em um de seus depoimentos em off, “eu nunca construí personagem nenhum”.

Os diretores não se limitam a somente reencenar a carreira de Paulo José na tela, e aos poucos vão desnudando uma posição mais íntima sobre a própria vida pessoal do ator, em especial seu diagnóstico com o Mal de Parkinson, com quem Paulo lida e convive desde os anos 90. Não há um olhar fatalista ou melancólico sobre a doença. A celebração é o principal posicionamento dos diretores sobre como Paulo encarou sua doença como uma impulsionadora para seguir seu trabalho com mais afinco, e não se entregando a ela como um anúncio iminente do fim de sua carreira. É um filme de renovações, seja das imagens protagonizadas pela figura de Paulo José ou sobre o próprio enquanto um artista e um ser humano singular da nossa dramaturgia.

O que talvez falte a Todos os Paulos do Mundo seja uma apresentação menos ágil das cenas dos filmes de Paulo José, que enquanto funcionam como um estimulante exercício de cinefilia aos mais aficionados com o cinema nacional, podem facilmente passar despercebidos em seu peso simbólico e representativo ao público mais leigo que irá atrás do documentário justamente para conhecer mais sobre a importância de Paulo, e tamanha velocidade corre o risco de diluir um interesse mais aprofundado deste público. Mas a homenagem continua ali, límpida e honesta como este nome tão importante merecia, abrindo-se sobre sua vida quando necessário e deixando que as sequências de seus filmes, seu trabalho, sua arte, sua dedicação e seu amor pela vida falem por si só.

“Eu me sinto filmado.”

Todos os Paulos do Mundo (idem) – Brasil, 2017
Direção: Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira
Roteiro: Gustavo Ribeiro, Rodrigo de Oliveira, Amanda Baião
Elenco: Paulo José, Marieta Severo, Dina Staf, Joana Fomm, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Milton Gonçalves, Helena Ignez, Mariana Ximenes, Matheus Nachtergaele, Selton Mello
Duração: 88 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.