Crítica | True Detective – 1ª Temporada

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estrelas 4,5

obs: Apesar de eu ter evitado spoilers da trama, essa temporada exige um certo segredo também sobre a forma como a história é contada. Assim, apesar de eu ter também feito das tripas coração para navegar essas águas pantanosas sem revelar nada, se há interesse em se assistir a série, sugiro que o faça sem ler absolutamente nada sobre ela.  

Diferente de séries normais e na linha do que é feito em American Horror Story, True Detective é, na verdade, uma “antologia” de histórias policiais com cada temporada abordando uma história diferente da outra, com personagens e atores também diferentes. O interessante dessa estratégia é a liberdade que dá ao showrunner Nic Pizzolatto (romancista americano e roteirista de dois episódios da 1ª Temporada de The Killing) para (1) contratar atores de renome para trabalhar na série, já que o compromisso deles fica restrito a uma rápida temporada de oito episódios e (2) contar histórias completamente novas sem protrair tramas indefinidamente como muitas séries fazem, esvaziando a originalidade.

E a 1ª Temporada de True Detective é repleta de originalidade, de grandes atuações e de um primor técnico digno do que estamos acostumados a ver na HBO e que muito filme de cinema não tem. Extremamente bem recebida, a temporada estreou muito bem, alcançando excelentes números e, também, alçando o nome de Pizzolatto ao Panteão dos Escritores de Séries de TV, ainda que, claro, esteja muito cedo para essa festa toda.

De certa forma, True Detective se baseia em muito bem feitos artifícios narrativos e de direção para levantar o hype ao seu redor e chamar a atenção do público. E eu não digo isso de maneira pejorativa; trata-se, apenas, de uma constatação. O primeiro e mais significativo desses artifícios é a separação da história em dois interrogatórios, um do ex-detetive Rustin Spencer “Rust” Cohle (Matthew McConaughey) e outro de seu parceiro e também ex-detetive Martin Eric “Marty” Hart (Woody Harrelson). Não sabemos, de início, sobre o que exatamente são esses interrogatórios, que se passam todos no presente, com flashbacks para o que os dois contam a dupla de policiais que os interrogam (Michael Potts, como Maynard Gilbough e Tory Kittles como Thomas Papania).

Encaixado nesse artifício, que por si só prende imediatamente a atenção e aguça a curiosidade do espectador, há o excelente uso de outro artifício: o do chamado “narrador não confiável”. Não temos certeza que Rust e Marty estão contando a verdade. Não temos certeza se os flashbacks que vemos na medida em que a história se desenrola são também verdadeiros. A incerteza é perene e os interrogadores podem estar sendo ludibriados exatamente como nós, espectadores, também podemos estar sendo enganados. A narração não confiável é extrema em True Detective e esse fato, aliado ao paralelismo das narrativas de Rust e Marty, retiram a série do lugar comum de outras séries detetivescas.

Mas tem mais. Na medida em que a investigação dos interrogadores sobre a investigação de Rust e Marty sobre um assassinato há 17 anos nos pântanos da Louisiana progride, passamos a assistir flashbacks para momentos distintos no tempo e começamos a perceber o absolutamente magnífico trabalho de caracterização e maquiagem dos atores. Rust é um homem em frangalhos no presente. Beberrão, viciado em drogas, fumante e extremamente pessimista. Seu passado tenebroso fazia dele, há 17 anos, um detetive obsessivo, atento a detalhes, além de ser sensitivo até certo ponto (mas de forma bem realista). McConaughey faz a composição de seu personagem no presente e nos passados com absoluta destreza. Vemos que ele é a mesma pessoa, mas ao mesmo tempo profundamente diferente.

O mesmo se pode dizer de Marty. No presente, vemos as entradas em seu couro cabeludo e a barriga saliente, ao passo que, nos flashbacks, vemos um detetive em forma, otimista, religioso, pai de família e com um futuro brilhante. Harrelson é o que mais muda psicologicamente entre eras e seu trabalho é surpreendentemente complexo e profundo, com um personagem que, no passado, compõe a imagem do “policial-clichê”, mas que, aos poucos, vemos camadas e camadas de detalhes de sua psiquê aflorando. É difícil escolher a melhor atuação.

E se eu já falei demais dos tais “artifícios”, saiba que eu não abordei todos ainda. No quarto episódio (Who Goes There), por exemplo, os seis minutos finais são um plano-sequência só, sem cortes, que começa fora de uma casa, entra na casa e depois sai dessa casa, pulando muros e entrando em carro que a televisão – e quiçá o cinema (excepcionando-se Gravidade, mas estou mais falando de filmes sem auxílio de CGI) – jamais havia mostrado antes. Há luta, tiroteio, dezenas de extras e muita correria em um trabalho de tirar o fôlego que vai deixar muito cinéfilo maluco para entender como o trabalho foi executado.

E a coisa continua, mas a grande e verdadeira beleza dessa temporada de True Detective é saber costurar todos esses elementos que, em mãos deslumbradas poderiam gerar o caos audiovisual, em um forte e coeso todo circular que fala sobre a vida e a morte, a sanidade e a loucura, a verdade e a mentira, o pecado e o arrependimento, a devoção e a profanação, o passado e o presente. Aliás, a temática circular e de oposição da temporada é brilhantemente apresentada não só na produção de arte como, também, nas personalidades de Rust e Marty, que representam dois lados de uma mesma moeda, dois homens com seus pecados do passado para lidar no presente.

Sem estragar nada para ninguém, o que mais me chamou atenção nessa série, porém, foram seus três ou quatro minutos finais (não vou nem descrever a cena para não arriscar spoilers) em que vemos um twist, mas um twist absolutamente diferente e, portanto, inesperado em qualquer meio. Nada de revelações chocantes, mas sim – e singelamente – a mudança de filosofia, de visão de mundo. Absolutamente arrebatador e, diria, nunca tentado antes dessa forma.

Mas esses são os elogios, que são mesmo muitos e merecidos e abrangem, ainda, a fotografia e a trilha sonora, além da abertura da série. No entanto, a temporada não é sem seus defeitos. A resolução final (antes do twist que mencionei acima) é muito mundana, rasteira, bem diferente do tom que o showrunner havia imprimido na narrativa. Foi algo nitidamente feito para dar algum tipo de satisfação ao espectador que espera uma simples história policial e, ainda que tecnicamente muito bem feita e assustadora, toda a sequência é rápida demais, traindo a cadência de tudo até então e simplificada demais, exatamente o oposto do raciocínio da perturbada cabeça de Rust e de seu atônito parceiro Marty.

True Detective é, porém, uma série que vale muito mais pela jornada do que pelo final. Um clichê? Pode ser, mas, aqui, ele é perfeitamente aplicável. Pizzolatto não tem pressa e preza pelos diálogos, pela caracterização dos protagonistas (os únicos personagens verdadeiramente desenvolvidos na série) e pela narrativa paciente, bela e que nos faz pensar. O final é apenas um detalhe que podemos esquecer e sim, perdoar.

True Detective (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: Nic Pizzolatto
Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Nic Pizzolatto
Elenco: Matthew McConaughey, Woody Harrelson, Michelle Monaghan, Michael Potts, Tory Kittles
Duração: 480 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.