Crítica | Trem Noturno para Lisboa

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estrelas 2

Só para ficar na metáfora do trem, esse filme de Bille August (Pelle, O Conquistador), baseado em romance do escritor e filósofo suíço Pascal Mercier, é uma “Maria Fumaça” daquelas caindo aos pedaços, ou seja, é lento e, apesar de tentar manter o charme de outrora, não consegue esconder a decadência e a mesmice. Uma pena, considerando o elenco estelar encabeçado por Jeremy Irons.

E, continuando nessa mesma veia, esse filme só não descarrila completamente, pois Jeremy Irons está inspirado no papel de Raimund Gregorius, um professor suíço que, quase que por reflexo, impede o suicídio de uma mulher em uma ponte. Não fosse ele mantendo o filme nos trilhos (estou inspirado hoje, não?), não sobraria nada realmente digno de nota na fita.

O grande problema é a fórmula de Trem Noturno para Lisboa. O filme é da “velha guarda” europeia, com esquemas básicos de cores e fotografia pouco inspirada. Além disso, o roteiro não oferece nenhum tipo de urgência ou mesmo permite que criemos empatia com a viagem interior que Raimund faz.

Trabalhando com cortes para longos flashbacks não cronológicos, o diretor vai descortinando a vida do autor do livro que Raimund acha no bolso do casaco da moça que salva, o médico português Amadeu de Prado (Jack Huston). O professor fica profundamente tocado com a filosofia de botequim do livreco de Amadeu e começa a investigar a vida dele durante a ditadura de Salazar em Portugal. E tudo acontece exatamente como o suicídio que ele evita: de um minuto para o outro e porque Raimund acha, no livro, uma passagem de trem para Lisboa que partiria em 15 minutos da estação de Berna.

Chegando com a roupa do corpo em Lisboa, ele logo consegue descobrir onde mora a irmã de Amadeu, Adriana de Prado (Charlotte Rampling) e, novamente por força do destino, acaba conhecendo uma oftalmologista cujo pai, inacreditavelmente, conhecia bem Amadeu. A partir daí, vemos os tais flashbacks entrecortando a narrativa a cada cinco ou seis minutos, sem nenhuma cerimônia. A quebra de ritmo tanto na narrativa contemporânea quanto na que se passa nos anos 70 auxilia a impressão que, na verdade, estamos assistindo a dois filmes, um que poderia ter sido bom e outro que seria um curta-metragem não mais do que razoável. O resultado é uma colcha de retalhos que não para de apresentar novos personagens e, algumas vezes, em duas versões, a jovem e a mais idosa.

Com isso, a busca interior de Raimund, que se debate entre manter sua vida enfadonha e procurar novos horizontes, torna-se repetitiva e monocórdia, como se o espectador fosse incapaz de discernir o tema e a moral da história. E o pior é que, no processo, o roteiro consegue fazer o favor de impedir que nós simpatizemos com os personagens. Mesmo Amadeu tem uma vida desinteressante e anticlimática. O gigantesco elenco de suporte, que inclui a bela Mélanie Laurent e o ótimo Bruno Ganz, além do sempre imponente Christopher Lee, não consegue elevar a obra acima do medíocre, do padrão, do óbvio.

Uma expressão que não lia há muito tempo foi usada para descrever Trem Noturno para Lisboa: Europudding, ou “pudim europeu”. Muito comum para descrever o output cinematográfico europeu na década de 80, Europudding é uma expressão para lá de pejorativa que qualifica filmes pouco inspirados, nada ousados, mas não necessariamente ruins. E, de fato, essa expressão que estava enterrada em meu subconsciente há anos descreve bem a fita: trata-se de uma massa uniforme sem gosto, que não gera qualquer tipo de satisfação. Exatamente, aliás, como refeições servidas em trens e aviões.

É uma tristeza ver um elenco dessa envergadura desperdiçado dessa maneira. Trem Noturno para Lisboa parecia uma boa ideia e poderia ter resultado em algo interessante, mas o resultado já nasceu antigo, caindo aos pedaços, pronto para ser enviado ao ferro velho.

Trem Noturno para Lisboa (Night Train to Lisbon, Alemanha/Suíça/Portugal – 2013)
Direção: Bille August
Roteiro: Greg Latter, Ulrich Herrmann, Pascal Mercier (romance)
Elenco: Jeremy Irons, Mélanie Laurent, Jack Huston, Martina Gedeck, Tom Courtenay, August Diehl, Bruno Ganz, Lena Olin, Marco D’Almeida, Beatriz Batarda, Christopher Lee, Charlotte Rampling
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . .Sou um carioca rabugento que não faz questão nem de sol (muito quente) nem de praia (tem areia e água salgada). Prefiro o escurinho do cinema onde, sozinho ou acompanhado da família ou de amigos, me divirto - ou não, depende - por horas a fio.
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