Crítica | Touro Indomável

estrelas 5,0

Martin Scorsese, o diretor, é hoje considerado um dos grandes mestres do Cinema. “O maior cineasta americano vivo”, alguns dizem. E existem muitas razões para concordarmos com isso, afinal, a lista de filmes dirigidos por ele é impressionante, não em escala numérica!, mas qualitativa. No entanto, nem sempre foi assim. Em 1980, quando lançou Touro Indomável, pensava que este seria seu último filme. Sua obra anterior, New York, New York, de 1977 havia sido um tremendo fracasso, e ele ainda enfrentava o vício nas drogas. Nesta época, o diretor era visto como um dos consideráveis talentos que a Nova Hollywood vinha produzindo. Dentre esses talentos destacam-se, por exemplo, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e William Friedkin.

Com filmes como Caminhos Perigosos, de 1973 e Taxi Driver, de 1976, Scorsese provocou grande alvoroço nos Estados Unidos e no resto do mundo ao utilizar-se de técnicas cinematográficas vindas dos diretores europeus de vanguarda de uma forma nova e compatível com o cinema comercial norte-americano. O primeiro é notável também por se tratar da obra que inaugurou a primorosa parceria com Robert DeNiro, ator que mais tarde seria determinante para a carreira de Scorsese. O segundo, extremamente violento e perturbador (e novamente com Robert DeNiro em uma atuação que o consagrou de vez) lhe garantiu críticas entusiastas e o primeiro grande prêmio: a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

New York, New York não estava a altura de seus filmes anteriores, embora o orçamento tenha sido alto, digno de uma superprodução. Ao invés da exploração de personagem que havia sido tão bem-sucedida em Taxi Driver, no musical fracassado Scorsese optou pelo espalhafato. Trata-se de um filme de época realizado em grande escala. Grandiloquente, porém perdido. Por este motivo, os críticos passaram a olhar o diretor de outra maneira. Obviamente ainda destacavam sua qualidade como cineasta, no entanto, muitos chegaram a questionar se encontraria um novo rumo depois do fracasso (inédito para ele quando New York, New York tomou os cinemas), até porque as drogas o estavam destruindo…

Scorsese afirmou (em entrevista presente no disco bônus do DVD de Touro Indomável) que nunca se interessou por esporte, portanto ele jamais faria um filme como aquele, já que se tratava da biografia de um lutador de boxe que se gabava de nunca ter sido nocauteado, Jake LaMotta. Foi através da insistência de DeNiro que Scorsese aceitou o desafio. O ator convenceu o diretor de que não se tratava do esporte, mas do personagem fascinante, que possuía uma personalidade ambígua com a qual o próprio Scorsese poderia se identificar. E foi o que aconteceu.

O roteiro, escrito por Paul Schrader, sofreu diversas alterações drásticas, submetidas diante dos desejos de DeNiro e Scorsese, que discutiam diariamente sobre o enfoque que deveria ser dado àquele personagem tão cheio de possibilidades de interpretação. As discussões ocorriam com intensidade, justamente pelo fato de que ambos, ator e diretor, pensavam no filme como um momento-chave em suas carreiras: o primeiro precisava provar, depois de Taxi Driver, que ele seria capaz de se superar com uma atuação ainda mais marcante, já o segundo nem sequer considerava que poderia estar vivo antes do término das filmagens, dessa forma não tinha nada a perder. Os dois mergulharam física e psicologicamente no universo de Touro Indomável: Scorsese aprimorou ainda mais suas técnicas de filmagem, criando cenas de extremo realismo dentro da arena de luta, cenas estas que até hoje são referências pelo modo preciso com a qual foram coreografadas, fotografadas e filmadas. DeNiro engordou quase 30kg para viver LaMotta em sua fase decadente, e consagrou-se com o Oscar de Melhor Ator em 1981. A grande maioria dos críticos e cinéfilos consideram esta a grande atuação de toda a sua carreira que abrange mais de cinco décadas.

