Crítica | Transformers: O Último Cavaleiro

estrelas 1

Confesso que estou ficando sem ter o que dizer. A cada novo filme da franquia Transformers lançado por Michael Bay, algo que vem nos assombrando pela última década, o espectador já sabe exatamente o que esperar ao entrar na sessão, e nunca foi diferente em nenhum dos exemplares – com exceção do primeiro filme, que segue como o melhor e mais divertido da franquia. Explosões homéricas, barulhos ensurdecedores e o típico senso de humor capenga de Bay e seus “roteiristas”, e todas essas características são encontradas neste Transformers: O Último Cavaleiro, quinto filme sobre os robôs alienígenas da Hasbro.

A trama começa nos levando a 1.600 anos no passado, em plena batalha envolvendo o Rei Arthur, seus cavaleiros e o mago Merlin (Stanley Tucci), que acaba recorrendo à ajuda de um Transformer oculto para vencer uma guerra e garantir a conquista da Inglaterra. Voltando ao período atual, um talismã desse período é encontrado por Cade Yaeger (Mark Wahlberg) que atua como sucateiro e protetor de Transformers largados pelo planeta, recolhendo peças e espécimes perdidos para abrigá-los em um ferro velho distante. De posse do artefato milenar, Cade logo fica na mira de um grupo de Decepticons liderado por Megatron, um grupo de militares caçadores de Transformers, um misterioso inglês estudioso sobre a história dos robôs (Anthony Hopkins) e do próprio Optimus Prime (Peter Cullen), que retorna à Terra enfeitiçado pela misteriosa Quintessa (Gemma Chan), que o convenceu a destruir a Terra para reviver seu desolado planeta Cybertron.

Esse é apenas o básico do roteiro da trinca Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nolan (além do brilhante Akiva Goldsman creditado no argumento), que se esforça demais para criar uma trama mais complexa do que deveria, com as conexões com a lenda do Rei Arthur já sendo o bastante para ilustrar o quão tola é a abordagem do trio, que elabora uma história confusa, com diversos elementos e Macguffins que não fazem sentido, além de uma penca de personagens e arcos que sobrecarregam a experiência. Transformers nunca foi conhecido por ter uma história inteligente, mas o roteiro do trio é simplesmente risível em sua tentativa de ser levado a sério, misturando conceitos de ciência, História e magia em uma mistureba que certamente incomodará até o mais descontraído dos espectadores.

Não bastando a história confusa e desnecessariamente longa, temos aqui o pior exemplar de personagens que já vimos passar pela franquia, e isso não é um feito que merece passar despercebido. Começando pelo fato de que o Cade Yaeger de Wahlberg perde muito o interesse sem o núcleo de sua filha, que foi enviada para a faculdade a fim de manter sua segurança, nos deixando com um protagonista sem graça, marrento e com mudanças de humor sem o menor sentido – repare em como ele insiste para que certo personagem vá embora e faz perguntas pessoais sobre seu passado ao mesmo tempo, revelando o amadorismo da escrita dos roteiristas. Todos os robôs transformistas continuam limitados a frases de efeito genéricas e que parecem pertencer àquele tipo de brinquedo onde puxamos uma cordinha para ouvir uma fala, carecendo de personalidade e presença imagética na trama, ainda mais por todos ainda terem as mesmas formas e cores. Só mesmo Bumblebee permanece carismático, com a reviravolta “sombria” de Optimus sendo tão artificial e ridícula como a capacidade de atuação do elenco.

Pra piorar, O Último Cavaleiro tenta seguir a reinvenção das personagens femininas ao tentar criar ícones fortes e que fujam do estereótipo da mocinha em perigo, mas acaba criando algumas das situações mais retrógadas e sexistas ao transformar a historiadora de Laura Haddock em uma verdadeira paródia ao circundá-la de comentários machistas e um núcleo onde a maior preocupação das senhoras ao seu redor é lhe arranjar um namorado. E quando o roteiro tenta de fato oferecer uma personagem feminina forte, entrega a jovem Izabella (Isabela Moner, exageradíssima), que peca por ser uma personagem forçada, exagerada e que sempre parece tentar mostrar-se como superior aos companheiros homens. Uma decisão completamente hipócrita do texto, além do fato de a direção de Bay ser gritantemente sexista e exploradora dos corpos de ambas – e é preocupante se considerarmos que Izabella é uma menor de idade.

Então, claro, chegamos a Anthony Hopkins. O lendário ator rendeu-se à máquina de Michael Bay e entrega aqui um dos trabalhos mais bizarros de sua carreira, e confesso que em diversos momentos me senti mal ao ver o ator que melhor encarnou Hannibal Lecter sendo forçado a dizer os diálogos ridículos do texto, explicar a mitologia sem pé nem cabeça dos Transformers envolvendo a Távola Redonda ou simplesmente correndo e gritando por toda a parte. Tal como John Turturro, Frances MacDormand, Kelsey Grammer e John Malkovich em longas anteriores, Hopkins foi completamente “Bayzado”, mas admito que esse Hopkins surtado rendeu alguns momentos divertidinhos, mais pelo ator do que pelas piadas absolutamente sem graça do trio – não há como reagir com indiferença com Anthony Hopkins expulsando pessoas de um submarino a gritos.

Sempre bem seguro em sua direção, Bay volta a comandar cenas de ação explosivas e de uma escala impressionante, e nisso até mesmo seus maiores críticos precisam dar a torcer: o cara simplesmente sabe como comandar um espetáculo, e as setpieces do filme são marcantes por sua escala e cuidado na direção de arte, especialmente ao oferecer feições humanas à vilã Quintessa. Também não temos batalhas tão excessivas ou confusas como a dos filmes anteriores, rendendo até bons momentos como a briga entre Optimus e Bumblebee, mas é apenas um sopro de respiro entre as sequências mais grandiloquentes, que pecam pelo exagero e megalomania no interminável ato final, que envolve até mesmo a habilidade de congelar o tempo para um dos personagens – uma verdadeira salada, e que ainda perde o rumo ao apostar em inúmeras ações paralelas e diferentes jogadores perdidos no meio da ação.

E pra piorar, Bay rodou o filme com câmeras diferentes que estão constantemente alternando a razão de aspecto de um take para o outro, em uma decisão simplesmente inexplicável, vide que hora estamos no tradicional 2.35:1 (widescreen) e no próximo corte temos a tela cheia do IMAX, e esse efeito mantém-se durante toda a projeção, sem nenhuma explicação lógica para justificar essa mudança. Para efeito de comparação, basta lembrar de como Christopher Nolan trabalha com o formato em O Cavaleiro das Trevas e Interestelar, oferecendo sequências específicas todas rodadas em IMAX, nunca alternando entre a razão de aspecto DENTRO da mesma cena.

Nada de novo por aqui. Transformers: O Último Cavaleiro segue demonstrando o olho de Michael Bay para espetáculos em larga escala, mas é um filme pretensioso, repleto de momentos de vergonha alheia e um dos roteiros mais burros do último ano, que confunde confusão com complexidade e ainda usa do sexismo para fazer “piadas”. O pior filme da franquia, e isso não é uma conquista fácil.

Transformers: O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight) — EUA, 2017
Direção: Michael Bay
Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nolan
Elenco: Mark Wahlberg, Anthony Hopkins, Josh Duhamel, Laura Haddock, Santiago Cabrera, Isabela Moner, Jerrod Carmichael, Stanley Tucci, John Turturro, Peter Cullen, Frank Welker, John Goodman, Ken Watanabe, Omar Sy, Steve Buscemi
Duração: Intermináveis 149 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.