Crítica | True Blood – 1ª Temporada

estrelas 4

O que aconteceria se, de um dia para o outro, vampiros revelassem sua existência publicamente? E se esses mesmos quisessem fazer parte de nossa sociedade, com direitos e deveres próprios? True Blood trabalha em cima dessa premissa, jogando-a em um contexto provinciano, do interior da Louisiana, mais especificamente Bon Temps. Uma cidadezinha onde, até então, nada de incomum acontecia.

Como nos livros nos quais foi baseada, a série foca em Sookie Stackhouse (Anna Paquin), uma jovem garçonete do único bar da cidade, Merlotte’s. Stackhouse, porém, conta com um diferencial, que, desde os primeiros minutos, já é trabalhado em cima: sua capacidade de ler as mentes de todos ao seu redor. Tal habilidade, porém, funciona de maneira passiva e é preciso grande esforço por parte dela para se manter no silêncio. Algo, porém, foge a essa regra – em um dia normal, sem avisos, um vampiro entra no bar, sentando-se em uma das mesas de Sookie. Há um evidente ar de mistério emanando daquele ser, possibilitado pelo trabalho de maquiagem de Sasha Camacho, perfeitamente em harmonia com a atuação de Stephen Moyer, que nos entrega uma criatura claramente fora de seu tempo, como um retrato antigo, preto e branco, de família.

A garçonete, prontamente, entusiasmada, corre para atender o novo cliente, o primeiro vampiro do Merlotte’s, dando o primeiro passo em um caminho que o levaria ao centro do sobrenatural. Desde então, Anna Paquin prende nossa atenção, através de sua atuação que mergulha a fundo na personagem, trazendo cada nuance de sua personalidade à tona, compondo um perfeito contraponto a Bill. Desde o primeiro encontro é inegável a química existente entre os dois personagens, Alan Ball trabalha em cima dela durante todos os episódios da temporada sem entediar o espectador. Cada interação é realizada de forma diferente, mesclando o provinciano, os sotaques sulistas e aquela vida do interior, com o sobrenatural. Stackhouse é quem nos leva para esse mundo e, a cada episódio, True Blood nos apresenta novos elementos, novas problemáticas que dão um estranho ar de naturalidade à tudo aquilo.

Bill? Eu achei que seria Antoine, ou Basil, ou algo como Langford, talvez. Mas Bill? Vampiro Bill!

É nesse ponto que entramos em um ponto chave de True Blood. Quando achamos que estamos entrando em algo sério, Alan Ball nos puxa de volta para a realidade, inserindo alguma situação nada menos que ridícula. É uma série que não tem o intuito de ser levada a sério – seu objetivo é entreter, algo que é deixado claro desde a primeira cena antes dos créditos. Trata-se de uma grande caricatura de um mundo que, aos poucos, passamos a nos habituar. Quando paramos para perceber, cada ocorrência, no mínimo, surreal, é encarada normalmente e o que poderia ser visto como defeito, rapidamente, se torna um mérito.

Isso quer dizer que é uma série pior ou melhor que outras? Definitivamente não. Tal elemento confere uma identidade única a True Blood e, mais importante, permite os criadores a trabalharem em cima de praticamente qualquer material. É um típico exemplo de produto do entretenimento que forma um nicho específico, uma base de fãs que se identificam com tal narrativa – não é para todos, sem dúvidas.

Essa característica possibilita a abordagem de temáticas mais sérias sob uma visão menos incisiva. Temas como racismo, drogas e homofobia são trabalhados constantemente em diversos episódios, utilizando, muitas vezes, os vampiros como alguma metáfora de nossa sociedade. Nesses pontos as criaturas funcionam como bodes expiatórios, sendo culpados por crimes não menos cometidos pelos próprios humanos. Porém, de todos os temas abordados, o homossexualismo é um dos maiores destaques. Através do personagem Laffayette (brilhantemente vivido por Nelsan Ellis), a HBO, novamente na vanguarda, abre caminho para diversas outras produções, como Looking.

Dentro de todo o clima sobrenatural, ao mesmo tempo interiorano, ainda temos uma série de assassinatos ocorrendo em Bon Temps, que garante ainda mais a desconfiança dos moradores locais em relação aos vampiros. Trata-se de uma subtrama que aos poucos vai ganhando mais destaque dentro da temporada, unindo-se com a narrativa sob o ponto de vista de Sookie. Um grande mérito deste início da série é justamente a forma como cada história é encadeada, através de uma efetiva e dinâmica montagem – são diversos personagens, mas cada um deles consegue prender a atenção do espectador, garantindo a tensão por diversas vias, algo que é perdido em temporadas posteriores.

Contribuindo para toda a atmosfera carnal de mistério, paixão, sobrenatural, está a trilha sonora de Nathan Barr que utiliza, principalmente, instrumentos de corda para compor suas marcantes melodias. Aos poucos, cada música facilmente nos liga a determinado personagem, nos aproximando dele, através dos tons intimistas utilizados. Esse caráter íntimo da série se perde, em alguns momentos, por deslizes da fotografia de Checco Varese, que busca inovar, porém, sem atingir seus objetivos. Aos poucos, contudo, juntamente com os efeitos especiais, tais aspectos técnicos vão ganhando mais cuidado, ganhando uma visível qualidade.

True Blood certamente é uma série que não irá agradar a todos e sequer visa isso. É uma obra corajosa de Alan Ball, que cumpre o papel desejado: entreter seu público através de uma história que não deve ser levada completamente a sério. A primeira temporada foca na introdução do espectador a seu universo, explicando, pouco a pouco, cada elemento do sobrenatural. Seja através das subtramas ou dos distintos personagens, definitivamente irá fisgar a atenção daqueles dispostos a se deixarem levar pelas suas inusitadas situações passados por Sookie Stackhouse.

True Blood – 1ª temporada (2008)
Criador: Alan Ball
Roteiro: Alan Ball, Brian Buckner, Alexander Woo, Raelle Tucker, Chris Offutt, Nancy Oliver,
Direção: Alan Ball, Scott Winant, John Dahl, Michael Lehmann, Daniel Minahan, Nick Gomez, Marcos Siega, Anthony Hemingway, Nancy Oliver
Elenco: Anna Paquin, Stephen Moyer, Sam Trammell, Ryan Kwanten, Rutina Wesley, Chris Bauer, Nelsan Ellis, Jim Parrack, Carrie Preston, Michael Raymond-James, William Sanderson, Alexander Skarsgård, Lynn Collins, Lizzy Caplan, Lois Smith, Todd Lowe, Deborah Ann Woll.
Duração: média de 53 min por episódio

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.