Crítica | Trono Manchado de Sangue

estrelas 5

Trono Manchado de Sangue (1957) é mais um dos mergulhos de Akira Kurosawa na literatura. Tendo visitado o teatro kabuki em Os Homens Que Pisaram na Cauda do Tigre; dois contos do escritor japonês Rynosuke Akutagawa em Rashomon; e a literatura russa em O Idiota, o diretor voltou-se para o teatro shakespeariano. Ao lado de mais três colaboradores, adaptou a tragédia Macbeth, escrita pelo bardo inglês no início do século XVII.

O título em japonês pode ser traduzido como “Castelo da Teia de Aranha” (o nome do palácio do Senhor local) e se passa no período Sengoku. Em primeira análise, é importante nos lembrarmos que Kurosawa dedicou-se a uma tarefa bastante difícil, que foi adaptar culturalmente, além de dramaticamente uma obra que se passa em um Reino da Escócia para um Feudo no Japão Medieval. Tendo feito uma transposição de igual dificuldade em O Idiota, o diretor já estava familiarizado com as particularidades literárias desse tipo de obra e sua implicância no cinema. Agora faltava arquitetá-las.

Como fizera em boa parte de seus filmes anteriores, o diretor abre Trono Manchado de Sangue com um grande plano geral e vai trazendo aos poucos os elementos do cenário para então fazer aparecer as personagens do filme. O espaço, desta ver, é  uma paisagem enevoada. Neste filme, o nevoeiro é mais presente que a chuva, um elemento natural muitíssimo recorrente na filmografia do diretor, e o seu uso não é gratuito. Símbolo de tudo o que ainda não tem consistência, uma mescla de água e fogo, do indeterminado aonde não é possível se ver formas novas nem antigas, o nevoeiro toma conta da paisagem do filme como um espectro, algo fantástico que vem salientar a vulnerabilidade de tudo o que se vê na tela: o poder, a vida, a guerra, a sorte, o azar. E desse início cheio de indefinições e sob o canto agourento de um coro (que também aparece no epílogo para a obra), chegamos às primeiras personagens.

A história do filme nos traz os acontecimentos em torno de Taketoki Washizu e Yoshiaki Miki, dois guerreiros que encontram uma bruxa/espírito numa floresta e recebem dela previsões para o futuro. Como as promessas são de nobreza de alto nível, os amigos zombam do que lhes é prometido. Mas Washizu compartilha o acontecimento com a esposa (que assume de maneira fantástica o papel da vilã Lady Macbeth, da peça original), a Senhora Asaji Washizu. Ela passa então a “envenenar” o esposo com ideias de que Miki iria conspirar, mais dia menos dia, contra seu amigo, e que então seria a ruína dos Washizu. Como forma de evitar esse futuro e para acelerar a sua subida ao trono e ao comando do Castelo da Teia de Aranha, Asaji convence Washizu a assassinar o Senhor do castelo. E então tem início a um rio de sangue que irá correr durante o filme inteiro.

Nas duas aparições que Kurosawa nos traz dos espíritos ou bruxas, percebemos uma grande diferença para com a concepção literária, e não podemos deixar de louvar a escolha de Kurosawa por elas. Shakespeare nos traz três bruxas de aparência andrógena, mas com traços masculinos (ele cita até a barba das bruxas), e na segunda aparição fica clara a visão maléfica dessas personagens, que parece se divertir com a sorte do homem. Em Trono Machado de Sangue a primeira aparição também é andrógena, mas perde o status de má, sendo apenas uma vidente que tem contato com os elementos da natureza e com as forças do destino, sejam elas boas ou não.

Não há espectador que não se impressione com a qualidade técnica e rigor na direção das duas sequências de aparição dos espíritos. Primeiro, a criação de um ambiente medonho no meio da floresta, geralmente acompanhado de chuva, relâmpagos, trovões, vozes e risadas. A saturação em branco na fotografia e a perfeita edição das sequências ajudam a torná-las inesquecíveis. Outra aparição que também merece destaque é a do fantasma, no banquete de comemoração de Washizu. O momento demarca o início da derrocada do Senhor traidor e assassino, e de tão simples, consegue ser tão poderosa quanto a escrita por Shakespeare.

A complexidade da narrativa prossegue. Ao mesmo tempo que Washizu ama seu Senhor e seu amigo Miki, existe uma necessidade interior incontrolável de traí-los. Um estranho instinto de sobrevivência parece tomar conta do samurai, o mesmo instinto que o faz agir impulsivamente, deixando a razão de lado, e que acaba por gerar o ambiente para a sua ruína.

Kurosawa consegue fazer uma adaptação bastante legítima da obra de Shakespeare e o resultado é mais uma obra-prima de sua carreira. Trono Manchado de Sangue é um filme que mistura fantasia e todos os elementos de uma tragédia clássica, expondo na tela de maneira grandiosa e escrupulosamente bem dirigida uma das histórias mais intrigantes da dramaturgia. É um filme para ninguém botar defeito.

Trono Manchado de Sangue (Kumonosu-jô) – Japão, 1957
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Hideo Oguni, Shinobu Hashimoto, Ryûzô Kikushima, Akira Kurosawa (baseado na obra de William Shakespeare).
Elenco: Toshirô Mifune, Isuzu Yamada, Takashi Shimura, Akira Kubo, Hiroshi Tachikawa, Minoru Chiaki, Takamaru Sasaki, Gen Shimizu, Kokuten Kôdô, Kichijirô Ueda
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.