Por mais que se trate de um feito memorável, artisticamente desafiador e tecnicamente impecável, o filme não foi nem um pouco bem recebido pela crítica norte-americana no ano de seu lançamento. Segundo consta na página 12 do livreto da Coleção Cinemateca Veja ED.25 “publicações como Variety e Hollywood Reporter chegaram a sugerir que a fita não fosse distribuída”. A dureza e o realismo das cenas de luta e também do cotidiano cruel, além, é claro, da antipatia e do humor psicótico do personagem principal foram alguns dos motivos pelos quais a recepção inicial a Touro Indomável não foi nem um pouco calorosa. Acostumados a filmes cheios de cor, mais amenos, com uma linguagem menos rebuscada e palavrões censurados, os espectadores entraram em choque quando testemunharam o show de horrores em preto e branco apresentado sem concessões por Scorsese e sua equipe. Foi preciso que o tempo evidenciasse as qualidades incomparáveis da obra para que todos nós pudéssemos apreciá-la devidamente.

(…)

Assim que a logomarca da “United Artists” aparece na tela, começamos a ouvir as primeiras notas de um Intermezzo da “Cavalleria Rusticana”, composta por Pietro Mascagni. Trata-se de uma bela e delicada canção, que inaugura o filme em tom sereno. Essas primeiras notas são tocadas de uma maneira suave, sem qualquer intensidade. Trata-se de uma canção melancólica, sim, porém não há nela espalhafato nem qualquer tipo de excesso, principalmente em seus segundos iniciais. Os nomes de Robert Chartoff, Irwin Winkler (produtores), Martin Scorsese (diretor) e Robert DeNiro (ator) são apresentados sob a tela escura acompanhados da trilha sonora, ainda tímida.

Assim que vemos a imagem do “Touro Indomável”, anônimo, coberto por um roupão que não nos deixa assimilar sua face, em preto e branco, preso no canto esquerdo de um ringue amaldiçoado pela fumaça desnorteante que o circunda, a Cavalleria Rusticana – como se almejasse acompanhar o glorioso teor da fotografia (que até parece uma pintura) – se rompe em intensidade; expande-se ao tiro certeiro de uma só nota tocada por toda a orquestra. Vislumbramos algumas cabeças próximas ao ringue, silhuetas fantasmagóricas do publico. No alto, centralizado, um painel de luzes esbranquiçadas respira com dificuldade por entre a fumaça. O “Touro Indomável” dá leves saltos, movimenta os braços, porém jamais muda de posicionamento: ele fica concentrado no canto esquerdo do ringue. Três cordas grossas, firmes, dispostas em linhas horizontais, cortam a imagem, na frente do personagem, nos lados e atrás. São as cordas que delimitam o espaço do ringue. As da frente, mais especificamente, chamam a atenção por estarem em evidência no foco: elas são mais nítidas que o próprio Touro Indomável – e sua tonalidade é tão escura que mais parecem três faixas pretas extra-diegéticas do que cordas de ringue. Em cada canto, há uma estrutura vertical que sustenta o corpo do cenário. O titulo do filme surge no canto direito, em vermelho vivo, contrastando com o preto e branco que emoldura toda a cena.

Conforme o Touro “dança” em câmera lenta, ensaia seus socos no ar e curva-se como se estivesse prestes a acertar o oponente em cheio, os créditos do filme são apresentados para o espectador. (No canto direito, em letreiros brancos, entre uma corda e outra). Fotógrafos insistentes tiram diversas fotos com flashes, que vez ou outra piscam de um lado, enquanto o Touro continua a movimentar-se alheio a tudo o que o cerca.

