Crítica | Tropicália

estrelas 4

Tropicália. Novidade. Ditadura, repressão, exílio, censura. Música, amor, liberdade… Uma lista de palavras-chave poderiam figurar como introdução de qualquer texto e contexto que envolva a Tropicália, o movimento mais fértil e pulsante que a música brasileira já conheceu, não apenas pela sua explosão rápida e desaparecimento meteórico como movimento organizado, mas principalmente pela herança deixada às gerações futuras, que trabalhariam remodelando e adicionando acordes, ritmos e tons à musicalidade escancarada por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Tom Zé e Torquato Neto.

Na onda dos documentários musicais que proliferam no Brasil, a maioria de ótima qualidade, Tropicália (Marcelo Machado, 2012), se apresenta com uma alta dose de inventividade e um trabalho de montagem primoroso vindo das mãos de Oswaldo Santana (Natimorto e Bruna Surfistinha). Ao trazer o espírito múltiplo, vibrante, psicodélico e inovador da Tropicália para a forma do filme, tanto Machado quando Santana ganham pontos de originalidade e respeito ao tema com o qual trabalham.

A relação criativa entre diversas mídias está para o filme assim como as referências estavam para o movimento retratado. Fotografias, programas de televisão, cenas de filmes (alguns raros), bastidores de gravação, shows e outros documentários harmonizam-se com as entrevistas, as animações do material visual recolhido e as músicas mais notáveis do movimento reproduzidas, como Domingo no ParqueTropicália, Panis et Cicenses Alegria, Alegria.

Se fôssemos apontar algum deslize ou incômodo em relação ao filme, chamaríamos a atenção para o micro recorte que Marcelo Machado e os outros dois roteiristas, Vaughn Glover e Di Moretti, optaram fazer. Por um lado, nos ressentimos em apontar esse aspecto como deslize, até porque o filme dá conta do que propõe, e em um tempo de duração irretocável lida de maneira clara, didática e objetiva com as nuances do movimento. Por outro, sentimos falta de uma sustentação estrutural ao tema, com um prólogo trabalhando a MPB anterior ao movimento e uma finalização que apontasse ao menos parte da herança tão importante deixada por ele, algo que citamos no início do texto.

Se olharmos friamente, a película nos apresenta a Tropicália como uma encomenda da cegonha deixada em terras tropicais e tupiniquins por algum acaso vindo da Ditadura Militar, da repressão à livre opinião e coisas afins. Para espectadores iniciados, está tudo lá, nas entrelinhas, e mesmo que este tipo de público possa assentir que há uma falta de pré e pós Tropicália no filme, o seu arcabouço cultural cobre facilmente essa ausência, de modo que a obra se salva de ataques mais espinhentos. Todavia, é importante lembrarmos que havendo a possibilidade de estender mais a linha cronológica e contextual de uma obra, ela eventualmente se tornaria mais completa e elucidaria maiores dúvidas de espectadores que ignoram o por quê a Tropicália foi tão importante. Com que tipo de música ela rompeu? Além do “eco antropofágico”, que outras novidades ela trouxe em relação ao que já existia na cena musical brasileira? O que veio depois dela? Que coisas tão atemporais constam no movimento para que ele seja citado e estudado em pleno século XXI?

É claro que podemos tirar algumas citações e peças espalhadas pelo tempo fílmico para ensaiarmos uma resposta às perguntas anteriores, mas esse exercício não responderia as perguntas, e caímos no ponto anterior: seríamos obrigados a recorrer ao nosso conhecimento do período e do movimento para sanarmos as indagações, o único problema é que nem todos os espectadores são iniciados no tema, e para estes, uma parte do filme se configurou um vazio.

A despeito dessa ausência de estrutura mais ampla de sustentação temática, Tropicália é um documentário notável. Sua realização é esteticamente cuidadosa e o resultado final merece ser aplaudido. Em nenhum momento percebemos uma quebra no ritmo ou incongruências formais entre os diversos elementos usados para dar uma ideia clara e imagética do que foi a Tropicália. Para os amantes da música brasileira e para os que valorizam a nossa história e riqueza cultural, Tropicália é uma ótima pedida.

Tropicália (Brasil, 2012)
Direção: Marcelo Machado
Roteiro: Di Moretti, Marcelo Machado
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.