Crítica | Toy Story 2

estrelas 4

Lançado quase que exatamente quatro anos após o originalToy Story 2 fora inicialmente concebido como uma animação a ser liberada direto para o vídeo. Durante o processo de criação, contudo, acreditando no potencial da obra, a Pixar determinara sua estreia nos cinemas. A decisão, porém acarretou em alguns problemas de produção, naturalmente envolvendo um curto tempo para a filmagem (apenas nove meses), apoiada em um roteiro que fora escrito em apenas um final de semana. Tais fatores acabam influenciando na qualidade do filme, que não consegue superar o primeiro, mas que está muito longe de ser algo fora do padrão de qualidade que o estúdio já estava firmando com Toy StoryVida de Inseto.

A projeção tem início com uma sequência de abertura que nos mergulha de cabeça em uma ficção científica, vemos Buzz Lightyear lutando para entrar na fortaleza de seu velho inimigo, o Imperador Zurg enquanto a tela é preenchida com referências a Star Wars, que vão desde efeitos sonoros até o recepcionista do palácio de Jabba. Descobrimos logo após que se trata de um videogame sendo jogado por Rex, o dinossauro de brinquedo de Andy. Pouco depois o trampolim da trama dá as caras: uma venda de garagem que acaba acarretando no roubo de Woody (Tom Hanks) por um colecionador de brinquedos antigos. Ocorrido isso, seus velhos amigos, liderados por Buzz (Tim Allen) devem entrar em uma expedição para resgatar o boneco e levá-lo de volta para a casa.

Há nítidos elementos reciclados do original no roteiro de Toy Story 2. Toda a linha de “devemos voltar para o quarto de Andy” evidentemente retoma a narrativa do primeiro filme, nos trazendo um forte sentimento de que já vimos aquilo antes. O sentimento de Woody em se sentir velho, obsoleto também está de volta, dessa vez motivado pelo seu braço rasgado. Tal ponto, contudo, é utilizado pelo roteiro a fim de abordar outras temáticas, mais especificamente o envelhecimento, o abandono e que a importância de nossas ações não estão atreladas necessariamente ao fim delas, em outras palavras um carpe diem. A morte, claramente, assume o palco de forma mais velada, metaforizada, assumindo posição de destaque especialmente na sequência onde descobrimos o passado de Jessie (Joan Cusack), onde a angústia é garantida, especialmente ao som de When She Loved Me, de Sarah McLachlan – que, por sua vez, seria explorado mais a fundo em Toy Story 3. Apesar de ser mais do mesmo sob inúmeras óticas, a animação, portanto, se sustenta como singular, não temendo abordar tais questões e garantindo sua profundidade narrativa.

Outra temática abordada de forma muito interessante na obra é a função dos brinquedos, como objetos para se divertir ou como itens de colecionadores, algo que ganha um maior escopo a cada dia, evidentemente motivado pelos blockbusters de super-heróis. O roteiro evidentemente defende-os como artigos a serem utilizados e não apenas deixados em uma prateleira, fator apoiado ainda mais pela diferença entre o quarto de Andy – com cores mais claras e uma maior iluminação – e o apartamento de Al (Wayne Knight), onde a penumbra é quase uma constante. O máximo dessa contraposição é a magistral sequência de restauração de Woody, que demonstra toda a ousadia do estúdio em trazer a cena para um filme que muitos (infelizmente) veem apenas como para crianças.

 No terreno da animação em si, todavia, a Pixar não deixa nem um pouco a desejar, trazendo melhorias evidentes às técnicas utilizadas. Texturas mais bem detalhadas e movimentos mais fluidos são implementados, garantindo ainda mais vida aos bonecos, sem, contudo, fazê-los perder sua identidade visual. Mais e mais conseguimos acreditar que se trata de pedaços de plástico e pano e novamente suas composições são maravilhosamente bem aproveitadas – vide o braço de Woody. O único ponto difícil de acreditar, porém, é como um cavalo de brinquedo consegue se manter no ritmo de um avião, nada, porém, que um pouco de suspensão de descrença não resolva.

Toy Story 2, portanto não cai muito longe da árvore que é o primeiro, mas não é por isso que não consegue se sustentar como uma obra única dentro de suas próprias inegáveis qualidades. Pode não superar o original, mas certamente representa mais um sucesso de um estúdio que já estava se firmando como padrão de excelência e que, com isso, estabelecera sua primeira franquia, que seria retomada somente onze anos depois com o fantástico Toy Story 3.

Toy Story 2 (idem – EUA, 1999)
Direção:
 John Lasseter, Ash Brannon, Lee Unkrich
Roteiro: Andrew Stanton, Rita Hsiao, Doug Chamberlin, Chris Webb
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Kelsey Grammer, Don Rickles, Jim Varney, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Annie Potts, Wayne Knight
Duração: 92 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.