Crítica | Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

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estrelas 4

Sucesso de público e muito mais mimado pela crítica que seu antecessor, Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010) veio como uma bomba diferente para a opinião pública, trazendo não apenas questões ligadas à violência urbana, corrupção dentro da polícia e o sofrimento de inocentes, jogados no meio do lamaçal de suspeitos e aproveitadores… ou pegos por uma bala perdida. Fazendo valer o subtítulo, a fita coloca as grandes instituições, o Estado, os políticos e em parte, a mídia, como parceiros e financiadores de ações e ideias que, a longo prazo, fazem as coisas piorarem para todos.

Alcançando, na época, o status de filme brasileiro mais visto da História, com 11.146.723 ingressos vendidos (superando o então recordista Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1976 e só sendo superado — de maneira contestável — por Os Dez Mandamentos – O Filme, em 2016), o segundo Tropa segue mostrando a jornada do Capitão Nascimento (agora Tenente-Coronel e depois Subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro), 13 anos depois dos eventos de Tropa de Elite (2007). Após uma quase adaptação do drama para uma série TV, que não aconteceu porque o diretor José Padilha não chegou a um consenso de “controle total” junto à Rede Globo, os produtores concluíram que tinham material para um segundo filme, se mostrassem outros aspectos da violência urbana. Após a confirmação de Wagner Moura no icônico papel que lhe projetou no cenário internacional, a equipe embarcou na sequência que, segundo o diretor, fecharia a sua trilogia sobre violência urbana, antecedida por Ônibus 174 (2002) e Tropa de Elite.

A construção do roteiro segue aqui os mesmos padrões do primeiro Tropa. Há a narração cínica, engajada e emotiva de Nascimento, o recurso de flashback não-óbvio e muitíssimo bem trabalhado no enredo, pegando um ponto alto da trama como gatilho para o que levou o personagem até aquela situação; e a mensagem moral, ética e política sobre o assunto tratado. O que faz deste um filme melhor, no entanto, é o uso bem mais orgânico da narração — que praticamente não incomoda mais e não parece forçada em situações críticas –, o tratamento cíclico dado à temática, o que faz com que bandidos comuns, policiais e políticos corruptos e os poucos honestos da obra ganhem destaque merecido e tenham seus arcos individuais bem finalizados. Embora se conclua de maneira parcialmente preguiçosa, após o depoimento de Nascimento no Plenário, com a passagem simples pela “maior queima de arquivos da História do Rio de Janeiro“, a obra ainda se sustenta em alta. E a despeito dos erros, seu tema e desenvolvimento merecem aplausos.

Padilha faz uma tomada mais honesta da problematização de um grave e persistente problema social, destacando um lado (o lado da polícia, sob a visão de Nascimento); e adicionando outro lado, como real contraponto. No passado, este “lado B” (o lado dos Direitos Humanos), embora com base em diversas verdades, não logrou chegar a um cenário interessante. Já aqui, o diretor e co-roteirista conseguiu uma boa “briga de ideias”, mostrando as situações quase com igual força, não apenas pescando frases de efeito, mímicas e clichês do opositor para construir sobre isso a sua visão (o bom e velho caminho da falácia). A despeito disso não ter tirado, ao menos na minha leitura, o valor do primeiro filme — afinal, ele perde pontos por problemas de outra ordem –, com certeza foi algo imprescindível a ser destacado nos debates (sugiro que leiam os comentários da crítica anterior para acompanhar os diferentes raciocínios).

Essa maturidade que vemos no roteiro e na construção dos personagens é que dão a Tropa 2 uma cara diferente, infelizmente ainda mais próxima de nós brasileiros, que vivemos em um momento onde um Senador da República cogita matar o primo para ele não delatar; onde Presidente da República é acusado de ter cometido crime de corrupção passiva e onde outros ex/futuros políticos são investigados, acusados e condenados por crimes das mais diversas ordens [NOTA: eu sei que este parágrafo ficará datado com o tempo, mas são fatos importantes demais, além de coerentes com o cenário do filme, para eu deixar de lado. Então é importante ressaltar que o texto foi escrito em 18/07/2017].

A marcação do ritmo, através da montagem, encontra neste filme uma série de vantagens locacionais. O contraste entre a “boa” e a “má” cidade na tela ajuda, por si só, a dar uma atmosfera diferente ao filme, contrastes sociais e de ambiente que o fotógrafo Lula Carvalho manipula com precisão e de maneira bem mais elegante que no longa anterior, conseguindo não só grandes tomadas e alguns ótimos planos em continuação, como ambientações mais cruas, mais condizentes com a trama. A câmera ainda inquieta de Padilha termina o trabalho, trazendo um ritmo de urgência e sugerindo algo documental, como é seu característica, trabalhando os ambientes diante de uma trilha sonora simples e com canções marcantes; precioso uso de edição e mixagem de som e desenho de produção que não distrai o espectador.

Mirando nos políticos e instituições, O Inimigo Agora é Outro é capaz de gerar ainda mais raiva no público, que se dá conta, ao menos parcialmente, dos braços do Estado como parte do mal que consome a sociedade. Tendo em cena um ótimo elenco e um roteiro mais maduro e honesto frente à temática que trabalha, José Padilha realiza em Tropa 2 a sequência de um grande ícone do nosso cinema e não decepciona.

Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (Brasil, 2010)
Direção: José Padilha
Roteiro: Bráulio Mantovani, José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Milhem Cortaz, Maria Ribeiro, Seu Jorge, Sandro Rocha, Tainá Müller, André Mattos, Pedro Van-Held, Adriano Garib, Julio Adrião, Rodrigo Candelot, Emílio Orciollo Netto, Charles Fricks
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.