Crítica | Transparent – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Às vezes ele coloca as minhas calcinhas quando transamos. São os maiores “grandes lábios” que eu já vi na vida.

O formato de séries por streaming tem conquistado cada vez mais espaço frente ao público. O exemplo mais bem-sucedido que tínhamos até recentemente era o Netflix, mas esta realidade está começando a mudar. A Amazon Studios, que desde 2013 vem investindo em produções de séries dentro de uma proposta muito interessante — os pilotos são disponibilizados pela empresa e o público dá o feedback que decidirá se a série ganha uma primeira temporada ou não –, ganhou espaço e visibilidade já em seu segundo ano de projeto, com a excelente Transparent, premiada com dois Globos de Ouro (série de comédia e melhor ator para Jeffrey Tambor).

Criada por Jill Soloway, cujo pai se assumiu transgênero já em alta idade, Transparent, acompanha o cotidiano e os segredos da família Pfefferman e seus agregados. A fauna de situações curiosas dessa família é enorme e a série mescla ingredientes de drama e comédia para nos contar a história do pai que está se assumindo transgênero para o mundo; da mãe que está penando com segundo esposo cada vez mais doente; da filha lésbica casada com um homem e com dois filhos; do filho com possível vício em sexo e incapacidade de ficar sozinho por um tempo; e da caçula com problemas não declarados de aceitação sexual e sem nenhuma perspectiva de vida profissional.

Baseado em problemas familiares comuns de qualquer sociedade moderna e trabalhando com humanidade a questão dos gêneros sexuais, Jill Soloway faz de Transparent uma das melhores dramédias maduras da TV nos últimos anos. Os roteiros não nos contam simples histórias carregadas de defesa ao transgênero ou batem na tecla do “vocês devem aceitar”. Não existe um único foco de ativismo barato ou colocação gratuita do transgênero, do lesbianismo, da heterossexualidade. É a partir da tag #SerHumano que os textos se desenvolvem e, como é dito no excelente episódio Best New Girl, os personagens nos são apresentados apenas como corpos humanos. O que fazem com seus genitais, o que sentem e como se comportam é um detalhe que interessa apenas à pessoa.

Nesta densidade dramática, os episódios vão aos poucos mostrando flashbacks da família inteira em paralelo ao seu presente. Vemos o início da jornada de Mort/Maura ao sair do armário, vemos os dramas particulares dos filhos e o horror da esposa ao perceber que “esse negócio de se vestir de mulher” era algo sério para o marido e todas as consequência a longo prazo desse momento de mudanças.

O que mais chama a atenção é que todos ganham o devido espaço dramático, o sexo e as muitas sexualidades e comportamentos humanos são abordados dentro de cada micro-universo e, em meio a tudo isso, várias histórias de vida com mentiras, traições, sonhos, superações, coragem, covardia egoísmo, amor e ódio são desenvolvidas. Marcado por diálogos impiedosos e comportamentos que nos deixam com muita raiva de alguns personagens, Transparent não só discute a questão do transgênero mas também as vontades e relações humanas.

Com uma trilha sonora escolhida a dedo — Josh, um dos personagens, é produtor musical –, um excelente elenco (com destaque absoluto para Jeffrey Tambor, cuja entrega, delicadeza e excelência na construção do personagem Mort/Maura é espantosa) e bela produção artística (cada casa funciona como espaço de identidade psicológica para os diretores de arte e fotografia criarem universos dramáticos contrastantes, o que é ótimo) e temática delicada trabalhada de maneira séria e crítica, a série é de fato um grande presente para o público.

Eu não poderia terminar o texto antes de abordar as críticas que o show tem recebido de parte da comunidade feminina e LGBT dos Estados Unidos por escalar um ator cisgênero/heterossexual para interpretar um personagem transgênero. Percebam a estupidez da argumentação. Afinal de contas, faz total sentido que seja assim, já que a série aborda a saída de Mort do armário. Jill Soloway disse em entrevistas que, além de gostar muito do trabalho de Jeffrey Tambor, o escalou porque ele lembrava o pai dela, que serviu de inspiração para a série. Uma pesquisa rápida na internet mostrará que Transparent é a produção televisiva (ou audiovisual, se preferir) estadunidense que mais contratou profissionais transgêneros na história do país.

Com pouquíssimos erros narrativos — a maior parte deles ligados ao destaque dos filhos em detrimento de Mort/Maura em alguns episódios, e também algumas reticências nos cliffhangers que incomodam um pouco porque não querem dizer o que aparentam à primeira vista; excluindo aí o episódio finale, Why Do We Cover the Mirrors?  — Transparent foi, sem dúvida, uma das melhores séries de 2014, um show que procura mostrar as pessoas como seres humanos, independente de seus caminhos trilhados, especialmente se eles estiverem relacionados a qualquer comportamento sexual.

Transparent – 1ª Temporada (EUA, 2014)
Showrunner: Jill Soloway
Direção: Jill Soloway, Nisha Ganatra
Roteiro: Jill Soloway, Bridget Bedard, Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster, Ali Liebegott, Ethan Kuperberg, Faith Soloway
Elenco: Jeffrey Tambor, Gaby Hoffmann, Jay Duplass, Amy Landecker, Judith Light, Melora Hardin, Rob Huebel, Alexandra Billings, Carrie Brownstein, Abby Ryder Fortson, Lawrence Pressman, Zackary Arthur, Kiersey Clemons, Kathryn Hahn, Alyvia Alyn Lind
Duração: 30 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.