Crítica | Três é Demais

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Max Fischer é um garoto que acredita estar pra trás dos outros justamente por ser superior a eles. É uma personagem peculiar como a maioria dos de Wes Anderson justamente por ser tão abrangente mas tão particular: o menino tem o pior boletim de sua turma, participa de todos os clubes e eletivas possíveis, é filho de um barbeiro humilde e estuda em um colégio de ricos, tem contato com todos da escola mas seu melhor amigo tem metade da sua idade. Por procurar o destaque de forma tão incessante, seu destino é a sombra, a impermanência, mas nada que o torne desesperançoso: Max é um protagonista digno de Beckett, cuja perseverança paira no digno esperar de uma utopia que jamais virá, no sonho pelo incansável, que pousa sobre Rushmore em busca do tempo paralisado da juventude.

Apaixonado por uma professora, o garoto busca impressioná-la com seus atos de destaque quando na verdade revela-se uma erupção de constrangimentos e ações desconcertadas. Max não sabe o que fazer, é estúpido, e espertamente Anderson nunca tenta despertar de dentro dele um espírito redentor que o torne uma figura de respeito: Max tem apenas quinze anos, e a única regra nessa faixa de idade é sempre estar disposto a errar. O autor deixa de lado o olhar fantasioso do cinema para mostrar as reais aflições de um jovem que caminha a aprendizagem romântica e sexual, injusto seria filmar os acertos ao invés dos erros de Max. Por isso talvez muitos creditem os protagonistas de Wes Anderson como pessoas terríveis (em Pura Adrenalina são bandidos, em Os Excêntricos Tenenbaums uma família disfuncional), mas na verdade mostram aquilo de mais humano em cada um deles. O que há de precoce em muitas características de Max, há de ingênuo ao lidar com o primeiro amor.

Max larga a segurança que as instituições lhe garantem para focar nos gestos faraônicos que, em tese, trarão a professora a ele. Gestos esses tratados de forma vital, como fossem para sempre, imaculados, passam a sensação que um adolescente como Max sente ao tratar de novas experiências. Cada reação, seja positiva ou negativa, gera uma força descomunal, que ao espectador parece infame, mas ao jovem é desconcertante. Um garoto é capaz de gastar oito milhões de dólares em um aquário para impressionar uma mulher, mas é incapaz de suportar um não.

E apesar de tudo que Max faz de errado, que o torna mais um dos odiosos protagonistas de Wes Anderson, o diretor é incapaz de dar-lhe uma redenção, pois estamos diante de um filme de aprendizagem. Desleal seria se a professora de Max, no fim de tudo, não o perdoasse, não assimilasse que ele é apenas um garoto que ainda é incapaz de lidar com o amor, que busca na imagem de uma mulher muito mais velha a segurança de nunca firmar-se em nada concreto pois corre atrás da utopia. Por tratar-se de um filme de educação sentimental, nada mais justo que no último plano os dois dançarem ao som de Faces, que canta: “I wish that, I knew all I know now, when I was younger”.

Três é Demais (Rushmore, EUA – 1998)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson
Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassel, Brian Cox, Mason Gamble, Sara Tanaka, Stephen McCole, Connie Nielsen, Luke Wilson, Andrew Wilson.
Duração: 93 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.