Crítica | “Traveller” – Chris Stapleton

traveller chris stapleton

estrelas 4

Já fazia um bom tempo que eu não ouvia (ou procurava) um [bom] álbum country, desde o incrível Southeastern (2013), de Jason Isbell. É curioso, porém, que meu retorno ao gênero tenha se dado por um disco igualmente interessante e cativante, Traveller (2015), o primeiro álbum de Chris Stapleton, cantor e compositor que há anos vem escrevendo canções para dezenas de artistas mas que nunca tinha investido de fato em sua carreira solo.

Ao lado do criativo produtor Dave Cobb (que assinou um dos discos mais sensacionais de country “de raiz” que eu já ouvi, The Guitar Song, de Jamey Johnson, lançado em 2010), Stapleton fez um mergulho profundo em sua vida escrevendo e cantando sobre o pai falecido em 2013 (ouça com atenção a doce e delicadíssima Daddy Doesn’t Pray Anymore), falando sobre carreia, sobre estar afastado da família, sobre sentir saudades, sobre ter dúvidas e angústias, sobre embebedar-se, sobre chorar, querer e amar. Acima de qualquer outra coisa, Traveller é um álbum contemplativo, tanto na mensagem passada pelas letras quanto na tendência acústica espalhada pelas 14 canções.

Na abertura nós temos Traveller, um pop country delicioso, com ótima harmonia vocal mas que infelizmente não é a única dentro do mesmo padrão no no disco, o que acaba fazendo a potencial Nobody to Blame soar repetitiva, já que o exercício de dueto que temos em Traveller se repete quase inteiramente ali. Todavia, a suavidade dessa primeira canção e o lançamento da ideia que será melhor desenvolvida em todo o restante disco fisgam de cara o ouvinte.

Uma pequena mudança de caminhos pode ser ouvida em Fire Away, que na forma lírica se assemelha muito a Traveller, mas nos dá mais uma nuance da voz de Chris Stapleton, com execução mais blues, mais grave e de beleza extrema, com uma instrumentação modulada para dar segunda voz à mensagem e produção bastante criativa. Faixas de menor pluralidade como Whiskey and You e principalmente Was It 26 — e veja bem, não são faixas ruins, apenas mais cansativas, talvez pelo formato de “declamação”, se as compararmos com as outras 12 faixas do disco — poderiam ser muito beneficiadas caso seguissem pelo mesmo caminho de Fire Away.

O hit Tennessee Whiskey, imortalizado na voz de George Jones (versão que todo mundo parece amar, mas eu acho apenas “ok”) ganha um cover no melhor estilo blues ballad por Chris Stapleton, que claramente presta tributo a Jones mas cria o seu próprio — e melhor, na minha opinião — caminho, entregando uma interpretação memorável e emotiva, como a mensagem da canção pede. Já na execução seguinte, Parachute, a incrível volta para a adolescência do rock, ainda com elementos de outros gêneros da música americana, o country incluso, traz o cantor em grandes e fortes notas, excelente execução ao vilão, percussão e uma animação que certamente será a grande sensação dos shows. Impossível ouvir sem dançar.

A reta final deste álbum debut é marcada por uma tendência mais confessional e passional nas canções, que podem ser de caráter tendenciosamente romântico (More of You), passar por convites a seguir a viagem da vida independente de qualquer coisa (When the Stars Come Out) e terminar em uma bifurcação: a primeira, em um bar-rock setentista que deveria ser mais criativo mas que mesmo assim não recepciona (Might as Well Get Stoned) e a segunda, em um acústico intoxicante e poderoso que fecha a viagem com chave de ouro, Sometimes I Cry. Quase como se estivesse passado por uma viagem espiritual-musical cheia de felicidades e tristezas, o eu-lírico parece, enfim, liberto.

Ao reunir grandes influências musicais e não ter medo de experimentar variáveis, Chris Stapleton inscreveu seu primeiro álbum no muro das grandes estreias. Mesmo não sendo um disco perfeito, Traveller certamente faz valer a audição e é difícil que a maioria dos ouvintes consiga reproduzi-lo apenas uma vez.

Aumenta!: Parachute
Diminui!: —
Minhas canções favoritas do álbum: Fire Away,  Tennessee Whiskey  e  Sometimes I Cry  

Traveller
Artista: Chris Stapleton
País: EUA
Lançamento: 5 de maio de 2015
Gravadora: Mercury Nashville
Estilo: Country, Southern Rock

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.