Crítica | Três Homens Maus (1926)

estrelas 4

É difícil eleger o melhor faroeste da fase muda de John Ford. Há Cavalo de Ferro, um épico de grandes proporções, mas há, também, Três Homens Maus, uma história de tons melodramáticos, mas de muita eficiência, sem que Ford deixe de demonstrar sua habilidade em trazer uma fotografia inesquecível e um trabalho de composição de sequências inigualável.

Passado no começo da Corrida do Ouro em Dakota, que viria, depois a se dividir em dois estados, Ford faz uma longa introdução sobre o status da febre que acometeu os imigrantes de várias nações pelo ouro no solo americano, mas ainda de propriedade dos indígenas, mais especificamente da tribo Sioux. O relato histórico inicial, que mostra a descoberta do ouro na região e o decreto presidencial que passaria a permitir a exploração da região por colonos a partir de 1877 é interessante e importante para situar o espectador (especialmente o espectador de hoje em dia), mas carrega, consigo, forte tom documental. Mas, ultrapassado esses primeiros minutos, Ford mostra a que veio, apresentando-nos a seus personagens, todos eles tirados do romance de Herman Whitaker.

Vemos os colonos, com foco nos Carlton, Lee (Olive Borden), a donzela em perigo e seu pai que levam cavalos de corrida para a região e em Dan O’Malley (George O’Brien), imigrante irlandês que, junto com Lee, formaria, basicamente, o casal heroico clichê de filmes futuros. Eles se encontram a caminho de Dakota, quando a carroça dos Carlton perde uma roda e O’Malley parte em socorro. Do outro lado, vemos três ladrões cobiçando os cavalos dos Carlton, além do xerife corrupto da cidadezinha de Custer, Layne Hunter (Lou Tellegen), com o mesmo interesse. Quando os dois grupos de ladrões convergem para a carroça isolada dos Carlton, com o grupo do xerife matando o pai de Lee, o outro grupo se compadece e ajuda a donzela, em uma reversão de papeis interessante que chega a deixar O’Malley, o galã por excelência, de lado.

E essa gangue de três ladrões de bom coração – os três homens maus do título – é formada pelo valentão “Bull” Stanley (Tom Santschi), Mike Costigan (J. Farrell MacDonald) e “Spade” Allen (Frank Campeau), cada um muito bem caracterizado e diferenciado por seus respectivos e característicos chapéus e representando a versão dos anos 20 do que hoje se convencionou chamar de bromance. Eles “adotam” Lee como sua protegida e passam a tentar arrumar um marido para ela, momento em que, claro, O’Malley entra novamente na narrativa.

O diferencial, nessa obra de Ford, é sua abordagem dos ladrões valentões. Santschi, vivendo Bull, é uma espécie de precursor de John Wayne, no papel do durão de coração de manteiga e ele e seus amigos formam uma memorável trinca sem, porém, qualquer profundidade de caracterização. Eles até podem começar como ladrões de cavalo, mas, quando conhecem Lee, tornam-se, automaticamente, os “mocinhos” de toda a fita, opondo-se muito claramente a Lou Tellegen, com sua maquiagem pesada, com olheiras pretas, do vilão Layne Hunter.

Se a narrativa pode parecer uma visão romântica dos chamados cowboys, é porque é mesmo. Mas é uma visão que funciona, com direito a sequências em Custer e arredores de tirar o fôlego pela quantidade de extras envolvidos e pela coreografia de toda essa gente. O ponto alto em termos técnicos é a longa e irretocável sequência da literal Corrida do Ouro, no dia e hora em que o território Sioux, repleto de promessas e sonhos dourados, passa a se tornar terra apropriável pelos colonos na base do “chegou, é sua”. Ford enfileira centenas de extras, com todos os seus respectivos apetrechos e um gigantesco número de carroças diferentes e nos presenteia com belíssimas tomadas em plano aberto a perder de vista, somente para, começando a corrida, ele passar a focar não só nos protagonistas como, também, em diversos outros personagens que só se transformam em personagens ali, naquele momento, como o casal com filho que tem a carroça quebrada e esquecem o pequeno “Moisés” no chão, somente para ele ser salvo por O’Malley, depois de uma tomada com a câmera no chão, olhando para o bebê em primeiro plano e os colonos correndo em sua direção. Memorável o trabalho de Ford, que também envolve o incêndio em uma igreja e a sequência final, que lembra muito a história dos 300 de Esparta, com apenas os “três homens maus”, em um desfiladeiro, tendo que lidar com a numerosa gangue de Hunter.

Unindo uma cavalry story, com uma abordagem diferente e fortemente romântica à uma outlaw story, John Ford apresenta talvez seu melhor trabalho de sua era de filme mudo, com uma tocante atuação de Tom Santschi que, direta ou indiretamente, inspiraria diversos papeis na prolífica história do western, especialmente os do inesquecível John Wayne.

Três Homens Maus (3 Bad Men, EUA – 1926)
Direção: John Ford
Roteiro: John Stone (baseado em romance de Herman Whitaker)
Elenco: George O’Brien, Olive Borden, Lou Tellegen, Tom Santschi, J. Farrell MacDonald, Frank Campeau, Priscilla Bonner, Otis Harlan, Phyllis Haver
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.