Crítica | Trapaceiros

estrelas 3

Trapaceiros não é, nem de longe, o melhor filme de Woody Allen. É humorado, mas irregular. Bem dirigido, mas com personagens que desbotam ao passo que a narrativa avança. Tem o charme típico do cineasta mais neurótico do cinema, mas peca por não aderir de uma só vez ao estilo empregado pelo roteiro, rendendo-se aos braços da comédia hollywoodiana contemporânea.

No filme Woody Allen interpreta Ray Winkler. Ele possui um passado questionável e juntamente com alguns comparsas do bairro em que mora, decide realizar um assalto ao banco. Juntos, eles alugam um ponto ao lado da agência, montam uma loja de biscoitos preparados por sua mulher, a manicure Frenchy (Tracy Ulmman) e começam a escavar um túnel em direção ao caixa-forte do banco. A ideia da loja está calcada no movimento que despistará curiosos e possibilitará o sucesso planejado na ação criminosa.

As coisas, entretanto, dão errado. Por outro lado, o negócio dos biscoitos cresce vertiginosamente e ele e a esposa ficam ricos. Agora, podem circular pelos ambientes mais sofisticados da sociedade nova-iorquina. Tudo seria perfeito se o Sr.Winkler deixasse o seu instinto vigarista de lado, o que não acontece, questão que ocasiona as peripécias envolvendo o casal ao longo do filme.

É possível perceber que o diretor buscou traçar algumas insinuações sobre o estilo de vida das pessoas ricas e emergentes sociais, algo comum na cultura de celebridades da atualidade. Trata-se, por sua vez, de um Woody Allen menos ambicioso. Talvez essa tenha sido a sua proposta, afinal, um intelectual das imagens e do texto, após anos de contribuições, pode se dar ao direito de fazer um filme menos exigente, principalmente para uma fatia de público que cultua o cineasta como se este fosse a quintessência do cinema, um realizador sem defeitos e protegido por um muro intocado pelas críticas.

Essa leveza, por sinal, deu ao filme um bom resultado nas bilheterias, algo bem diferente do que demonstrou a receita das últimas produções. Este foi o primeiro filme do cineasta em parceria com a Dreamworks. O estilo continua presente, mas há alguns elementos que se diferenciam, tais como o tratamento dado ao humor e a presença das tiradas físicas tendo em mira o riso fácil, no entanto, não chega a ser algo para demonizar a obra, ao contrário, é só a escolha por um segmento diferenciado no que diz respeito ao conjunto da obra do diretor.

A diferença do filme para as comédias que abundam as salas de cinema atualmente é a forma como o enredo é conduzido. Os atores são muito bons, as piadas são ácidas e divertidas, a direção é segura, o design de produção, juntamente com a direção de arte, de fotografia e a montagem cumpre o seu devido papel, transformando algo que poderia soar tenebroso para alguns em uma comédia de costumes acima da média.

Woody Allen é um dos poucos cineastas contemporâneos que pode se gabar da ausência de efeitos especiais e uso de tecnologias de última geração para a boa condução dos seus filmes. O seu foco é a “essência dos personagens”. É como o bordão de Glauber Rocha: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Allen ainda possui muitas, não é a toa que dezesseis anos após o lançamento de trapaceiros, o realizador ainda consiga surtir efeito e causar comoção na seara da produção cinematográfica.

No que tange aos aspectos visuais, Manhattan continua bem captada pela câmera segura do cineasta. Os grandes planos registram os espaços de acordo com as necessidades dos personagens, bem como os momentos de captação dos conflitos interiores. È o uso da linguagem favorável ao desenvolvimento do roteiro. A trilha sonora, então, nem se fala: rítmica, consegue tonalizar bem o enredo, principalmente nos momentos em que o jazz surge para enfeitiçar o público.

Assim é Trapaceiros, uma narrativa divertida e humorada, com piadas inteligentes, integradas em produção mediana no bojo de realizações de um dos cineastas mais atuantes do cinema atual. São 94 minutos de diversão, apesar de alguns momentos pouco impactantes, entretanto, não é nada que estrague o produto final. Viva Woody Allen! Viva ao Cinema!

Trapaceiros (Small Time Crooks) – EUA, 2003.
Direção:  Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Woody Allen, Tracey Ulmman, Hugh Grant, Michael Rapaport, Carolyn Saxon, Sam Josepher, Jon Livitz, Crystal Field, Ray Garvey, Olivia Hayman.
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.