Crítica | Toque de Mestre

estrelas 2,5

Quem olha do palco para a plateia só vê claridade. E quem olha da plateia para o palco só vê o que está condicionado a procurar, onde a luz está focada. Esse vácuo entre um e outro possibilita o suspense entre o que você vê e o que acontece de fato, ou atrás da cochia, ou porque não mesmo diante dos olhos dos espectadores?! Um erro no palco consegue ser tido despercebido por conta do improviso, mas o filme Toque de Mestre (2013) não dá conta de driblar os tropeços do roteiro. O excesso de diálogo expositivo é um dos que mais incomoda.

Dos mesmos produtores de Poder Paranormal (2012) e Enterrado Vivo (2010), o filme perde a força narrativa depois da primeira metade. Essa é uma tentativa de thriller de suspense que bebe da luz de Brian De Palma — que por sua vez tem títulos hichcockianos — para resultar em algo ‘tosco’.

É interessante ver o pianista em um embate contra a confiança em si mesmo. E aí reside a chave desse suspense: o filme todo existe para que ele consiga enfrentar seus demônios no palco. A ação é impulsionada pelo telefonema que não pode ser interrompido. Será que ele está alucinando? Será que ele mesmo armou essa tramoia contra si?

Essa impressão nublada dos fatos funciona de certa forma como uma maneira de representar o conflito interno do personagem, de superestimar a aprovação do público. Em certo momento surge um questionamento que não vai longe e, como outras ideias, é pouco explorado. Quem está em evidência afinal, ele ou a esposa? Ele tem um talento sublime, um artista, enquanto ela representa o que há de superficial e efêmero.

O roteiro não permite um aprofundamento dos personagens. Apesar de se demonstrar oprimida pelo sucesso em certos momentos, a esposa não tem real expressividade na história. Nenhum personagem se sobressai além do pianista que, embora alimentado por um diálogo obtuso consegue exprimir certa tensão, já que ele só tem uma chance de acertar as teclas certas.

A trilha sonora é o concerto em que ele é o pianista solista. E a tensão do filme no início se impregna no som enérgico do dedilhar no piano, em contraste com a sutileza dos violinos. A premissa é interessante, tem boas soluções de suspense, mas não se propõe a fazer sentido, não tem a intenção de fechar os nós que abre. E rouba do filme a chance de cativar a plateia, dispersando o foco dos holofotes. 

Toque de mestre (Grand Piano, EUA/Espanha, 2013)
Roteiro: Damien Chazelle
Diretor:  Eugenio Mira
Elenco: Elijah Wood, John Cusack, Allen Leech, Kerry Bishé
Duração: 90 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.