Crítica | Tom of Finland (2017)

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Touko Valio Laaksonen foi um artista finlandês que ficou conhecido pelo seu trabalho de desenhos homoeróticos, uma arte de fetiche inicialmente marginalizada na Europa — embora circulasse no obscuro mercado das festas de “caça de faisão” ou “pôquer”, porque algumas de suas ilustrações lhe foram roubadas por um parceiro eventual — que ganhou real visibilidade nos Estados Unidos a partir de 1973, ano em que o mais famoso personagem do artista, Kake (publicado inicialmente em 1968), foi colocado em diversas histórias de conteúdo pornográfico ou soft porn gay que iam de simples painéis ou páginas duplas até HQs com pequenas histórias urbanas envolvendo motociclistas de roupa de couro e quepe até tramas eróticas no Velho Oeste.

Sob o pseudônimo de Tom of Finland, Touko criou ao longo dos anos 70 uma vasta admiração dentro da comunidade gay nos Estados Unidos, admiração que se estendeu por outros países à medida que as liberdades individuais foram sendo conquistadas e sua arte, assim como a homossexualidade, deixou de ser crime em boa parte das nações Ocidentais. Neste filme finlandês, realizado em co-produção com mais cinco países, temos a história de vida de Tom of Finland, começando com sua participação na II Guerra Mundial, seguindo pelos seus anos de trabalho como publicitário e fotógrafo, o início de seus desenhos de homens em poses eróticas, a passagem pelas dificuldades de ser homossexual em uma época de grandes restrições e em um país onde isso era ilegal e então o seu crescimento como personalidade em uma determinada região da Terra do Tio Sam.

O diretor Dome Karukoski (do ótimo Coração de Leão) cria de maneira rápida e com competência a base narrativa diretamente ligada à vida do artista, guiando os blocos de “pegações” no parque, da convivência de Tom com a irmã, de seu encontro e casamento com Veli, com que viveria por 28 anos, e em já avançado momento da fita, todo o impacto que a AIDS trouxe para a comunidade gay, com milhares de pessoas morrendo e a ainda viva horda condenadora voltando a ter destaque neste tema, dificultando alguns projetos de publicação que o artista tinha em andamento. Durante todo esse tempo, a direção acerta na exposição dos conflitos e ainda faz um ótimo trabalho com os atores, todos eles em boas performances, especialmente Pekka Strang, no papel principal. O que não funciona bem no filme são os desvios narrativos onde se cruzam diversos momentos da vida de Tom.

Talvez para dar uma aparência de maior ligação dramática, o roteiro de Aleksi Bardy (com uma série de colaborações e uma consultoria, o que não é de se espantar a aparência de remendo textual em alguns momentos) retoma o tormento da guerra e pula de uma situação para outra normalmente sem muita preparação. Embora o público entenda essas passagens tanto pelo desenvolvimento do personagem quanto pelas sugestões de avanço no tempo marcadas pela forte maquiagem e pela mudança de cor no cabelo do protagonista (confesso que em alguns momentos achei o rosto do ator deformado, com as bochechas maiores do que deveriam e até comparei com as fotos do verdadeiro Tom, não achando semelhança nesse aspecto), a montagem não administra bem a fluidez entre esses blocos, dando a impressão de pulo abrupto de uma sequência para outra deixada em aberto alguns minutos antes.

Ainda assim, Tom of Finland cumpre o seu papel biográfico e tenta mostrar o máximo de obras possíveis do artista, assim como seu talento secundário como pianista e uma certa culpa que ele se atribuiu em um dos momentos mais cruéis da história do século XX em termos de epidemias majoritariamente observadas dentro de um grupo social. A despeito dos problemas de ritmo e de ter um roteiro que interrompe o desenvolvimento de personagens para dar espaço a pequenos espetáculos, a obra entretém e consegue nos fazer entender o momento histórico e o apelo emocional e até social que o trabalho de Tom alcançou. Uma obra com momentos tocantes e muito importante para a comunidade LGBT, pelas ideias e discussões que sugere e pelo marco artístico que põe em cena.

Tom of Finland (Finlândia, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Islândia, EUA) — 2017
Direção: Dome Karukoski
Roteiro: Aleksi Bardy (com base em história co-escrita com Dome Karukoski, diálogos adicionais de Mark Alton Brown, Noam Andrews, Kauko Röyhkä e consultoria de Susanna Luoto)
Elenco: Jakob Oftebro, Pekka Strang, Troy T. Scott, Werner Daehn, Lauri Tilkanen, Jessica Grabowsky, Jimmy Shaw, Thorsteinn Bachmann, Seumas F. Sargent, Jan Böhme, Kari Hietalahti, Leif Edlund, Siim Maaten, Jan Lindwall, Taisto Oksanen
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.