Crítica | Toni Erdmann

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estrelas 4,5

Nossa relação com os pais nem sempre é simples. Às vezes, olhamos para eles e nos perguntamos como podemos ter sido gerados por pessoas tão diferentes de nós. Claro que nem todo mundo têm esse problema, mas a verdade é que relacionamentos entre pais e filhos são geralmente complexos. É baseado em uma relação familiar abalada que Toni Erdmann constrói sua história. Tema perfeito para o drama, certo? Mas, o que vemos aqui, é a diretora Maren Ade levando sua obra na direção oposta, gerando um filme surpreendentemente agradável.

O longa nos apresenta à Winfried (Peter Simonischek), um senhor que gosta de levar a vida pregando peças. Percebendo o afastamento de sua filha Ines (Sandra Hüller), Winfried decide visitá-la na cidade em que ela mora, Bucareste. A iniciativa não dá certo, resultando em vários enfrentamentos, o que faz com que ele ressurja na vida de Ines sob o alter-ego de Toni Erdmann.

Em sua premissa, Toni Erdmann é um longa sobre a relação conturbada entre pai e filha, desenvolvida com precisão pelo roteiro, escrito por Ade, que, além de possuir diálogos bruscos, opta também por cenas com longos silêncios entre os dois, estratégia inteligentíssima para ressaltar a dificuldade deles em estabelecer qualquer diálogo.

No entanto, o vínculo deles também funciona como uma perfeita representação de duas ideologias de vida opostas. Enquanto Winfried propaga o bom humor e mostra não se levar tão a sério, inclusive rindo de si mesmo; Ines é a imagem de uma mulher que encara tudo com extrema seriedade e que prioriza o trabalho acima de tudo, mesmo que tenha que fazer o que não quer para isso; nuances ressaltadas pelas excelentes atuações de Peter Simonischek e Sandra Hüller.

Ademais, o figurino é essencial para destacar ainda mais suas discrepâncias, repare como Winfried está sempre com roupas largas, confortáveis e desarrumadas, destacando seu jeito despojado e excêntrico; já Ines constantemente usa roupas justas, formais e bem cortadas, acentuando sua personalidade fechada e pensamento fixo no emprego, afinal, ela está quase sempre vestida como vai para o escritório.

Apesar de suas disparidades, os dois personagens principais são arrebatados pelo mesmo problema em suas vidas: a solidão; algo salientado pela direção segura de Ade, que decide por não enquadrá-los juntos em alguns momentos e, quando estão, são em direções opostas do plano, ressaltando o distanciamento deles. Outra estratégia é a utilização de enquadramentos que destaquem sua solidão, como alguns em que os protagonistas estão centralizados em torno de um imenso vazio. Os cenários também acentuam o isolamento de Ines, apresentando seu apartamento com um branco preponderante, aliás, o único momento com um colorido ali ocorre quando ela faz uma festa para o chefe e seus funcionários, mostrando como é capaz de mudar sua própria imagem pelo trabalho.

Portanto, a obra constrói um interessante conflito interno para os dois protagonistas, uma vez que, embora eles sintam o peso da solidão e vejam no outro a chance de sanar o problema, os modos distintos de enxergar a vida acaba por distanciá-los, resultando em diversas cenas de boa carga dramática. Se não fossem pequenos furos no roteiro, como a pouco explorada relação de Winfried com a mãe, Toni Erdmann seria impecável, mas nada que prejudique a qualidade da obra.

Além disso, Ines também é a representação perfeita de uma geração que têm o ímpeto de menosprezar tudo o que é antiquado, tende a culpar os pais por alguns fracassos e que, com tantas atitudes individualistas, resulta em pessoas desapegadas, centralizadoras e que optam pelo amor próprio acima de tudo, algo que fica explícito na excelente cena em que a protagonista canta The Greatest Love of All, popularizada por Whitney Houston, dizendo “Decidi há muito tempo a não caminhar à sombra de alguém. Se eu fracassar ou for bem sucedida, pelo menos vivi como acreditei”.

Porém, o filme trabalha todas essas questões sem cair no drama carregado, pelo contrário, a história é contada com leveza através de um humor afiado, resultando em cenas engraçadíssimas, principalmente quando Winfried comporta-se como Toni Erdmann, uma espécie de alter-ego do personagem, que serve em alguns instantes até como uma inteligente paródia aos executivos. Essa escolha de tom mostra-se inteligente por parte de Ade, uma vez que, torna a obra de fácil absorção para quem assiste, mesmo diante de temas difíceis de abordar, como a solidão.

Mesmo com a possibilidade de despencar para a dramaticidade, vemos em Toni Erdmann a importância de não se levar tão a sério e a importância de valorizar os bons momentos da vida com as pessoas que amamos, caso contrário, podemos cair na solidão. Aliás, a proposta do filme é uma grande representação dessa mensagem, uma vez que, mesmo podendo cair no melodrama, porque não levar nossa história com humor?

Toni Erdmann (Idem) – Alemanha e Áustria, 2016
Direção: Maren Ade
Roteiro: Maren Ade
Elenco: Peter Simonischek, Sandra Hüller, Lucy Russel, Michael Wittenborn, Thomas Loibl, Trystan Pütter, Hadewych Minis, Ingrid Bisu, Vlad Ivanov, Victoria Cocias
Duração: 162 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.