Crítica | Tom na Fazenda

estrelas 4

Filmado com baixo orçamento, de maneira rápida e quase em segredo após a conclusão de Laurence Anyways (2012), Tom na Fazenda é um rompimento notável de Xavier Dolan com a estética e a narrativa que dominou os seus primeiros filmes. Mais sóbrio, de concepção formal semi-clássica e bem alinhado às exigências do gênero em que se encontra, o longa é um thriller psicológico sobre o amor como prisão. Ou sobre a dificuldade que algumas pessoas possuem em se livrar de um amor, paixão, comportamento, trauma, etc., e, quase como uma forma de tentar se esquecer ou desviar a atenção de si mesmo e destes problemas, deixa-se levar pelas mais terríveis condições (se entendermos os diferentes cenários, podemos aproximar a condição de Tom à de Tore em Nada de Mau Pode Acontecer).

O roteiro, baseado em uma peça de Michel Marc Bouchard e adaptado para as telonas pelo próprio autor ao lado de Dolan, conta-nos a jornada de Tom, um jovem que vai visitar a família de seu noivo que falecera em um acidente. A visita acaba por se transformar em outra coisa quando Tom descobre que a mãe de seu parceiro não sabia que o filho era homossexual e que o irmão mais velho, Francis, tem um histórico preocupante de uso de violência extrema contra um rapaz da cidade.

A construção do suspense e do drama se dá sem pressa, mas não lentamente. A montagem, assinada pelo próprio Xavier Dolan, assume um papel de apresentação apenas do essencial, valendo-se dos planos fixos, close-ups e panorâmicas para apressar o passo e aproximar ou distanciar os acontecimentos do público de forma emotiva, ao mesmo tempo que estabelece com sucesso o tom de tragédia anunciada, delineado à perfeição pela trilha sonora de Gabriel Yared.

Utilizando muito bem a atmosfera claustrofóbica atribuída ao palco, Dolan e Bouchard concebem um roteiro que angustia o espectador por colocar em cena, inicialmente, a impossibilidade de escape e depois uma espécie de patologia que floresce em Tom, como se ele sentisse prazer em estar ali — a cena em que ele sugere levar Sarah para a cortante plantação de milho é assustadora. Nesse ponto, é quase impossível não fazer um paralelo com o horror psicológico de O Massacre da Serra Elétrica (1974) e, em influências gerais, fica clara a força de Alfred Hitchcock no enredo e na direção do filme, embora Dolan tenha dito em entrevistas que guardava o mestre do suspense apenas em uma memória distante, por ter visto suas obras na adolescência e só voltado a revê-los de maneira séria após a conclusão de Mommy (2014).

Na pele do protagonista do filme, Dolan também mostra um outro lado de sua capacidade como ator, um lado realmente bom. De seus papéis em seus próprios filmes, o destaque até o momento estava com Hubert, em Eu Matei a Minha Mãe (2009), situação que mudou após Tom na Fazenda. Dolan se dispôs a aprender com seus próprios erros e consertou aqui a maioria dos cacoetes de muitos diretores que atuam e dirigem, como a necessidade imperante de se dar grande destaque e minimizar personagens com potencial bem mais interessante para a história (e esse é apenas um dos problemas, claro). Aqui, o diretor e ator não só soube colocar-se de maneira ideal na tela como também relacionar-se sem atropelos com os outros personagens em cena. Como o elenco do longa é bem pequeno essa parte da tarefa parece ter sido fácil, mas por outro lado, colocou nas costas de Dolan o peso de sustentar o filme, responsabilidade que ele assumiu muitíssimo bem.

É muito interessante ver um diretor mudar sua foma de dirigir, sua concepção estética e sua maneira de contar uma história. Em Tom na Fazenda, o barroco moderno de Dolan deu lugar a uma grande objetividade, deixou de lado os elementos que desviavam a atenção do público (câmera lenta a cada vírgula emocional, zoom em excesso, destaque fantasioso para objetos caindo pelo cenário, etc.) e valorizou com vigor os personagens. Assim, ficou fácil destacar as cenas em que a fotografia realmente foi pensada para a criação de um salto dramático (as panorâmicas do carro, as tomadas dos cômodos da casa, os espaços particulares de Francis, o bar onde Tom descobre a violenta história…) e se maravilhar com as sequências-chave para a construção psicológica dos personagens, das quais quero destacar as verdadeiras pérolas tanto em texto quanto em técnica: o tango de Francis e Tom e a conversa de Agathe, Sarah, Francis e Tom em torno dos pertences do falecido.

Há um quê de estranheza em certos pontos do desenvolvimento e nos últimos cinco minutos do filme, especialmente nesse último caso, mas estes detalhes são até esquecidos no meio de tanta tensão e angústia destiladas durante a projeção. Xavier Dolan nos provou que não é o tipo de jovem artista que se acomoda com um ambiente que lhe é fácil guiar. Em Tom na Fazenda o diretor inova e arrisca ir além do básico, um teste cujo resultado traz uma amargura sentimental gigantesca para o público, juntamente com a sensação de que estamos diante de um grande diretor em formação.

Tom na Fazenda (Tom à la ferme) – Canadá, França, 2013
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan, Michel Marc Bouchard
Elenco: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy, Evelyne Brochu, Manuel Tadros, Jacques Lavallée, Anne Caron, Olivier Morin, Johanne Léveillé, Mathieu Roy
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.