Crítica | Traição no Planeta dos Macacos

estrelas 5,0

É sempre com desconfiança que leio prefácios de livros e quadrinhos. Obviamente elogiosos, eles tentam vender uma história que nem sempre se concretiza, desapontando o leitor duplamente quando o prefaciador é alguém que ele respeita.

Traição no Planeta dos Macacos tem um prefácio de ninguém menos do que Ed Brubaker, o fantástico roteirista responsável, dentre outros, por anos de excepcionais arcos do Capitão América, com a criação do Soldado Invernal, do Demolidor e do Punho de Ferro e por HQs autorais como Criminal e Fatale, além de ser um dos roteiristas do reboot de Westworld, pela HBO. Ele começa justificando sua paixão incondicional pela mitologia dos símios e, em seguida, rasga elogios ao trabalho de Corinna Bechko e Gabriel Hardman, considerando essa minissérie em quatro edições como a melhor já feita nesse universo, algo que causa desconfiança considerando o ótimo trabalho clássico da Marvel Comics na década de 70 e a própria maxissérie Planeta dos Macacos da BOOM! Studios e concluindo que ela é como se fosse Dr. Zaius: Ano Um, afirmação ainda mais hiperbólica em razão, claro, da comparação imediata que ele quis fazer com Batman: Ano Um.

Portanto, foi preparado para me desapontar que comecei a ler a breve história, que se passa 20 anos antes do filme original de 1968. Nesse momento da vida símia, na visão dos autores, a divisão em castas é mais contundente, com a noção de chimpanzés galgando postos científicos sendo completamente rejeitada. Por outro lado, tolera-se os humanos mudos andando livremente por Ape City e o Dr. Zaius acabou de se tornar membro do conselho de orangotangos que lidera a cidade.

Zaius mostra-se um símio muito mais amigável aos humanos do que vemos no filme clássico, com seu primeiro julgamento sendo o de outro orangotango, Cato, acusado de ensinar linguagem de sinais a um humano batizado de Terc. Em sua defesa, vem o advogado – e antes general – Aleron, um respeitado gorila caolho que tem uma visão mais humanitária, de certa forma emulando o gorila albino Nix, que vimos na maxissérie Planeta dos Macacos.

Admirem a beleza dessas splash pages!

Admirem a beleza dessas splash pages!

A absolvição de Cato catalisa os eventos da narrativa, com uma pérfida trama repleta de traições e reviravoltas que envolvem o passado de Aleron há 15 anos, algo abordado a conta-gotas em flashbacks no início de cada edição, a perda da inocência de Zaius e a alteração do status quo da sociedade símia. O cuidado do roteiro de Bechko e Hardman em estabelecer a história como um prelúdio do que testemunhamos a partir da chegada do astronauta George Taylor à Ape City em O Planeta dos Macacos é impressionante, lidando com uma complexa trama que estabelece os alicerces do que vemos no filme sem quaisquer idiossincrasias.

Cada um dos dois principais personagens – Zaius e Aleron – é bem desenvolvido, notadamente o futuro Ministro da Ciência que cresce horrorizado pelos acontecimentos que vão moldando seu pensamento futuro, intolerante em relação aos humanos por temer o que eles podem representar para a sociedade símia. Mas Aleron ganha excelentes contornos, tornando-se um personagem com quem os leitores podem facilmente identificar-se. Trata-se de um gorila impiedoso, mas justo, que bate de frente com Ursus, aqui ainda apenas um soldado, em um conflito que mostra a diferença de pensamento que existe dentro de cada raça símia. Com isso, a narrativa é fluida, ao mesmo tempo familiar para quem conhece bem a franquia e marcada por surpresas bem estruturadas e construídas, jamais parecendo artificiais ou “tiradas da cartola”.

A arte de Gabriel Hardman é, assim como o roteiro que co-escreveu, fenomenal. Detalhada, com feições símias e humanas muito expressivas e dinâmica nas sequências de ação, o artista ainda sabe manipular à perfeição a progressão narrativa por intermédio de quadros que se movimentam com a história, evitando que o econômico, mas eficiente texto fique no caminho. Suas splash pages, usadas cirurgicamente, amplificam a sensação quase cinematográfica que sua arte passa. Finalmente, as cores intensas de Jordie Bellaire também ajudam muito na visão geral da história, mantendo uma atmosfera tensa e de certa forma desesperançosa, ajudando também a marcar visualmente cada raça símia.

Ed Brubaker tinha razão em chamar Traição no Planeta dos Macacos de Dr.Zaius: Ano Um. Mais do que isso, ele acertou em cheio ao asseverar que esta é a melhor história em quadrinhos desse universo símio. Um prefácio que, muito longe de desapontar, canta a pedra de forma certeira para uma HQ da mais alta qualidade.

Traição no Planeta dos Macacos (Betrayal of the Planet of the Apes, EUA – 2011/12)
Contendo:
Betrayal of the Planet of the Apes #1 a 4
Roteiro: Corinna Bechko, Gabriel Hardman
Arte: Gabriel Hardman
Cores: Jordie Bellaire
Letras: Ed Dukeshire
Capas: Gabriel Hardman com Jordie Bellaire
Editora original: BOOM! Studios
Data original de publicação: novembro de 2011 a fevereiro de 2012
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 132 (encadernado americano, com galeria de capas alternativas)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.