Em alguns raros momentos, o Touro avança lentamente em direção à câmera, e tudo o que podemos ver é a sombra que cobre seu rosto misterioso. Quando os créditos estão para acabar, é exatamente isso que acontece: o homem se aproxima, como se fosse revelar-se de vez para o espectador; ainda assim permanece anônimo. E ao virar-se de lado para a câmera novamente, vislumbramos um pouco de seu rosto de perfil, mas nada que possa de fato fazer com que desvendemos suas feições. A cena acaba quando o Touro retorna ao ponto onde tudo começou: mais dois socos no ar e fim.

Toda a sequência se dá em um ambiente claustrofóbico. Trata-se de um ringue, ambiente que por si só já é intimidante. É fechado, cercado por cordas, delimitado por linhas perpendiculares que sufocam. No entanto, há ainda em evidência o caráter carcerário na forma com a qual Scorsese escolheu filmar a ação: o enquadramento fixo aplicado pelo diretor remete a um quadro em movimento, no qual estamos presos e não podemos sair: enquanto a câmera não se movimentar, a cena continuará a ser como um quadro. E a câmera não se movimenta.

A mise-en-scène, aliás, é precisa porque abriga em um único plano, todos os elementos necessários para a devida apresentação do personagem que acompanharemos ao longo das aproximadas duas horas de duração de Touro Indomável. Como se trata da primeira cena do filme é plenamente entendível que nela estejam contidas pequenas maravilhas visuais que servem como forma de introduzir o espectador no mundo em que aquele personagem vive. As cordas que cortam o ringue e apresentam-se de forma vigorosa, como se estivessem dividindo o Touro em varias partes, representam uma constante de impacto: elas o acompanham durante toda a sua trajetória, afinal, ele é um lutador de boxe. Nos ringues e fora delas, as cordas parecem existir, porque a impressão que se tem quando o filme acaba é a de que o Touro jamais saiu de dentro daquele “quadro” que nos é apresentado de início: ele vive toda a sua vida como se estivesse dentro do ringue, sozinho, ensaiando socos aleatórios que atinjam quem por ventura ousar cruzar o seu caminho. Por este motivo, não seria exagero afirmar que a cena de abertura de Touro Indomável serve de síntese poética do filme inteiro.

A fotografia em preto e branco contribui para que se constitua logo em primeira instância esse clima infernal. Chega a lembrar um sonho: a neblina que cobre todo o ringue, os flashes das câmeras, os movimentos brutos do Touro transformados em singelos pela lentidão com que são registrados e a canção italiana, repleta de melancolia, capaz de emular uma dança por parte do homem transtornado – quando na verdade o que há é uma luta consigo mesmo.

Essa estética de estilização das coisas está diretamente ligada ao campo dos sonhos: associamos a câmera lenta, por exemplo, a um sonho, já que não é possível nos movimentarmos desta maneira quando estamos acordados. Ao mesmo tempo, a própria suntuosidade da imagem em si remete a um mundo paralelo, onde tudo é mais bonito. Desta forma, a representação de sentimentos cruéis e de uma ideia de isolamento contidas na sequência inicial do filme acabam se tornando, diante do espectador, uma bela paisagem fílmica, cuidadosamente tramada para enfeitiçar os olhos daqueles que buscam no Cinema a válvula de escape para suas vidas – na maioria das vezes nem tão sofridas como a do Touro Indomável.

Depois da porrada inicial, não há nada além de pura e simples obra-prima: filme-quadro; quadro-filme. O Scorsese à beira da morte era um Scorsese mais vivo do que nunca, e sua excepcional Arte explodia na tela, inflamada em violência, sangue, grito, terror, e: música.

Touro Indomável (Raging Bull) – Estados Unidos, 1980
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Jake LaMotta (livro), Joseph Carter, Peter Savage, Paul Schrader, Mardik Martin (roteiro)
Elenco: Robert DeNiro, Frank Topham, Joseph Bono, Frank Adonis, Mario Gallo, Theresa Saldana, Nicholas Colasanto, Frank Vincent, Joe Pesci, Cathy Moriarty, Lori Anne Flax
Duração: 129 min.

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).