Crítica | Três (2016)

estrelas 5,0

Um dos cineastas mais produtivos da atualidade, Johnnie To já nos entregou inúmeras pérolas cinematográficas, como Eleição e, mais recentemente, Escritório. É um diretor que sabe caminhar por diferentes gêneros, nos trazendo obras de qualidade, com variadas histórias, sempre imprimindo sua visão única sobre determinado aspecto de nossa sociedade. Três é mais um excelente acréscimo à sua filmografia, um instigante filme de ação que nos mantém grudados na tela a cada instante, trazendo inusitadas situações e um roteiro muito bem construído, que apenas aumenta a tensão no espectador a cada minuto que se passa.

A história se passa em um hospital de Hong Kong, que acaba de receber, como paciente, Han (Wallace Chung), um perigoso assassino, membro de uma gangue local. Acompanhado de perto pelo detetive Lok (Louis Koo) e sua equipe policial, assistimos esse homem cuidadosamente provocando cada um dos integrantes da polícia e da equipe médica local, especialmente a dra. Zhau (Wei Zhao), que é facilmente manipulada pelo criminoso. Toda a situação começa a se complicar ainda mais quando a ameaça de que os parceiros da Han irão aparecer no hospital para salvá-lo se torna mais iminente, construindo um ambiente de tensão e expectativa.

O que mais nos chama a atenção em Três é justamente a direção de Johnnie To. O diretor sabe exatamente como compor seu quadro, com uma disposição de personagens e outros elementos que garantem uma nítida profundidade à imagem, com diversas ações sendo realizadas simultaneamente, porém com um foco que não permite o espectador se perder. O destaque, naturalmente, vai para o clímax da obra, que faz um divertido uso do slow-motion que, juntamente da música, garante um tom irônico aos planos, com uma montagem que os une a fim de dar a impressão de um plano sequência. Não há como não se deleitar ao assistir tal sequência, tanto pela decupagem criativa, quanto pela mise-en-scène realizada.

Três vai muito além disso, porém. Através de uma câmera em constante movimento – em estabilidade, então nada de tremedeiras que dificultam nosso entendimento das cenas – é criada uma forte sensação de euforia no espectador. É um filme que não para, que a cada momento nos traz novas informações e mudanças na situação que aquele hospital se encontra, um longa-metragem de ação por excelência, que nos dá pouco espaço para respirar, sempre introduzindo elementos no espectador que amplificam sua tensão através de um suspense bem construído, com diferentes questões em jogo – desde os amigos do criminoso até a iminência de um processo legal contra os policiais por terem atirado em Han.

É interessante observar, também, como é criada a relação entre Lok e Han. Louis Koo e Wallace Chung parecem verdadeiramente estar se divertindo em seus papéis e nos passam a impressão de tamanho ódio em relação um ao outro que chegam a brincar de dar patadas um no outro somente por diversão. A preocupação de um dialoga constantemente com a psicose do outro, criando uma narrativa que nos engole totalmente, nos deixando cada vez mais curiosos acerca do que irá desenrolar naquele local. O roteiro ainda trata os dois personagens de forma inteligente, os dois fazem parte de um jogo e ambos sabem jogar de forma profissional – nesse quesito, o policial e o bandido são iguais, formando um perfeito antagonismo entre os dois.

Quando os créditos finais de Três começam a rolar, enfim, conseguimos dar um grande suspiro, sentindo um forte alívio de que toda aquela problemática, finalmente, fora resolvida. Trata-se de uma obra que nos mantém tão presos quanto os personagens que retrata, ficamos imersos em sua narrativa, esperando sempre o pior e torcendo pelo melhor. Com um roteiro inteligente e uma ótima direção, Johnnie To demonstra que a quantidade não anula a qualidade e que mesmo produzindo tantos filmes ele sabe manter um ótimo controle sobre suas obras.

Três (San ren xing) – China, 2016
Direção:
 Johnnie To
Roteiro: Ho Leung Lau, Tin Shu Mak, Nai-Hoi Yau
Elenco: Louis Koo, Wei Zhao, Wallace Chung, Suet Lam, Hoi-Pang Lo, Michael Tse
Duração: 88 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.