Crítica | Torso

Torso

estrelas 3,5

Apesar de Banho de Sangue, de Mario Bava, ter servido de inspiração para alguns momentos dos primeiros filmes da série Sexta-Feira 13, Torso, dirigido por Sergio Martino, lançado dois anos depois, possui alguns elementos que foram mais apropriados pelas versões de psicopatas mascarados realizadas exaustivamente nos Estados Unidos no final de década de 1970 e ao longo dos anos 1980 e 1990.

Ao observar o desenvolvimento de Torso, percebemos claramente relações com Halloween – A Noite do Terror, Sexta-Feira 13 e Pânico. O assassino com a sua faca, luvas pretas (marco do gênero) e máscara de esqui cobrindo é o responsável por espalhar o terror entre as mulheres assassinadas por alguém com sérios problemas psicológicos.

O roteiro de Ernesto Gastaldi é bastante esquemático. O primeiro momento preocupa-se em desenvolver a trama na universidade, local de bastante circulação de pessoas, haja vista o caráter internacional da instituição, com pessoas de várias nacionalidades possíveis. É neste espaço que as primeiras vítimas serão executadas e o medo, espalhado que nem um rizoma por toda a região.

Inicialmente ele estrangula estas jovens, depois mutila os seus corpos. Caso algum homem seja dizimado (e será), o seu nome não constava na lista, mas a sua morte teve de ser decretada por conta de “estar no lugar errado, na hora errada”. Logo de cara surgem alguns suspeitos, mas nada se consolida. O assassino parece ainda estar solto e com sede de novas vítimas.

Neste ritmo somos convidados a adentrar na segunda parte do filme. Jane (Suzy Kendall), preocupada com a contagem de corpos, convida as suas amigas para um refúgio numa casa de campo, tendo em vista relaxar e se preservar diante da assustadora situação. Como já estamos tão calejados com este tipo de abordagem, sabemos que o assassino vai até o local e uma nova contagem de corpos será realizada.

O terceiro ato, por sua vez, é bem melhor que os anteriores. Várias cenas são conduzidas através do ponto de vista do assassino, sendo que após o extermínio da maioria das garotas, inicia-se um jogo de gato e rato com o que se convencionou chamar de “final girl”. O modus operandi do psicopata, sempre associado com uma montagem entre a própria vítima e imagens de uma boneca sendo abusada nos revela o grau do distúrbio do personagem, algo que aparecerá como desculpa para o desfecho deste tipo de narrativa ao longo das próximas décadas.

No que diz respeito aos aspectos técnicos, Torso possui planos e enquadramentos inusitados, alguns elementos da estética kitsch e eficiente trabalho de som/trilha de Guido e Maurizio de Angelis. O filme se chamaria Negro como o terror, Vermelho como o Amor, mas o cineasta Sergio Martino, em parceria com os produtores, acreditava que o título não era midiático e apelativo o suficiente para conseguir render uma bilheteria, no mínimo, razoável.

Perúgia, local perfeito por conta da universidade internacional, revela-se como um ótimo espaço fílmico, com becos e vielas, construções que mesclam modalidades artísticas distintas e fluxo de pessoas de várias localidades do planeta. O cineasta, bastante criativo, oferece enquadramentos diferentes do convencional, alguns inesperados, inclusive, num trabalho pouco reconhecido pela grande crítica, mas cultuado por aqueles que admiram o cinema menos monopolizado industrialmente. Martino fez cinema por conta do seu avó, profissional responsável pelo primeiro filme sonoro italiano em 1930, logo mais, adentrou na seara dos documentários, para mais adiante, experimentar o suspense e o faroeste, culminando no terror, gênero que o deixou mais conhecido.

Os giallos aparentemente possuem como base, produções literárias similares ao que foi produzido por Agatha Christie e Edgar Wallace, referências incrementadas com altas doses de erotismo e violência.  Há crimes, mistérios, e no caso de Torso, precursor do slasher estadunidense, temos um grupo de jovens incautas desesperadas com a presença de um maníaco mascarado dizimando cada uma das moças que estudam numa universidade, espaço de desenvolvimento do roteiro.

Torso foi censurado em vários países e chegou ao público através da internet e dos relançamentos em DVD, principalmente no caso das edições especiais com extras. O filme possui caráter cult e influenciou gerações de cineastas, bem como é considerado uma obra-prima por grandes nomes da indústria, tais como Quentin Tarantino e Eli Roth.

Torso (Torso) – Itália, 1973
Direção: Sergio Martino
Roteiro: Ernesto Gastaldi, Sergio Martino
Elenco: Suzy Kendall, Tina Aumont, Luc Merenda, John Richardson, Roberto Bisacco, Ernesto Colli, Conchita Airoldi, Carla Brait
Duração: 114 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.