Crítica | Troilo e Créssida (1981)

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estrelas 2

Ambientada no sétimo ano da Guerra de Tróia, Troilo e Créssida, apesar de ser uma das tragédias shakespeariana, oscila entre um tom de comédia e mais seriedade. A peça, supostamente escrita em 1602, logo após Hamlet, traz diversos questionamentos considerados da era moderna, fazendo com que a obra parecesse falar sobre a Inglaterra de Elizabeth, apesar de sua ambientação na Grécia antiga.

Com esse fato em mente, Jonathan Miller, em sua adaptação da BBC Television Shakespeare, optou por utilizar um figurino renascentista. O resultado é uma confusão inicial do espectador que fica sem saber a época de fato que o filme para TV se passa e, posteriormente, um constante estranhamento – as roupas em completo contraste com os cenários são uma constante lembrança de que há algo fora do lugar no que vemos. Em questão de arte a adaptação é uma mistura não homogênea de duas épocas, fato que acaba tirando o enfoque da trama. No fim, parece que Miller simplesmente usou o tom da obra como desculpa para poupar orçamento.

Piorando a situação do longa-metragem está o pouco detalhamento dos cenários e até mesmo a ausência de uma grande variedade desses. Limitando-se a apenas algumas localizações, em geral filmadas em estúdio, parece estarmos assistindo um teatro filmado, fator que é ainda mais agravado por atuações exageradas, com destaque para Charles Gray, como Pandarus. Ao mesmo tempo esse tom teatral garante a comédia da obra que, mesmo assim, funciona eficientemente.

Salvando a adaptação de se tornar uma peça filmada por completo está a fotografia de Jim Atkinson que permite uma maior dinâmica nas cenas, não se limitando a sucessivos cortes secos. A câmera sabe trabalhar em cima das falhas do cenário, escondendo, em vários momentos, sua simplicidade.

As falhas do longa, contudo, não se limitam aos aspectos técnicos. O roteiro funciona de maneira confusa, não dando harmonia à relação de Troilo e Créssida em contraponto com a guerra de Tróia. Com isso há uma constante sensação de confusão por parte do espectador que não entende por completo o que se passa na tela. Tal fator será agravado caso não esteja acostumado com o inglês elisabetano de Shakespeare, que é mantido com rigor na adaptação da BBC.

Troilo e Créssida é um filme que se perde no meio das próprias limitações de cenário, ao mesmo tempo que garante um estranhamento visual graças ao figurino. Sua história não é contada de forma efetiva e dificilmente prende o espectador, principalmente considerando sua longa duração. No fim é uma adaptação que não sabe se achar entre a comédia e tragédia da peça original.

Troilo e Créssida (Troilus and Cressida) – Reino Unido, 1981
Direção: Jonathan Miller
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Charles Gray, Anton Lesser, Tony Steedman, Suzanne Burden, Max Harvey, Peter Walmsley, Vernon Dobtcheff, Geoffrey Chater, Benjamin Whitrow, Bernard Brown, Anthony Pedley, Jack Birkett, Kenneth Haigh, Simon Cutter, Esmond Knight.
Duração: 190 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.