Crítica | Três Estranhos Idênticos

Existem histórias tão fascinantes que elas são capaz de prender a atenção independentemente da forma como ela é contada. E, se elas são reais, então é possível que qualquer estrutura narrativa que não seja, talvez, alguém falando em tom monocórdio durante 90 minutos, consiga sustentar uma plateia por um bom tempo a ponto de disfarçar seus problemas.

Três Estranhos Idênticos é um desses casos de uma história de cair o queixo que faz as falhas do documentário de Tim Wardle serem, em uma primeira análise, relegadas a segundo ou terceiro plano, talvez até glosadas completamente. Mas elas existem e a análise fria, em retrospecto, as tornam muito evidentes.

Mas comecemos pelo começo. Imagine que você está andando pela rua e, ao virar uma esquina, depara-se com seu duplo. Qual seria sua reação? E, se vocês dois, depois de descobrirem que foram ambos adotados e que nasceram no mesmo dia, conectarem as óbvias pontas e concluírem que são gêmeos, descobrem um terceiro gêmeo? É exatamente isso que aconteceu com Edward Galland, David Kellman e Robert Shafran quando tinham 19 anos de idade, em 1980. Notaram como é absolutamente incrível a premissa e que é impossível não levantar a sobrancelha de curiosidade?

A partir da história do reencontro dos três, a narrativa nos faz caminhar pela felicidade inebriante que resultou daí, transformando os trigêmeos em celebridades instantâneas. Mas, na medida em que a história progride, Wardle vai emprestando um tom cada vez maior de mistério conspiratório a tudo, tornando a trajetória significativamente mais sombria, chegando até mesmo a tornar possível paralelos com Arquivo X, algo amplificado pelos bons reencenamentos de momentos-chave na vida de alguns entrevistados. Não quero revelar muito mais sobre os acontecimentos, pois faz parte da estrutura narrativa que Wardle põe em cena esse mistérios e essa abordagem que vai aos poucos corroendo a alegria do encontro inicial.

Mas, diferente do fantástico Tickled, que começa de um jeito e acaba de outro, Três Estranhos Idênticos não é harmônico e fluido. Ao contrário, Wardle usa de expedientes que chegam na fronteira da trapaça narrativa ao abordar as mesmas situações sob ângulos diferentes, de forma a introduzir novas informações que mudam completamente o status quo. Em um filme ficcional, isso faz sentido, ainda que reviravoltas precisem ser bem trabalhadas para fazer sentido além dos 10 segundos de surpresa que elas proporcionam. Em um documentário, esses mistérios inorgânicos e forçados acabam parecendo bobos demais e são facilmente revelados como o diretor nos manipulando como marionetes. E o resultado é que o filme perde sua força, mesmo considerando o caminho dificultoso para os irmãos que vai sendo desvelado aos poucos.

Pior ainda, quando o documentário começa a tratar das entranhas da história pregressa da separação dos três não muito tempo após o nascimento, a barreira da falta de informações disponíveis faz-se sentir fortemente, com especulações que até se esforçam, mas caem no vazio, mesmo considerando as duas entrevistas com pessoas que parecem saber do que aconteceu, mas que, depois, revelam-se quase que completamente inúteis para iluminar esse passado sombrio. E o pouco que se extrai do que elas falam não ganha a exploração devida pela equipe de pesquisa do filme.

Além disso, inexplicavelmente, quando a fita acaba, é revelado que há mais informações que tornaram-se disponíveis publicamente, mas que “nenhuma é relevante” ou algo do gênero, o que parece até um desfavor para o público interessado na história. Se essas informações tornaram-se disponíveis após o final da produção da obra, era no mínimo interessante que, se tiveram tempo de inserir a informação sobre elas ao final, que pelo menos tivessem esmiuçado melhor os detalhes nem que fosse por escrito, em um texto menos simplista.

O drama dos irmãos separados no nascimento e reunidos 19 anos depois é irresistível. Mas a história fica refém de tantas “trapaças” narrativas para funcionar que, no final das contas, o que fica é um frustração enorme.

Três Estranhos Idênticos (Three Identical Strangers, EUA – 2018)
Direção: Tim Wardle
Elenco: Edward Galland, David Kellman, Robert Shafran, Natasha Josefowitz, Silvi Alzetta-Reali, Ron Guttman, Andrew Lovesey
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.