Crítica | Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada É Impossível

estrelas 4

Chega a ser irônica a estreia em terras americanas do aguardado Tomorrowland na semana seguinte a Mad Max: Estrada da Fúria. Enquanto o longa bombástico de George Miller apresenta um futuro distópico violento onde o futuro foi completamente condenado, o novo longa da Disney vai exatamente no caminho contrário a esse, mostrando um futuro utópico em um filme família e cheio de positivismo. Essa abordagem um tanto diferenciada do que vemos nos últimos anos (apocalipses zumbis e diversos futuros distópicos) é só um dos vários pontos que fazem Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada É Impossível um dos melhores trabalhos recentes da Disney.

O longa liderado por Brad Bird (Os Incríveis, Missão Impossível: Protocolo Fantasma) tem sua inspiração nas ideias de Walt Disney para seu parque, mais diretamente baseando-se na atração de mesmo nome presente nos parques da empresa. E abre diretamente mostrando essa ideia, com o pequeno Frank Walker indo mostrar seu protótipo de jetpack na Fair World. Mesmo seu experimento sendo recusado, com a ajuda de uma garota misteriosa ele consegue uma pequena peça que permite sua passagem para uma terra bela e futurística. O desenrolar do longa narra a saga de Frank, agora envelhecido, e a jovem Casey Newton, buscando entender melhor esse lugar enigmático.

Brad Bird é extremamente bem sucedido no que se diz respeito a seus personagens e o desenvolver de seu roteiro. O que poderia ser algo entediante se torna algo precioso na mão do diretor. O desenrolar de Casey descobrindo sobre o misterioso broche que a leva para a tal “terra do amanhã” sempre quando o toca é instigante e curioso. Do início do longa até a aparição da misteriosa garota Athena para Casey e, finalmente, o encontro de ambos com Frank Walker já estamos na metade do filme. Mas é essa profundidade dada ao desenvolvimento dos personagens que gera um carinho imenso pela causa de cada um e pela história desse futuro utópico, evitando possíveis erros de roteiro. E, claro, se esse trio protagonista tem todo esse carisma, também é graças as interpretações e química perfeita de Clooney, Britt Robertson e a pequena Raffey Cassidy (que rouba a cena com suas acrobacias a la Hit Girl).

O grande acerto do longa também reside em sua ação pontual, que não chega a ocupar muitos minutos de tela, mas que leva o filme ao patamar de uma ótima aventura, assim como uma excelente ficção científica, como mostra a sequência de ação na casa de Frank. Nesse aspecto Tomorrowland lembra bastante um outro trabalho do diretor, Os Incríveis, já que este mostra um modelo parecido, com a formação de uma equipe bastante unida pela causa que lutam, uma abordagem bem família e uma dose de humor muito bem cadenciada.

É difícil esperar perfeição de um filme família em live action da Disney, assim, este também tem seus defeitos. E eles se encontram em seu terceiro ato, que é realizado com muito mais rapidez que o resto do filme. E é fato que essa pressa deixa confusa as motivações do antagonista (mesmo diante de um excelente discurso), assim como a resolução rápida de todo o problema. Mas mesmo esses problemas de roteiro parecem pequenos diante do objetivo e ideia que Tomorrowland tenta passar. Diante de tanto negativismo e tanta discussão sobre destruição do planeta, porque ninguém toma atitudes de mudança? Porque ninguém mais é positivo em relação ao futuro?

Por fim, Tomorrowland relembra uma discussão bastante em pauta nos últimos anos sobre a originalidade em Hollywood. E o filme mostra exatamente como essa Hollywood ainda pode fazer produtos inovadores, visto as ideias abordadas (indo contra a corrente) e o bom desenvolvimento do novo longa da Disney. E depois disso, é irônico ver tanta reclamação e uma resposta massacrante de parte da “crítica especializada” e do público, que não correspondeu nas bilheterias. Quando nem crítica e nem público contribui para uma renovação do cinema americano fica difícil prosseguir. Ao menos Brad Bird fez sua parte.

Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada É Impossível (Tomorrowland – EUA, 2015)
Diretor: Brad Bird
Roteiro: Damon Lindelof, Brad Bird, Jeff Jensen
Elenco: George Clooney, Hugh Laurie, Britt Robertson, Raffey Cassidy, Thomas Robinson, Tim McGraw, Kathryn Hahn, Keegan-Michael Key
Duração: 130 minutos

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.