Crítica | Torchwood – 3ª Temporada: Children of Earth

estrelas 5

Sob direção de Euros Lyn, a terceira temporada de Torchwood ganhou uma nova roupagem e apresentou mais uma vez um desempenho soberbo, trazendo, ao invés de uma história diferente a cada episódio, uma única linha de eventos para toda a temporada (que conta com apenas cinco capítulos de praticamente 1h de duração), escolha interessante e que trouxe uma inesquecível cadeia de acontecimentos e importantes mudanças para a série.

A história em questão dá o subtítulo da temporada, Children of Earth, e narra os acontecimentos em torno de uma espécie alienígena denominada “456”. Tendo aparecido na Terra no início dos anos 1960, esses aliens abduziram 12 crianças em troca de um antídoto para um super vírus capaz de exterminar uma parcela considerável da população mundial. Com o seu retorno ao planeta no início dos anos 2000, a espécie pede 10% da população de crianças de todo o mundo em troca apenas de preservar a espécie humana do extermínio.

Algo que eu não tinha visto nas temporadas anteriores de Torchwood, apareceu em Children of Earth: o impacto e as implicações sociais plausíveis em caso de uma invasão ou ameaça alienígena À Terra. Nesse ponto, as maiores representações humanas, sociológicas e políticas estão nos seguintes pensamentos: a) devemos sacrificar alguns milhões de crianças para salvar bilhões de pessoas de todas as idades?; b) devemos usar crianças que “não terão importância nenhuma” para a sociedade do futuro, ou seja, crianças órfãs de família e/ou pobres?

O impasse é realmente polêmico, afinal de contas, sabemos muito bem como esse tipo de pensamento sobre “exterminar uma minoria para salvar – ou beneficiar – uma maioria é o correto a ser feito” teve impactos catastróficos na História, cujo exemplo maior é o holocausto judeu, no programa de Solução Final, em idos dos anos 40. O acontecimento é tão poderoso, que coloca Jack Harkness em uma posição moral jamais imaginada.

E torno de todas essas questões, existem ainda os efeitos colaterais sobre as pessoas diretamente ligadas ao retorno dos “456” à Terra. De maneira muitíssimo eficiente, o roteiro desconstrói por completo a ideia de “bem” e “mal”, privilegiando os conflitos morais e de interesses emocionais das personagens e do próprio espectador, que é obrigado a escolher um lado, mas que não tem mais certeza sobre qual é o lado dos mocinhos, qual é o lado certo, qual a melhor posição a ser tomada em uma situação como essa.

Nessa esteira de efeitos colaterais, temos a complicada posição de Gwen em toda essa história, numa dupla de conflitos muito pertinentes: a) vale a pena arriscar-se em um serviço como esse quando se está esperando um bebê?; b) vale a pena trazer um bebê ao mundo num mundo como esse?

Na outra ponta, Jack também lida com problemas de consideráveis. Primeiro, ele se vê numa relação amorosa com Ianto, mas ao mesmo tempo, tenta cumprir a auto-promessa de não amar mais ninguém, principalmente porque sua condição de imortal – uma verdadeira maldição para qualquer ser – o faz sofrer enormemente a cada perda, seja através da idade, seja por acidentes ligados à atividade do Instituto Torchwood. Depois, ele tem um grande segredo escondido que lhe trará ainda mais dor e aumentará definitivamente a sua solidão: uma filha e um neto, a criança que será “sacrificada” para que outras milhões de crianças e todo o restante do mundo possa sobreviver – um dos momentos mais lancinantes de toda a série até esse momento.

Confesso que tal evento ocorrido no Finale da temporada me tocou profundamente. A construção da trama foi tão bem arquitetada pelos roteiristas que as histórias familiares mantiveram um nível de importância grande o bastante para caminharem junto com o drama moral dos governantes e também para a criação de uma mitologia em Torchwood, exatamente aquilo que vai definir a equipe da 4ª temporada.

A história das crianças da Terra foi certamente uma das melhores coisas que eu já vi na televisão e, sem sobra de dúvidas, uma inesquecível temporada de Torchwood. Um misto de emoção, ação, suspense e dramas de alta qualidade, este ano do show conseguiu trazer a sua reformulação em alto estilo e ainda nos dar um angustiante cliffhanger para a temporada seguinte. Até o Doutor ficaria orgulhoso disso…

Torchwood – 3ª Temporada: Children of Earth – Reino Unido, 2009
Showrunner: Russell T. Davies
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Russell T. Davies, John Fay, James Moran
Elenco principal: John Barrowman, Eve Myles, Kai Owen, Gareth David-Lloyd, Peter Capaldi, Paul Copley, Nicholas Farrell, Susan Brown, Lucy Cohu, Ian Gelder, Cush Jumbo, Liz May Brice
Duração: 1h (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.