Crítica | Trem das Vidas, Ou As Viagens de Angélique

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Mesmo conhecido por suas produções de baixíssimo orçamento e tramas intimistas, Trem das Vidas, por ora, parece algo ainda menor dentro da carreira de Paul Vecchiali. O filme resume-se em um único plano que se repete, mostrando Angélique, artista em um relacionamento conturbado, sentada em um trem ao longo de diversos momentos de sua vida. Sempre acompanhada, divide suas experiências e revela ao longo dos curtos 76 minutos o principal assunto do filme: o sexo que inibe nossos sofrimentos e recalca nossas tragédias, que nos acompanham aonde quer que vamos.

Assistimos as conversas como se fossemos passageiros tentando escutar a discussão entre Angélique e quem estivesse ao seu lado para poder ouvir e conversar. A protagonista passa o filme inteiro batendo papo com diversas pessoas em diferentes momentos da sua vida e lugares do mundo, mas quando mais revela-se, mais claro fica o encolhimento e insegurança que ela vive. Seu casamento é frágil, sua carreira foi interrompida, seu interesse pelo sexo é enorme, aos poucos você descobre mais e mais sobre essa personagem que precisa estar o tempo todo em movimento para tentar libertar-se de certas amarras, mas que viajam junto dela.

O tempo e espaço se deslocam, mas Angélique não envelhece, seus traumas seguem os mesmos, e o mundo material que ela deixa para traz reside em seu psicológico como a culpa que marca seu semblante amargurado. Angélique é uma figura imutável, que passa pelas pessoas e nada perde ou ganha. É incapaz de olhar para frente, procurar uma solução, então busca refúgio olhando para os lados. À sua direita, conversa com colegas de vagão, como um antigo amante, um admirador de seu trabalho, ou um tarado por viúvas. Seu trabalho e sua vida são inspiradores, e cada um deles tem sua vida marcada por Angélique. Olhando para esquerda, ela vê da janela do trem a vida passar, tudo sendo deixado pra trás, o respiro de cinética que lhe é privado por uma vida que lhe atormenta.

Trem das Vidas pode ser acusado de ser um filme duro, estático, mas acredito que essa seja a estética que Vecchialli busca dentro da poética de seu filme. Um lugar e uma pessoa sempre em movimento mas que relativamente está sempre presa ao chão, incomunicável. O diretor buscou ao longo da sua carreira celebrar a liberdade sexual das mulheres, rediscutir assuntos pouco comentados ao longo de sua extensa carreira, mas aqui é como se em seus oitenta anos de idade não soubesse mais o que fazer para levar o mundo para frente. Vecchialli é liberal demais pra tempos tão caretas.

Trem das Vidas, ou A Viagem de Angélique (Train de vies ou les voyages d’Angélique) – França, 2018
Direção: Paul Vecchialli
Roteiro: Paul Vecchiali
Elenco: Brigitte Rouan, Astrid Adverbe, Marianne Basler, Simone Tassimot, Jean-Philippe Puymartin, Ugo Broussot, Bruno Davézé, Pascal Cervo, Paul Vecchialli
Duração: 76 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.