Crítica | “Trelelê” e “Em Cada Verso um Contra-Ataque” – Aíla

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estrelas 5,0

Porque viver não é só (querer) trelelê.

Aíla Magalhães, ou tão somente Aíla, entoa essa frase em um trecho de sua terceira faixa de seu primeiro álbum, a canção intitulada Trelelê e que dá nome ao seu trabalho inicial. De acordo com a própria artista, Trelelê é a síntese da identidade deste disco: falar sobre o chamado cotidiano, fuleiragem, vida, amor, desapego… tudo isso embalado por identidades típicas. Típicas da criação da cantora, nascida e crescida na periferia da cidade Belém (bairro da Terra Firme, sendo mais específico), típicos de sua terra natal, típicos do que é o falar e se comunicar no Pará, e tudo acompanhado por embalos, arranjos e acordes típicos da identidade musical paraense. Mas em se tratando de Aíla, e analisando sua carreira no agora, “típica” é o que menos se pode dizer sobre a cantora.

E com os fatos expostos, é até palpável não apenas o salto da cantora em seu discurso, da “fuleiragem” para o político em Em Cada Verso um Contra-Ataque, mas da liberdade discursiva que a própria se dá para dizer o que precisa ser dito, debatido e exposto. A Aíla de antes é a mesma de hoje, mas mais madura, concisa, firme, uma faladeira que sabe exatamente sobre o que está falando.

E se em Trelelê Aíla encontra oportunidades para ser experimental (e é), o que ela faz é firmar suas identidades sonoras e visuais, demonstra seu apego e chamego aos ritmos como o brega, o axé, o reggae, um quê de música eletrônica, um toque deliciosamente safado de lambada… ritmos responsáveis pela ascensão da música paraense, naturais e que vão de contra a explosividade de outras figuras do cenário.

De Preciso Ouvir Música Sem Você, passando por Brechot do Brega e chegando em Trelelê, Aíla é uma romântica inveterada. Ela fala sobre o desapego e o amor próprio, sobre a saudade, sobre o desejo. Nisso é notável como o quê kitsch do clipe de Preciso Ouvir Música Sem Você, um passeio por coloridos, identidades visuais e cenários diversos, típicos e atípicos, pode ser dialogado com a Aíla de cada uma destas canções: são versões e leituras de uma mesma Aíla, movida pelo afeto. Em cada uma, vemos uma Aíla diferente, e também sempre a mesma.

A virada em Proposta Indecente é uma delícia. O toque da lambada numa composição que cresce conforme expõe sua clareza tão sentimental quanto carnal, e com o bônus da participação da “safadinha” Dona Onete (compositora da canção, aliás) confere o que há de melhor numa faixa que, sim, te desafia a não se deixar levar pelo que há de mais natural: a indecência, mas ali mais para ser sentida do que dita. Disso, o disco parte para falar sobre a feminilidade e o desejo em Garota (com participação forte de Gaby Amarantos), onde Aíla, uma mulher, fala sobre o que é amadurecer enquanto ser… mulher. A seguinte Todo Mundo Nasce Artista é o manifesto da cantora por sua própria arte, pelo fazer arte, pelo viver e respirar dela. Não só um manifesto, um hino. E nisso, Aíla vai segurando seu pique romântico e amoroso, de Vamos, passando por Qualquer Esperança e chegando em Pelo Retrovisor, ainda embalados pela tropicália paraense. E no fim, À Sua Maneira parece definir uma Aíla ao contrário, uma “impostura”, uma “exagerada”, uma “nada com nada”, a definição de uma mulher inconstante, o exato oposto da mulher que Aíla demonstra ser em seu trabalho.

E então, nasce a Aíla que não hesita em contra-atacar.

“É o disco do que precisa ser dito, já disse a própria, “um disco político sem ser panfletário”. Pois Aíla sabe que vivemos numa contemporaneidade em que ter um posicionamento é, sim, ser político, uma vez que o político é sobre todos nós. Patrocinado pelo selo da Natura Musical e produzido por um experiente Lucas Santtana, cantor, compositor, produtor e tão ativista quanto todas as canções do disco juntas, Aíla vê aqui sua real oportunidade de não ter papas na língua. E como um disco político, não há motivo para tal.

