Crítica | True Blood – 2ª Temporada

estrelas 4

A onda de assassinatos vistos na primeira temporada acabou em Bon Temps, mas a pequena cidade está longe de conseguir seu merecido sossego. Começando exatamente do ponto onde o ano anterior foi interrompido, True Blood nos coloca perante uma mulher cujo coração foi arrancado bem em frente ao único bar local, Merlotte’s. A temporada se inicia com um grito e um chocante acontecimento que já previnem o espectador do grau de loucura que veríamos ao longo dos episódios.

Satan in a Sunday hat (Satã em Chapéu de Veraneio): não poderiam haver palavras melhores para descrever o que vemos na figura de Maryann (brilhantemente vivida por Michelle Forbes). Já apresentada nos últimos episódios do ano anterior, a personagem levanta suspeitas a cada palavra por ela pronunciada. Sua aparente e exagerada bondade logo fisga a maior parte dos moradores de Bon Temps levando-os a festas que, pouco a pouco, se tornam verdadeiros bacanais. A ameaça da antagonista é palpável e aumenta cada vez mais com o desenrolar da trama. Neste ponto, já temos uma constante tensão capaz de prender, por si só, os espectadores.

Alan Ball, contudo, trabalha em cima de outra subtrama: o desaparecimento do xerife de Dallas. Deste lado, a história trabalha em cima de Sookie (Anna Paquin), Bill (Stephen Moyer) e Jason Stackhouse (Ryan Kwanten), que logo se envolvem com uma igreja anti-vampiros. Porém, mais importante, é a expansão da mitologia criada pela série, ao ponto de a hierarquia dos vampiros ganhar um grande foco da narrativa. Trata-se de uma série que não teme arriscar, propondo à sua audiência uma dose cada vez maior do sobrenatural.

A trama fragmentada desta segunda temporada acaba contando com alguns problemas de ritmo em determinados episódios, em geral provocados por uma quantidade exagerada de flashbacks e arcos de personagens. Todavia, o roteiro tem o grande mérito de conseguir encaixar as diferentes narrativas, garantindo uma união à trama geral. Fatos que parecem desconexos nos primeiros capítulos acabam compondo uma parte do quebra-cabeça ao final.

Porém, das qualidades do texto, a maior delas é a forma como os novos personagens são inseridos e como são trabalhados. Alan Ball consegue inserir esses novos elementos para que eles atuem como catalisadores de sua narrativa. Através deles, podemos nos aprofundar no passado e nos diversos problemas de cada personagem já conhecido. Aqui destaco os dois causadores de maior impacto, roubando a atenção pelas suas personalidades opostas: Godric e Lorena. Ambos expandem as figuras de Eric Northman (Alexander Skarsgård) e Bill Compton, respectivamente, abrindo espaço para o aumento do contraste entre os dois vampiros, fator que ganha grande destaque daqui em diante.

Essas mesmas diferenças entre os dois já ocupavam seu devido espaço na série, porém mais discretamente. Aqui, espero uma dose de incredulidade aos que acompanharam a série, já que Eric e Bill são completos e óbvios opostos desde o começo. Mas o que me refiro é o que cada um deles representa. A segunda temporada de True Blood trabalha consideravelmente em cima do conservadorismo, o velho versus o novo e, neste ponto, entram os dois vampiros. Embora Northman seja o mais antigo, seu visual contemporâneo (ampliado pelo seu novo corte de cabelo) funciona como o perfeito contraponto a Compton, que, por sua vez, representa um elemento mais clássico, evidenciado pelas roupas e palavras utilizadas.

Essa oposição, com amplo destaque, se estende visivelmente para o conservadorismo e fanatismo da igreja Fellowship of Light, uma clara referência à Ku Klux Klan, onde o negro é substituído pelo vampiro. Nesse ponto da história temos um foco em Jason, que passa a seguir os ensinamentos de tal igreja em seu momento de fragilidade, se tornando o perfeito exemplo de quão manipulado o homem pode ser.

A segunda temporada de True Blood consegue manter o mesmo estilo de narrativa da anterior e, ainda assim, trazer inúmeras mudanças para a série. Possui um tom claramente distinto que, pouco a pouco, nos mostra uma loucura aparentemente sem solução. Ainda que conte com suas falhas, Bon Temps novamente prenderá o espectador, trazendo uma crescente tensão, uma dose ainda maior do sobrenatural e uma visão mais aprofundada de seus personagens.

True Blood – 2ª temporada (2009)
Criador: Alan Ball
Roteiro: Alan Ball, Brian Buckner, Alexander Woo, Raelle Tucker, Chris Offutt, Nancy Oliver,
Direção: Alan Ball, Scott Winant, John Dahl, Michael Lehmann, Daniel Minahan, Michael Ruscio
Elenco: Anna Paquin, Stephen Moyer, Alexander Skarsgård, Sam Trammell, Ryan Kwanten, Rutina Wesley, Mehcad Brooks, Michelle Forbes, Chris Bauer, Nelsan Ellis, Jim Parrack, Carrie Preston, Michael Raymond-James, William Sanderson,  Lynn Collins, Lizzy Caplan, Lois Smith, Todd Lowe, Deborah Ann Woll.
Duração: média de 53 min por episódio

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.