Crítica | Tristão e Isolda (2006)

Tristão e Isolda é um filme sobre o amor numa época difícil para homens e mulheres, pois os relacionamentos estavam vinculados estritamente aos interesses e alianças entre territórios geográficos envolvidos em situações políticas. O casamento era um negócio valioso e o amor na Idade Média era sentimento para os corajosos, algo que pode ser bem visualizado nos 125 minutos desta história de amor épica que ganhou ressonâncias na produção cultural ao longo da história da humanidade desde o período medieval.

Kevin Reynolds dirigiu o roteiro de Dean Georgaris, texto inspirado na lenda celta medieval que exala sentimentalismo e paixão. A narrativa se inicia no período marcado pelo final do Império Romano. A Grã-Bretanha encontrava-se dividida entre vários clãs que disputavam a hegemonia política. A Irlanda, por sua vez, manteve-se intacta, a dominar algumas tribos britânicas e projetar-se sem grandes preocupações em relação aos inimigos externos. É nesse contexto que numa situação conflituosa, o Lorde Mark (Rufus Sewell) salva o pequeno Tristão (Thomas Sangster) durante uma batalha. Ele leva o garoto para o seu reino e o faz crescer como se fosse do local.

O problema é que anos depois, o garoto se transformou num belo homem (James Franco). Eles duelam em diversos conflitos e após uma situação inesperada, Tristão é tido como morto. Após o ritual que consistiam em enviar o corpo num pequeno barco ao mar, o jovem fica apenas na memória. Algum tempo depois, Isolda (Sophia Myles) o encontra e com o apoio de uma serva, cuida do jovem que na verdade estava vivo. Eles se apaixonam. O problema, caro leitor, está no que se desdobra diante da situação. Ambos os amantes vivem uma tórrida paixão que precisará ser repensada, pois Mark, sem consciência da situação, ganha Isolda numa disputa. O que fazer? Viver intensamente o sentimento ou ser leal ao irmão?

Com diálogos repletos de juras de amor e disputas masculinas por supremacia, Tristão e Isolda reconstrói o período medieval por meio do eficiente design de produção assinado por Mark Gerauglty, setor técnico que ganha destaque graças ao trabalho também interessante de Arthur Reinhart na direção de fotografia, profissional que ao seguir a cartilha dos filmes épicos, acerta nos ângulos e quadros, além de entregar um plano de fundo gélido para a história de amor desenvolvida pelo roteiro de Georgaris. Peter Boyle ficou com a montagem, setor que tem como destaque as transições razoáveis e as cenas de batalha que ao menos nos permitem entender o que está acontecendo, mas que precisava diminuir um pouco a extensão narrativa.

Dentre os destaques temáticos e contextuais, Tristão e Isolda nos permite discutir o amor por uma via idealizada, pois na prática os amantes sabiam da impossibilidade de paz diante do atendimento aos seus respectivos desejos. Ridley Scott, produtor executivo do épico, alegou que se interessou pelo filme por se tratar de “uma história intensa que transcende épocas”. Tristão está para a cultural tal como Arthur, Romeu e Jack, assim como Isolda, mulher que representa o mesmo que Guinevere, Julieta e Rose no imaginário popular, isto é, amantes impossibilitados de se entregar aos desejos por conta de restrições sociais, políticas e culturais.

Focado no que se convencionou a chamar de “amor cortês”, a narrativa retrata indivíduos que são capazes de morrer ou sofrer graves consequências para dar vazão aos seus sentimentos. Dentro desse segmento de vida, o “amor” é um sentimento que podia levar as pessoas aos atos mais impensados, colocando em risco a hegemonia de famílias e grupos políticos em prol de um dos sentimentos mais abstratos e subjetivos da existência humana. Tristão quer Isolda. Mark também. Isolda quer Tristão, mas precisa ser obediente, afinal, este era o papel das mulheres. Ambos não conseguem encontrar uma solução fácil, pois a única maneira é trair o irmão e todo o reino. Como amar desta maneira?

Tristão e Isolda — (Tristan & Isolde) Estados Unidos, 2006.
Direção: Kevin Reynolds
Roteiro:Dean Georgaris
Elenco: David O’Hara, Henry Cavill, James Franco, Jamie King, JB Blanc, Rufus Sewell, Sophia Myles.
Duração: 125 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.