Crítica | Troia – A Queda de Uma Cidade- 1ª Temporada

Os realizadores de Troia – A Queda de Uma Cidade provavelmente sabiam da necessidade de reinvenção de qualquer abordagem sobre mitos gregos e elementos da poesia homérica para a indústria cultural contemporânea, haja vista a quantidade de releituras realizadas durante todo o século XX, bem como nestes primeiros anos do século XXI. A honra e a glória dos heróis que travaram batalhas nos portões da mitológica Troia compõem uma lista numerosa. Era preciso, principalmente em tempos de mudanças de paradigmas, reajustar um pouco o rumo das coisas. É ai que entra a maldita da “boa intenção”, pois muitos acreditam que basta apenas a boa vontade para que uma produção consiga dar certo, entretanto, desta vez não deu.

É com pesar, caro leitor, que preciso admitir nos primeiros parágrafos desta crítica, o caráter errante desta série desde o seu primeiro episódio. Para um amante da mitologia grega e das ressonâncias do conteúdo literário atribuído ao poeta Homero, o rumo desta série pode incomodar ainda mais. Aquiles é negro, Helena é astuta, Penélope não fica o dia tecendo a sua colcha, mas ainda assim, mesmo com toda preocupação em trazer questões polêmicas para reinterpretarmos os mitos, a série falha. A culpa, creio, esteja na tentativa de causar “muito barulho por nada”, ao levantar discussões valiosas, mas não dar conta de sustenta-las.

Do que adianta nos primeiros instantes, ao nos depararmos com Páris (Louis Hunter) diante das três deusas que disputam um fruto de ouro, com Zeus (Hakeem Jae-Kazim) representado por um ator negro, uma abordagem que abre espaço para as discussões sociais mais importantes do nosso contexto atual, mas os diálogos surgirem mal elaborados, repleto de imprecisões, atuações cafonas e ritmo irregular? Se tudo fosse isso, mas ainda temos que lidar com a montagem ruim, trilha sonora dispensável, direção mediana e estética que nos remete ao equívoco brasileiro chamado Os 10 Mandamentos. Complicado, concorda?

O enredo, como já sabemos, é uma mescla de elementos da mitologia grega com aspectos específicos do poema narrativo Ilíada, de Homero. Páris nasce Alexandre, mas como a sua irmã teve uma premonição e informou que ele poderia ser a derrocada de Troia, o seu pai Príamo (David Threlfall) solicitou que um dos empregados eliminasse a criança. Sem coragem, ele apenas a abandona. O garoto será encontrado, tratado como filho de “alguém” e receberá o nome que conhecemos: Páris. Ao crescer, participa de um torneio em Troia e acaba sendo reconhecido pelos pais verdadeiros. Trazido para o seio familiar, Páris recebe uma missão futura: ir até os espartanos para travar um acerto diplomático. O problema é que no local, a promessa de Afrodite realizada no episódio do fruto de ouro se estabelece. Ele conhece a mulher que vai mexer com sua cabeça, Helena (Bella Dayne). Há várias decisões narrativas que fogem dos padrões: Helena, por exemplo, segue para a sua embarcação em um caixote, mas por decisão própria, não como uma raptada, numa demonstração inteligente de mudança de paradigma. Os realizadores estão cientes dos debates sobre empoderamento feminino. A questão é que nesta fuga de padronizações os roteiristas não conseguem criar elementos que magnetizem a série e o espectador, mergulhando profundamente em frases de efeitos e criação de personagens caricatos.

Menelau (Jonas Amstrong) e Agamenon (Johnny Harris), revoltados com a ousadia do jovem Páris, convocam Odisseu (Joseph Mawle), rei de Ítaca que casou recentemente e não está interessado em batalhas. Penélope (Erica Wessels) recepciona os soldados de Menelau num posicionamento mais empoderado que o comum. Ela age inteligentemente, diferente da submissão e passividade de outras versões, mas como sabemos que é destino de Odisseu partir para a guerra, o texto resolve não mudar muito as coisas, afinal, sem o astuto herói não teríamos a Odisseia, tampouco a construção do Cavalo de Troia.  Odisseu nos leva até o arrogante Aquiles (David Gyasi), herói que terá a chance de se tornar imortal ao participar da guerra, mas está ciente de que não voltará do combate vivo. Diferente da versão cinematográfica de Wolfgang Petersen, lançada em 2004, a série pouco foca no personagem, tampouco transforma a sua relação com Pátroclos (Lemogang Tsipa) num contato entre “primos” queridos. Na série eles são mais que isso, pois ambos os personagens trocam beijos calorosos e há até uma cena de sexo à três na praia que coloca o mito numa posição diferente das suas versões televisivas e cinematográficas.

