Crítica | Tombstone – A Justiça Está Chegando

estrelas 2

Silverado e Tombstone (não usarei o ridículo subtítulo em português) são produções separadas por menos de dez anos e que têm muita coisa em comum: seus títulos são cidades, são faroestes do estilo preto no branco, com vilões vilanescos e heróis heroicos, têm elencos estelares (ou cujos atores, um dia, viriam a ser estrelas) e são longos, o primeiro com 133 minutos e, o segundo, com 130 em sua versão cinematográfica e 134 em sua versão do diretor. Além disso, ambos são dirigidos por diretores que, nessas funções, nunca foram expressivos.

O que, então, teria resultado em filmes tão diferentes em termos de qualidade? O que faz de Silverado um divertido faroeste e de Tombstone um arrastado suplício?

Tombstone é, claro, baseado em fatos reais, a famosa história de Wyatt Earp e o lendário duelo em O.K. Corral. O roteiro deixa isso muito claro com uma narração em off, que não só já determina que Earp (Kurt Russell) se aposentou de seu papel de xerife e procura, agora, abrir um negócio na cidade do título com seus irmãos Virgil (Sam Elliott) e Morgan (Bill Paxton) e suas respectivas esposas, como também nos apresenta ao grupo de bandoleiros simplesmente conhecidos como Os Cowboys. Isso é estabelecido literalmente nos primeiros três minutos de projeção, com todos já artificialmente reunidos na estação de trem, com direito até a reflexo no vidro, mostrando o quanto eles são felizes juntos. Mais cinco minutos carregados de diálogos expositivos, graças ao roteiro de Kevin Jarre (cujo trabalho anterior fora o excelente Tempo de Glória, o que torna seu texto, aqui, uma verdadeira incógnita) e, inexplicavelmente, o grande amigo de Earp, o pistoleiro tuberculoso Doc Holliday (Val Kilmer) se junta ao grupo.

E é justamente pela situação completa ser estabelecida nesses poucos minutos iniciais é que o roteiro, injustificavelmente, emprega a hora seguinte a simplesmente não desenvolver a história. É claro que vemos coisas novas aqui e ali, como um interesse romântico extraconjugal para Earp (a atriz Josephine Marcus, vivida por Dana Delaney), a rivalidade entre os dois completos – e absurdos – opostos, representados por Doc Holliday e Johnny Ringo (Michael Biehn) e o descontrole da cidade em razão de um xerife inoperante, mas nada disso é trabalhado com cadência ou mesmo inteligência, pois a estrutura se repete, com reiterações de situações já deixadas óbvias. Reparem, por exemplo, a quantidade de vezes que Wyatt e Josephine trocam olhares lânguidos ou como a conexão familiar entre os irmãos é martelada. Quando a culminação dessa metade do filme acontece e, por incrível que pareça, esse clímax é o duelo que tornou Earp famoso, o que vemos depois é quase que um outro filme, uma sucessão de montagens de vingança dois dois lados que cansa.

Além disso, Cosmatos faz pouco para tornar o filme visualmente atraente. Os valores da produção são bons, com eficientes figurinos e cenários convincentes, mas Cosmatos dirige como um burocrata do governo: sem energia, sem vitalidade, sem ir além do mínimo necessário para dar formato à sua obra. O mesmo vale para a trilha sonora pouco imaginativa de Bruce Broughton que ainda sofre de uma sincronização adiantada, que nos conta musicalmente o que acontecerá antes que aconteça, não que o desenrolar da narrativa seja alguma surpresa, claro.

No final das contas, o que sobra mesmo é a atuação de Val Kilmer como Doc Holliday, o único personagem com alguma profundidade na história e a realmente divertida missão de “achar Wally” ao longo de toda a projeção. Há desde já conhecidos à época, como os quatro principais, passando por participações importantes de Powers Boothe e Michael Biehn, além de nomes que ganhariam projeção na Sétima Arte como Thomas Haden Church (o Homem-Areia de Homem-Aranha 3), Michael Rooker (o Merle Dixon de The Walking Dead), Terry O’Quinn (o Locke, de Lost), Billy Zane (Cal Hockley, o “vilão” de Titanic) e Stephen Lang (Miles Quaritch, de Avatar) e isso sem contar com pontas de Charlton Heston (sim, até ele!) e de um irreconhecível Billy Bob Thornton. E, só de curiosidade, a fita conta também com um herdeiro do verdadeiro Wyatt Earp, com o mesmo nome de seu antecessor famoso e de Frank Stallone, irmão de, bem, você sabe quem.

Tombstone se distancia de Silverado, seu irmão mais velho, e não aprende com os erros dele. Ao contrário, George P. Cosmatos na direção e Kevin Jarre no roteiro agravam os erros cometidos originalmente por Lawrence Kasdan e o resultado é uma obra medíocre que poderia facilmente ter sido muito mais do que acabou sendo.

Tombstone – A Justice Está Chegando (Tombstone, EUA – 1993)
Direção: George P. Cosmatos
Roteiro: Kevin Jarre
Elenco: Kurt Russell, Val Kilmer, Sam Elliott, Bill Paxton, Powers Boothe, Michael Biehn, Charlton Heston, Jason Priestley, Jon Tenney, Stephen Lang, Thomas Haden Church, Dana Delany, Michael Rooker, Billy Bob Thornton, Billy Zane, Terry O’Quinn, Wyatt Earp, Frank Stallone
Duração: 130 min. (versão de cinema), 134 min. (versão do diretor)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.