Essa extrema consciência da artista sobre o espírito de seu novo trabalho é perfeitamente notável já na primeira faixa, Clã da Pá Virada, composição de Posada, onde já sabemos para o quê Em Cada Verso um Contra-Ataque veio, para o quê nasceu, para o que quer dizer. “E não tem nada nem ninguém que me faça esquecer de onde eu vim e o que eu vim fazer”.

Lesbigay, nova parceria da própria com a efervescente Dona Onete, chega para falar da saudade de um lugar imaginário onde celebra-se o amor do jeito que ele é, simplesmente o amor, livre, puro, carnal, “seja do jeito que for”. E destaca-se aí a instauração imediata de uma lambada eletrônica que te desafia a não ficar parado, a não se deixar embalar pelo dizer do que é o amor. A porrada é intensificada na faixa seguinte com Rápido, primeira criação para o disco que veio ao mundo, composição conjunta de Aíla com seu “amor-maravilha”, a artista visual Roberta Carvalho, onde em poucas linhas, a música provoca uma reflexão universal: o ser humano realmente evoluiu? Quando se fala que o tempo, o vento, o oi e o tchau estamos demasiadamente acelerados, nos perguntamos sobre em que ponto estamos na comunicação com o próximo, sobre a rapidez ao nosso redor, sobre uma robotização nem sempre notada, mas que está, notavelmente nos levando ao retrocesso da comunicação e do entedimento humano.

E Aíla não para. Indaga sobre o capitalismo cada vez mais descontrolado em Será, questiona a educação e a pobreza em Tijolo, onde nos aponta que “falta pão, falta livro, falta corpo, falta espírito”, define o racismo como a ignorância que o é em Melanina, nos incitando a experimentar a nos colocar no lugar do “amiguinho do cor”. E no que acredito que possa ser uma de suas interpretações mais pessoais, #NãoVouCalar denuncia o assédio de cada dia contra as mulheres, vítimas cotidianas de um abuso machista e desumano de homens que as enxergam como pedaços de carne. E acreditem, o uso da hashtag no título da canção não é gratuito.

“Não esconde a cara, nem pede perdão, Em Uganda ou no Sudão”, diz O Amor é o Cão, mais um discurso sobre o amor livre e que faz referência às lastimáveis leis de países onde as relações homossexuais ainda são punidas com prisões, torturas e até morte. Não é algo muito distante da repressão social que a classe ainda sofre cotidianamente no Brasil. E com um sopro de esperança, Você Tem Medo, Por Quê?, embalada por um toque de jazz aconchegante, nos convence a viver intensamente, a olhar para a vida e não deixar ela nos retrair, nos convence a experimentar e não perder tempo. É Aíla fazendo uma ode à vivência.

E como sucintamente apontado por Jô Hallack em seu release para o CD, “por motivos que só o capital explica”, ficou de fora Escola de Luta, versão poderosa para a representativa Baile de Favela, aqui com a cantora declarando seu total apoio as ocupações das escolas secundaristas. A faixa foi lançada com exclusividade no canal do YouTube da cantora.

E aí sem muito esforço, Aíla se firma já não mais como uma promessa, mas um nome que está aí para expor a contemporaneidade que nem sempre percebemos, nos fazer refletir, indagar, questionar, pensar, agir, lutar. É isso que Aíla quer. E tudo embalado por ritmos dançantes e contagiantes que a colocam já de imediato no pedestal das nossas cantoras, seja paraenses ou brasileiras, cujo caminho pode ser maior do que imaginamos agora.

Trelelê e Em Cada Verso um Contra-Ataque
Artista: Aíla
País: Brasil
Gravadora: Tratore
Lançamento: 2012/ 2016
Estilo: MPB

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.