Crítica | Três é Demais

estrelas 5

Escravas do marketing, as traduções de títulos de filmes muitas vezes são sujeitas a um impiedoso assassinato – crime o qual acaba tirando a alma do filme, muitas vezes inserindo dando uma simplicidade a uma obra que passa longe do convencional. Três é Demais sofre com isso. É a versão brasileira do título Rushmore, o segundo longa-metragem de Wes Anderson, uma comédia que foge dos padrões, seguindo pelo caricato, absurdo e até surreal.

Começamos a projeção com um sonho de Max Fischer (Jason Schwartzman). Neste, o menino de quinze anos consegue resolver um problema geométrico aparentemente impossível na sala de aula, sendo aclamado por seus colegas de turma. A excentricidade de Max já é mais que evidente, ao passo que o rapaz parece um clichê ambulante. Conforme passam os minutos essa imagem inicialmente concebida, contudo, vai sendo desconstruída – surge em nossa mente o verdadeiro personagem: uma figura ainda mais excêntrica do que esperávamos, porém um ser vivo, não um clichê, mas um poço único de personalidade.

Com seu personagem principal construído, Anderson trabalha sua trama através do impacto causado pelas ações nada menos que inesperadas do protagonista. Max é a peça que coloca tudo em movimento, é o diretor, assim como o é em suas peças de teatro. As relações, então construídas com Herman Blume (Bill Murray) e Rosemary Cross (Olivia Williams) prendem cada instante da atenção do espectador, através de diálogos bem construídos e sólidas atuações, direcionadas aos mínimos detalhes por Wes que consegue trazer o melhor de cada ator, relevante as nuanças de cada uma de suas caricaturas ambulantes, pensantes, falantes e, sobretudo, vivas.

Tamanhos detalhes, porém, se tornam evidentes ganhando o destaque que merecem graças à fotografia de Robert Yeoman, que se destaca pela precisa movimentação de câmera, assegurando uma imensa fluidez à cada cena. Destaco aqui uma em específico, na qual Fischer e Cross observam aquários – uma sequência bastante simples, mas que consegue chamar a atenção pela sua harmonia.

Ao terminarmos o filme fica claro o que é Rushmore dentro da trama – é mais que a academia de Max. Não é apenas um prédio repleto de história, é a metáfora para a paixão do protagonista,é a sua singularidade e obsessão, seja pelo lugar, pelo amigo, ou pela amada. Três é Demais pode resumir o que é Rushmore, mas não capta a profundidade de tal título – título de um filme que não deve ser resumido.

Três é Demais (Rushmore, EUA – 1998)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson
Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassel, Brian Cox, Mason Gamble, Sara Tanaka, Stephen McCole, Connie Nielsen, Luke Wilson, Andrew Wilson.
Duração: 93 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.