Crítica | “Tranquility Base Hotel & Casino” – Arctic Monkeys

“Como assim você nunca assistiu Blade Runner?”

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Provido de uma discografia bem consistente, o Arctic Monkeys é uma das poucas bandas de rock que conseguiu, nessa presente década, uma popularidade enorme no mainstream a ponto alcançar status de banda de estádio. Após a explosão de seu último disco, AM, os britânicos capitaneados por Alex Turner decidiram se ausentar um pouco dos radares da mídia. Sim, foram 5 longos anos de espera para o novo trabalho: Tranquility Base Hotel & Casino marca o retorno do grupo, convidando seus ouvintes ao hotel com estadia na lua enquanto reformam completamente sua sonoridade.

É impossível atualmente falar de Arctic Monkeys sem falar de Alex Turner um milhão de vezes. Ele se tornou a alma da banda, não é a toa que muitos citam Tranquility Base Hotel & Casino como uma espécie de álbum solo do cantor. Tudo que é passado, em grande parte através das letras, passou pela experiência e vida do vocalista. O novo disco se trata claramente de um álbum conceitual, feito para ser experienciado muito mais como uma obra única do que como um compilado de canções (a própria atitude de não lançar singles antes de seu lançamento prova isso). É um álbum muito focado na construção de texturas em detrimento a melodias, buscando estabelecer um ambiente um tanto cinematográfico (não é a toa que Kubrick é uma das influências do disco).

E Alex Turner acerta em cheio nessa atmosfera, que realmente funciona como se estivéssemos visitando esse grande e misterioso hotel 4 estrelas, conhecendo cada parte do mesmo, percorrendo desde seu hall de entrada até seus quartos mais escusos. Este pode muito bem ser referenciado como uma espécie de álbum de ficção científica, por diversos fatores. Seja as referências ao gênero citadas ao longo da obra, sua climatização instrospectiva e soturna, ou os inúmeros questionamentos nas letras de Turner. The World’s First Ever Monster Truck Flip Flop discursa sobre a obsessão por views na internet e a busca por entretenimento fácil. Batphone ilustra nossa dependência tecnológica e como somos escravos de nossos próprios equipamentos. A própria faixa Science Fiction acaba servindo como uma excelente metalinguagem sobre como a vida que levamos já não se diferencia muito da ficção científica vista nas telonas.

Uma das maiores marcas do Arctic Monkeys, as guitarras, aqui são postas de escanteio. Não que elas não estejam presentes, mas Tranquility Base Hotel & Casino é um disco calcado muito mais no piano e nas linhas de baixo. Apesar disso, vale ressaltar: quando as linhas de guitarra surgem com destaque, elas vem na forma mais refinada já vista pela banda até hoje, muitas vezes de pegada vintage. Four Out Of Five – provável que a única canção com potencial comercial – entra pra história da banda como um de seus riffs mais marcantes, além de um baixo de groove absurdamente contagiante. A guitarra volumosa, expansiva e cheia de fuzz logo na entrada da fabulosa Golden Trunks ajuda a criar uma atmosfera cinematográfica de suspense e mistérios esperados de um bom sci-fi.

Alex Turner parece bastante influenciado por artistas como David Bowie, ou até mesmo Leonard Cohen. Isso pode ser visualizado mais especificamente seja na voz do cantor – que parece pegar trejeitos de ambos – quanto na escrita, fazendo as referências mais impensáveis possíveis, além de um catálogo de metáforas criativas. E, levando em conta que poucos artistas souberam incorporar a ficção científica tão bem em sua música quanto Bowie (vide o brilhante The Rise And Fall Of Ziggy Stardust), é notório que Turner tenha buscado inspiração em um dos melhores.

Há, ainda, referências bem inusitadas dependendo da perspectiva que olhe. Assim como Jack White em seu ótimo e recente Boarding House Reaching, Alex parece pegar influência do hip-hop, sobretudo em faixas como Star Treatment, onde é emulado um instrumental que se assemelha a um sample por onde são desfilados versos e alegorias a respeito dos efeitos da fama. “Eu só queria ser um dos Strokes” – a honestidade vívida no verso de entrada demonstra o quanto estamos diante de um álbum pessoal de Alex, dissertando sobre como a vida de celebridade que alcançou foi muito além de suas ambições adolescentes. Essa sinceridade de sentimentos, mais do que tudo, segue no ápice da carreira do compositor, com algumas de suas letras mais belas. Se o verso sobre The Strokes abre muito bem o álbum, Ultracheese o fecha magistralmente com uma belíssima afirmativa sobre a efemeridade da vida.

Não é exagero dizer que Tranquility Base Hotel & Casino era o disco mais esperado de 2018. Muita gente já fez ou vai fazer birra com a nova abordagem da banda. Esse “álbum chato” – como já ouço em exaustão nas mídias sociais – exigiu muita coragem de um grupo que poderia muito bem se manter na zona de conforto que garantiu milhões em suas contas bancárias, ou seguir a tendência de eletronificação/indiepopzação que TODA banda de indie rock vem recebendo nos últimos anos. Sem refrões ou guitarras reverberantes para lotar estádios, a rota artística que Alex Turner toma não vai ser mais a trilha sonora de festinhas, mas garante profundidade para quem procura o velho e esquecido hábito de sentar para ouvir um disco do início ao fim e analisá-lo.

Aumenta!: Four Out Of Five
Diminui!: The World’s First Ever Monster Truck Flip Flop

Tranquility Base Hotel & Casino
Artista: Arctic Monkeys
País: Inglaterra
Lançamento: 11 de maio de 2018
Gravadora: Domino Recording Company
Estilo: Indie Rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.