Crítica | Toy Story

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estrelas 5,0

Toy Story é um marco definitivo na história do cinema, sendo não apenas o primeiro longa-metragem da já renomada Pixar, como o primeiro a ser criado completamente em computação gráfica – sim, temos o brasileiro Cassiopéia disputando esse título há anos, mas não entrarei na polêmica, coloco-o dividindo a primeira posição com os brinquedos. O que mais impressiona no desenho é como sua animação, mesmo já tendo mais de dez anos se mantém até hoje, não sentimos o peso de sua idade influenciando nossa percepção, trazendo a ideia de este ser um verdadeiro clássico ainda mais à tona.

Tudo começa no quarto de Andy, uma criança como qualquer outra brincando com seus brinquedos. O que não esperamos, contudo, é que, quando ele sai do quarto, os pequenos objetos começam a se mover, demonstrando possuírem vida própria. O líder desses, brinquedo preferido de Andy, é Woody (Tom Hanks), um cowboy de plástico e pano que atua como espécie de prefeito dentro do quarto. Sua posição, porém, começa a se abalar com a chegada de Buzz Lightyear (Tim Allen), um boneco de ação que acredita piamente ser um patrulheiro estelar. A situação se complica ainda mais quando os dois se perdem de seu dono e, portanto, devem encontrar seu caminho de volta antes que ele se mude de casa.

A Pixar faz sua entrada triunfal com Toy Story nos trazendo um mix perfeito de humor e aventura, construindo uma narrativa que atua em diferentes camadas, atingindo de crianças a adultos, consolidando o que se tornaria uma de suas maiores marcas ao longo dos anos. É muito interessante observar como nossa percepção da obra se altera com o passar dos anos, especialmente para alguém que cresceu junto do longa. Temáticas comuns, como a chegada de um garoto novo ou a aceitação das diferenças, o medo de se perder um amigo, são todas trabalhadas e funcionam como a mensagem positiva a ser passada para o público jovem – não se trata apenas de um simples entretenimento, por trás dele há importantes lições que não devem ser ignoradas.

Mas limitar a criatividade da obra à sua abordagem de tais temáticas seria um grande equívoco, já que temos aqui a primeira das visões (em tela grande) extremamente ousadas da Pixar, que posteriormente nos traria monstros, peixes, robôs silenciosos e muito mais. Naturalmente a escolha de brinquedos para o palco central perfeitamente se encaixa com a técnica de animação em si. Primeiro porque é mais fácil burlar um dos mais problemáticos fatores da computação gráfica: o peso dos objetos – algo muito mais facilmente trabalhado com elementos de maior leveza, como brinquedos. O segundo, porque a aparência de plástico dos personagens principais é o que ajuda o filme a se manter atual com o passar dos anos – a porosidade da pele não precisa ser trabalhada, o movimento dos cabelos não requer emulação (um aspecto central de Valente). Ao invés disso temos uma criativa exploração da composição de cada boneco, com suas articulações sendo todas levadas em consideração – basta observarmos o correr de Woody, que balança seus braços para frente e para trás em comparação ao maior enrijecimento de Buzz, algo que também dialoga com suas personalidades, um mais humano e outro com mentalidade mais direta e certeira.

A obra ainda traz uma ótima exploração de elementos da cultura pop, fazendo inúmeras referências, que vão desde o clássico Grito Wilhelm mais visivelmente percebido até a evolução do cinema em si. Percebam como Woody, que poderia representar o gênero western é deixado de lado em favor de Buzz, que, por sua vez, traz o sci-fi à tona, possibilitando um link com o cansaço do gênero do faroeste clássico americano em detrimento de abordagens diferentes, algumas das quais, naturalmente impulsionadas pela corrida espacial. No fim, até mesmo a mensagem final de Toy Story se encaixa nesse fator: a coexistência mutuamente benéfica de ambos. O que mais chama a atenção, porém, é a utilização de brinquedos clássicos, como o Cabeça de Batata, para seus personagens, algo que, evidentemente, evoca para o saudosismo de gerações que lembram de suas infâncias.

Todo esse esforço criativo, porém, cairia por terra não fosse o ótimo trabalho de dublagem conduzido, especialmente, é claro, pelas vozes principais de Tom Hanks e Tim Allen. Esses emprestam todo o carisma dos dois atores para perfeitamente compor as conflitantes personalidades do sheriff e do astronauta e muitas vezes o humor somente funciona pela invejável química existente entre os dois. Em ponto algum sentimos como se suas vozes não pertencessem aos personagens, o que apenas contribui para nossa inabalável imersão dentro da narrativa.

No fim, Toy Story é uma obra que nos faz sentir como verdadeiras crianças, esquecendo da vida e rindo do começo ao fim. Uma verdadeira aventura de se cativar a qualquer um que inicia com o pé direito a jornada cinematográfica da Pixar. Mesmo com seus gráficos de mais de vinte anos, o filme se sustenta com a mesma força de 1995, sendo facilmente uma obra atemporal que merece ser visitada e revisitada inúmeras vezes.

Toy Story (idem – EUA, 1995)
Direção:
 John Lasseter
Roteiro: Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen, Alec Sokolow
Elenco (vozes originais): Tom Hanks, Tim Allen, Don Rickles, Jim Varney, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Annie Potts, John Morris
Duração: 81 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.