De volta: com Aquiles e Odisseu, Menelau e Agamenon segue rumo à Troia e declaram a guerra que vai terminar com a morte de Heitor (Tom Weston-Jones), Ajax (Garth Breytenbach) e tantos outros que se torna extenso e desnecessário relatar pormenorizadamente. O destino das mulheres é o mais trágico. Helena é obrigada à voltar para o local de onde saiu, pois segundo o seu cunhado, ela ainda tem a missão de dar filhos ao marido humilhado. As cenas que se referem ao personagem nos trechos finais são angustiantes, pois ela é subjugada de várias maneiras não apenas pelo marido, mas pelos homens que a consideram o botão catalisador de todo o problema. Uma mulher que para os habitantes do reino onde foi designada à voltar, será odiada e amaldiçoada eternamente. E assim, a série encerra seu ciclo. Com algumas novidades, mas fixado nos padrões clássicos.

Os elementos técnicos foram comparados com a série Game of Thrones, o que é um equívoco dos grandiosos. A direção em Troia – A Queda de Uma Cidade é dividida por três: Mark Brozel, Owen Harris e John Strickland. Os primeiros seis episódios são sofríveis, mas assumo que o último nos permite maior aproximação com a série, mesmo com os diálogos ruins e escolhas narrativas imprecisas. Os realizadores contam com os diretores de fotografia Gustav Danielsson, Andrew McDommell e Ruairí O’brien, responsáveis por trabalhar bastante a dessaturação em busca de aumento da carga dramática, aliada da condução musical convencional de Robin Coudert. No que diz respeito aos demais aspectos visuais, o design de produção de Rob Harris consegue alcançar sucesso em determinados momentos, mas o resultado não é muito interessante. Harris conta com o apoio dos figurinos de Diana Chillers, os cenários de Melinda Launspach e a equipe de arte composta por Catherine Gaum, Jonathan Helly-Hutchinson e Karel Flint. Todos estão empenhados em resgatar supostos detalhes do que seria este espaço repleto de símbolos mitológicos, mas os esforços são pouco valorizados quando temos que lidar com os roteiros escritos por outro grupo, desta vez composto por Joe Barton, David Farr, Nancy Harris, Mika Watkins. O texto não é bom, falta ajuste nas necessidades dramáticas dos personagens, bem como melhor desenvolvimento físico, psicológico e social de cada um dos seres humanos que trafegam pelas vias de Troia e dos seus arredores.

A produção marca uma parceria entre a BBC e a NETFLIX. O resultado constrangedor pode não impactar na audiência, pois infelizmente estamos diante de um cenário onde o público está cada vez menos exigente no que tange à qualidade, preferindo ter material de sobra para entretenimento vazio à prática do exercício inteligente. Sinal dos tempos. Troia – A Queda de Uma Cidade é como o pequeno Alexandre: deve ser visto como uma maldição que precisa ser eliminada. É o lado ruim da televisão (e constantemente de uma parte da indústria cinematográfica), aquele que nos mostra que não são efeitos especiais, cenas de batalha e sangue derramado que nos prende à programação. Não dá, no entanto, para mentir sobre os nossos desejos ao final. Enéias, como sabemos, vai seguir seu rumo próprio, e Odisseu, ao retornar para Ítaca, enfrentará a fúria de Poseidon. Curiosidade masoquista desejar que haja uma nova temporada para a Odisseia e a terceira para a Eneida?

Troia – A Queda de Uma Cidade (Troy – Fall of a City) – 1° Temporada – 2018
Showrunner
: David Farr
Direção: Owen Harris, Mark Brozel, John Strickland
Roteiro: David Farr, Nancy Harris, Joe Barton, Mika Watkins
Elenco: David Gyasi, Jonas Armstrong, Bella Dayne, Inge Beckmann, Shamilla Miller, Peter Butler, Nina Milner, Joe Vaz, Sivan Raphaely, Carl Beukes, Alfred Enoch, Johnny Harris, Chloe Pirrie, Lex King, Woody Norman, Aimee F-Fion Edwards
Duração: 55 min. por episódio/ 08 episódios

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.