Crítica | Trainspotting – Sem Limites

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estrelas 4,5

Danny Boyle certamente é um daqueles diretores que merecem ser observados de perto. Com uma filmografia bastante variada, que vai do apocalipse zumbi até cinebiografias, como é o caso do recente Steve Jobs, o realizador busca sempre manter o foco no psicológico de seus personagens e, no processo, acaba dando destaque para o talento de inúmeros atores ainda em ascensão – vide Ewan McGregor ou Cillian Murphy. Trainspotting – Sem Limites não é exceção, e nos mergulha no mundo das drogas de forma tão desconcertante quanto Réquiem para um Sonho, que seria lançado quatro anos após.

A trama gira em torno de Renton (Ewan McGregor), um jovem escocês que desde cedo se entregou ao vício da heroína. Similarmente ao filme já citado de Aronofsky, a história já se inicia com esse estado do personagem estabelecido. O curioso é que, mesmo assim, o que vemos é o auge dessa fase de sua vida. Conforme tudo vai por água abaixo, o protagonista é obrigado a lutar contra a substância, mesmo que com grande relutância. Podemos dizer que a obra é, portanto, um alerta do quão difícil pode ser largar esse hábito e como a pessoa sempre é puxada de volta pela droga. Mas limitar Trainspotting somente a isso seria um equívoco, visto que, acima de um longa que busca apresentar uma moral, ele se traduz como uma verdadeira experiência sensorial.

Há um toque de rebeldia na narração em off que logo nos apresenta aos personagens centrais da obra. Desde cedo já entendemos a necessidade de Renton em fugir da mesmice, desse sistema tão clichê que tira qualquer esperança de individualidade. Entendemos que ele busca sentir a vida e não apenas passar por ela tendo sua personalidade apagada e entregue à rotina do dia-a-dia. Com isso já sentimos uma imediata proximidade ao protagonista, ao passo que a estrutura narrativa segue aos moldes de Os Bons Companheiros, por exemplo, que primeiro nos mostra os atrativos dessa vida, para depois desconstruí-los.

É interessante observar como essa voz fora da tela do personagem consegue não se caracterizar como algo excessivamente didático. Muito pelo contrário, ela atua em conjunto com os elementos diegéticos para construir a cena, não busca explicar algo que já é mostrado. Através dela entendemos o que se passa na cabeça do jovem, grande mérito para o roteiro adaptado de John Hodge, que, merecidamente, recebeu uma indicação ao Oscar pelo seu trabalho. McGregor ainda consegue, em sua voz, transmitir uma grande dose de sentimentos que perfeitamente condizem com o que assistimos, como se efetivamente sua mente estivesse sendo transcrita pelo áudio.

Evidentemente que não é somente nesse quesito que o ator principal se destaca. Ewan consegue explicitar um misto de emoções, dúvidas e anseios que apenas tornam seu personagem ainda mais fascinante. Ele é imprevisível e ora parece ter controle de sua vida, ora parece estar sendo apenas levado pela maré, o que gera um delicioso antagonismo com sua ideia de libertação através das drogas, sua válvula de escape, que, na realidade, apenas o leva para outro compartimento fechado, somente mais uma prisão física e psicológica.

Com uma direção precisa, que sabe exatamente quando trazer planos mais fechados e abertos, a fim de mimetizar o efeito da heroína, Boyle nos joga para dentro da cabeça de seu personagem principal. Os efeitos práticos utilizados também são impressionantes e conseguem nos trazer uma imersão sem precedentes, que mantém nossa atenção totalmente fixada na tela. Sua loucura, suas viagens se tornam as nossas e uma curta projeção de apenas 94 minutos se dilata, nos trazendo a impressão que estamos acompanhando Renton por horas a fio. E isso não é um ponto negativo, é essencial para a apresentação da necessidade de mudança do protagonista, visto que precisa nos trazer a percepção do cansaço dessa vida repleta de inconstâncias, que, obviamente, conta com um prazo de validade bem próximo.

Mas nem tudo são flores e, como já dito antes, o filme mostra a desconstrução dessa vida utópica que Renton criara em sua mente e o roteiro de Hodge atua com bastante parcimônia, nos trazendo pequenas doses, à priori, do lado sombrio dessa vida, para, aos poucos, nos mostrar somente os aspectos negativos. Com algumas cenas e acontecimentos fortes ao longo da trama, o texto consegue trazer a perfeita transição da mentalidade do protagonista e a forma como ele pensa se torna a nossa, trazendo até um grande alívio quando, de fato, ele consegue se afastar de seu vício. Sabiamente, Boyle constrói seu filme quase que na totalidade com um tempo subjetivo, nos transmitindo toda a euforia de seus personagens e nos deixando, na dose certa, perdidos em relação a quanto tempo se passou desde que a história teve início.

Infelizmente, essa subjetividade cria uma pequena quebra de ritmo na segunda metade do longa, quando Renton passa a atuar como agente imobiliário. Nossa percepção é de que um novo capítulo se iniciou e somos forçados a nos habituar a ele novamente. Felizmente, a narrativa consegue rapidamente nos fisgar e nos traz um clímax simples, mas com bastante força ao retomar a cena inicial através, novamente, da narração em off, nos trazendo um ar cíclico, que funciona como uma brincadeira do roteiro, visto que, de fato, o protagonista conseguiu escapar desse seu ciclo vicioso que dominara grande parte de sua juventude.

Trainspotting – Sem Limites, ao término de sua projeção, nos deixa verdadeiramente cansados, mas verdadeiramente satisfeitos com o que acabamos de assistir. Trata-se de um longa-metragem pesado que consegue nos divertir ao mesmo tempo que nos traz náuseas em virtude de sua retratação realista desse mundo. Danny Boyle, em sua segunda obra para a tela grande nos mostra que veio para ficar, nos entregando uma obra que é tão perturbadora quanto educativa.

Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting) – Reino Unido, 1996
Direção:
 Danny Boyle
Roteiro: John Hodge (baseado no livro de Irvine Welsh)
Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle, Kelly Macdonald, Peter Mullan, James Cosmo
Duração: 94 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.