Crítica | Torchwood – 1ª Temporada

estrelas 4,5

A não ser que você tenha passado os últimos 50 anos num Vórtex Temporal, é certo que já tenha ouvido falar da série Doctor Who, a mais longeva série de ficção científica da história da TV. Pois bem, na 2ª temporada de sua nova fase, Doctor Who trouxe um episódio chamado Tooth and Claw, que daria a oportunidade para o surgimento de sua primeira série spin-off. Nessa aventura, o 10º Doutor e Rose Tyler vão para a Escócia do século XIX, onde conhecem a Rainha Victoria e se vêm envolvidos em uma trama que, após ser resolvida, faz com que a rainha crie na propriedade onde se deram os fatos (Torchwood House), um lugar para investigar acontecimentos, aparições e artefatos humana e cientificamente inexplicáveis, ou seja, tecnologia e criaturas alienígenas: o Instituto Torchwood.

Exatos seis meses depois, em outubro de 2006, estreava Torchwood, série criada por Russell T. Davies, que na época, também estava à frente de Doctor Who.

O surgimento de TW foi a realização de um projeto que Davies tinha desde 2002, à época, chamado de Excalibur e que tinha uma proposta na linha de Buffy: a Caça-Vampiros. A ideia foi abandonada até 2005, quando Davies recebeu um novo convite para uma série dramática e, se aproveitando de um anagrama que corria nos bastidores da BBC – Torchwood é um anagrama de Doctor Who – criado para disfarçar as fitas com os episódios gravados da Nova Série (proteção contra o vazamento de informações, pirataria, etc. – afinal, qualquer mal intencionado poderia vazar o conteúdo de algo nomeado Doctor Who, mas ninguém daria a mínima se no lugar estivesse escrito Torchwood), escreveu o roteiro de Tooth and Claw como uma espécie de introdução à futura spin-off e alguns meses depois começou mais uma caça aos aliens, seus artefatos e mistérios.

Liderado pelo enigmático Capitão Jack Harkness, o Instituto Torchwood 3 (para saber mais, clique aqui) contava com uma pequena equipe bastante heterogênea, formata pela ex-policial Gwen Cooper, pelo médico Owen Harper, pela especialista em informática Toshiko “Tosh” Sato e pelo assistente geral Ianto Jones.

Além das profissões e funções dentro de Torchwood, há uma grande diferenças psicológica em cada uma dessas personagens, algo que faz com que a série tenha ainda mais a simpatia do espectador, pois mostra a diversidade encontrada em qualquer grupo de pessoas que trabalham juntas. Como o tema central desta temporada (modelo também usado no segundo ano do show) é rastrear e lidar com vida e objetos alienígenas, sempre com uma história própria a cada episódio, há a oportunidade de vermos a importância e o desenvolvimento de cada um dos envolvidos com a instituição.

A introdução da série não deixa espaço para dúvidas quanto as atividades do grupo em ação:

Torchwood. Fora do governo, acima da polícia. Lutando pelo futuro em prol da humanidade. O século 21 é quando tudo muda e [o Instituto] Torchwood está preparado.

É com base nessa promessa que vemos a apresentação do primeiro plot, com um weevil à solta em Cardiff e a luta da equipe para poder resolver o problema. Com um título simbólico (Everything Changes) temos além da trama para o alien assassino, o problema com uma das integrantes do grupo, Suzie Costello. A partir dos acontecimentos ao final desse episódio, temos fixada uma imagem definitiva do que é Torchwood: um verdadeiro motor para o ser antissocial de quem faz parte dele. Com o passar do tempo, percebemos que por mais que corram perigo, passem muito tempo juntos e trabalhem num dos lugares mais interessantes do mundo, o quinteto protagonista não se conhece de verdade. Talvez por uma convenção muda, para evitar problemas demasiadamente sentimentais quando for preciso agir racionalmente ou por não haver de fato um momento propício para relações extra-profissionais (não relações de verdadeira amizade). O fato é que toda a equipe de Torchwood é extremamente solitária, mesmo Gwen, que tem um noivo e uma grande surpresa pela frente. Mas talvez, para ela, essa afirmação mude na 3ª Temporada da série, denominada Children of Earth.

Talvez o episódio mais representativo dessa solidão – e sem dúvida, o mais doloroso e emotivo da temporada – seja Cyberwoman, quando conhecemos história de Ianto Jones e a sua grande perda. Mesmo que os episódios posteriores nos mostrem a profunda tristeza de Jack, Gwen, Toshiko e Owen, particularmente não vejo personagem mais amargurada que Ianto dentre os integrantes de Torchwood. Em Cyberwoman temos a oportunidade de conhecê-lo melhor, e também ao ator, que enfim teve a oportunidade de mostrar um excelente trabalho de manifestação emocional num episódio de arrancar lágrimas do espectador.

Um dos pequenos erros da temporada foi o relativo abandono de Rhys, o namorado de Gwen Cooper, no meio do caminho. Mesmo que houvesse fortes motivos para isso, a ausência do personagem é bastante sentida porque suas pequenas participações anteriores não eram apenas para fazer número, havia um sentido dramático para elas. Embora ele reapareça já na reta final, o dano causado pelo seu desaparecimento estava feito e ficou difícil esquecer essa falha. De qualquer forma, isto não constitui uma diminuição da qualidade geral da temporada, que acerta em quesitos de grande peso como em todos os setores técnicos (considerando os recursos financeiros e de produção disponíveis), no argumento central para a temporada, nos roteiros para as histórias individuais dos episódios e na criação de uma interessante mitologia já de início.

Com um finale eletrizante e um certeiro cliffhanger para a temporada seguinte, Torchwood conseguiu um incrível começo. A série conquistou o público através de um ótimo conceito, um roteiro bastante irônico e até cínico em algumas situações, personagens de pulsão sexual ou libido bastante livres (todo mundo pega todo mundo) e a feliz ideia de não economizar na criatividade para a apresentação das histórias. Tal inventividade aliada a personagens carismáticos (e um fantástico elenco), vida alienígena e manipulações temporais, compõem os ingredientes definitivos para uma série realmente incrível e que não faz feio frente ao mundo de um certo Senhor do Tempo.

Torchwood – 1ª Temporada (UK, 2006)
Showrunner: Russell T. Davies
Roteiro: Vários
Direção: Vários
Elenco: John Barrowman, Eve Myles, Kai Owen, Gareth David-Lloyd, Burn Gorman, Naoko Mori
Duração: 50 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.