Crítica | Trolls (2016)

estrelas 3,5

Mais uma franquia de brinquedos chega às telonas. Mas não entrem em desespero… Desta vez são os Good Luck Trolls, originalmente dos anos 60 nos EUA ou, como lançados no Brasil, Duendes da Sorte ou Zelfos, aqueles bonequinhos estranhos com cabeleira espichada colorida. E, surpresa, surpresa, o filme é genuinamente bom!

Para começar, a animação em computação gráfica é espetacular. Ajuda muito o fato de a história lidar com sentimentos efusivos de felicidade e alegria e os personagens serem mais coloridos do que a moda dos anos 60 ou qualquer desenho dos Ursinhos Carinhosos. Isso serve de palco para os animadores se refestelarem em um visual quase lisérgico de cores berrantes e purpurinadas que singram pela tela quase que incessantemente, especialmente quando a vida composta de “cantos, danças e abraços” dos pequenos Trolls é retratada em toda sua glória. A textura de “feltro” dada à composição em CGI empresta um ar de stop motion à obra, ao mesmo tempo que mantém na lembrança, ainda que lá no fundo, a origem como brinquedo dos adoráveis personagens centrais.

O roteiro, escrito por Jonathan Aibel e Glenn Berger, da ótima franquia Kung Fu Panda, também da DreamWorks, é objetivo em seu propósito de fazer colidir duas forças opostas: a alegria e a tristeza. Os diminutos Trolls vivem absurdamente felizes em sua árvore no meio da floresta depois que o rei deles os libertou, há 20 anos, dos malvados e intensamente tristes Bergens, gigantes horrorosos que criaram o “trollstício”, quando comem os Trolls para poderem conhecer, ainda que de forma efêmera, a felicidade. A premissa pesada (afinal, estamos falando de uma espécie de genocídio anual…) é mais do que equilibrada com a pegada leva do texto que simplifica a mensagem – a felicidade está dentro de cada um – e a repete em doses cavalares ao longo da projeção, que, lógico, coloca os Trolls novamente à mercê dos Bergens, somente para que Poppy (Anna Kendrick no original e Jullie Vasconcelos na dublagem brasileira), a filha do rei, juntamente com Tronco (Justin Timberlake lá e Hugo Bonemer aqui), o único Troll triste e rabugento e, por isso, sem cor, vão ao resgate dos compatriotas.

É na escolha em focar quase que exclusivamente na relação entre Poppy e Tronco no segundo do terço do filme é que está o maior acerto do roteiro. O divertido (mas que poderia cansar rapidamente) exagero colorido do início abre o caminho para uma narrativa mais equilibrada que, apesar de repleta de clichês sobre o conflito das visões de mundo diametralmente opostas dos dois, realmente tem momentos bem pensados e um timing cômico raro de se ver em animações, especialmente no caso de longas baseados em brinquedos. O roteiro usa a fofura extrema quase que como uma caricatura dela mesmo, com a rabugice também exagerada de Tronco (que tem uma explicação razoavelmente orgânica) servindo de contraponto, para choques de personalidade que são eficientes ao arrancar risadas tanto dos mais novos quanto dos adultos. A pegada é de longa feito pensando nos bem pequenos, mas que funciona também para várias outras idades sem que a abordagem completamente adulta de animações como as da Pixar se torne necessária. Em outras palavras, Aibel e Berger escrevem sem tratar seu público como bebês que precisam de chupeta toda hora. Eles sabem que os bem pequenos já ficarão deslumbrados com as cores e a cantoria e, com isso, reservam espaço para algo um pouco – apenas um pouco – mais sólido na troca de farpas e leve crítica social do roteiro.

O terço final, em que mergulhamos um pouco mais na “cultura” dos Bergens e há muito foco em Bridget (Zooey Deschanel lá), uma monstra apaixonada pelo infantiloide rei, é o tipo de narrativa com ação desenfreada que se espera de uma obra descompromissada como essa. Ainda que muito da qualidade das piadas se perca em prol das gags e montanhas-russas constantes, o brilho do que veio antes permanece razoavelmente bem até o mais do que previsível final.

O que realmente não funciona muito bem na progressão narrativa são os números musicais forçados goela abaixo pelo roteiro. Canções como Hello, de Lionel Richie, The Sound of Silence, de Paul Simon e True Colors, famosamente interpretada por Cindy Lauper, apesar de tematicamente combinarem com a narrativa, entram na história no estilo “musical clássico”, ou seja, no meio dos diálogos, sem cerimônia, mas nenhuma vez em que isso é tentado, a estratégia funciona realmente (e isso vem de um crítico que simplesmente adora musicais desse tipo). Cada canção parece estar lá para estender a narrativa para os 90 minutos regulamentares muito mais do que para efetivamente contribuir com alguma coisa diferente.

Mas o pior foi a escolha da distribuidora nacional em dublar as canções para o português. Já fui obrigado a ver o filme dublado graças à Tirania da Dublagem, mas ouvir clássicos como os que mencionei acima em português simplesmente me retirou do filme como se meus dentes – no caso, tímpanos – estivessem sendo arrancados sem anestesia. Sei que muitos defenderão que os pequenos precisam da dublagem para entender o filme, mas não poderia discordar mais dessa afirmação preguiçosa. Os pequenos precisam bem menos da dublagem do que os adultos que não sabem inglês e não conseguem acompanhar a legenda em português. Os pequenos – por experiência própria – captam muito mais do que nós e deveriam ter a oportunidade sempre constante de contato com o inglês que é, para o mal ou para o bem, a língua mais importante do mundo. E tem mais: duas músicas – The Sound of Silence e Can’t Stop the Feeling, de Timberlake – não foram dubladas pela distribuidora, mas sim mantidas nos respectivos originais, o que mostra que a dublagem até disso é um exagero, uma conveniência equivocada e uma coroação da preguiça.

E não, não estou falando mal da dublagem em si. O trabalho de vozes do elenco nacional está muito bom, notadamente a rabugice de Bonemer, assim como o lado técnico da sincronização. E, acima de tudo, a tradução foi muito eficiente em manter as brincadeiras e piadas substancialmente dentro de seu sentido original, sem “tropicalizá-las” com gírias do momento ou situações da moda local. Mesmo as canções receberam um tratamento digno. Mas isso não quer dizer que estas últimas precisavam ser dubladas pelas razões que expus acima.

De toda forma, mesmo diante de um doloroso “Alô, não sou eu quem você está procurando?” ou algo do gênero, Trolls revela-se como uma animação surpreendente em sua simplicidade e eficiente em seu resultado. Qualquer espectador inevitavelmente sairá vomitando arco-íris (e um personagem até defeca bolinhos com glacê…), mas dificilmente poderá dizer que não se encantou com os bichinhos mais irritantemente felizes do mundo.

Trolls (Idem, EUA – 2016)
Direção: Walt Dohrn, Mike Mitchell
Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger
Elenco (vozes originais): Anna Kendrick, Justin Timberlake, Zooey Deschanel, Christopher Mintz-Plasse, Christine Baranski, Russell Brand,  Gwen Stefani, John Cleese, James Corden, Jeffrey Tambor, Ron Funches
Elenco (vozes no Brasil): Hugo Gloss, Jullie Vasconcelos, Hugo Bonemer
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.