Crítica | True Detective – 2ª Temporada

estrelas 4

Séries em formato de antologia são arriscadas por natureza. A primeira temporada sempre estabelece o tom e o espectador, meio que naturalmente, acaba esperando mais do mesmo na próxima, mesmo sabendo que a história seguinte será diferente e com outros personagens. É perfeitamente natural. E perigoso, muito perigoso.

Por isso considero Nic Pizzolatto e a HBO corajosos em sua proposta de uma antologia com temporadas ligadas única e exclusivamente pela temática policialesca, mais nada. Não há repetição de atores, situações e nem mesmo discretas piscadelas a eventos anteriores.

O showrunner, depois de pegar o mundo de surpresa com a 1ª temporada de True Detective, seu primeiro trabalho original para TV (antes ele só escrevera dois episódios de The Killing), não chega nem de longe a fazer algo que sequer resvale em seu trabalho anterior. E falo de conteúdo aqui, não de qualidade. Sim, trata-se de uma história de polícia, mas esperar um semblante de similaridade com a temporada anterior é pedir para se frustrar. Pizzolatto navega águas novas, começa do zero e se arrisca, exatamente como todo showrunner deveria fazer sempre, saindo da zona de conforto de seu próprio sucesso e mexendo fortemente no status quo até mesmo – principalmente, diria! – das expectativas de seus espectadores.

Assim, para que realmente seja possível assistir a 2ª temporada de True Detective, é necessário despir-se um pouco do que foi visto anteriormente e começar de novo. Claro, comparações são inevitáveis, mas também injustas. Pizzolatto sabe disso e, aparentemente, não liga.

A nova temporada começa lenta, em um episódio de estabelecimento das personalidades-chave: dois detetives e um policial de forças policiais diferentes da Califórnia e um gângster bem-sucedido que, como Michael Corleone, quer tornar legítimos seus negócios escusos. A convergência literal dos quatro personagens vem com o assassinato de Ben Caspere, uma espécie de gerente metropolitano.

Mas há um quinto “personagem” importantíssimo na série, um que permeia cada segundo da projeção: a cidade fictícia de Vinci (gerenciada por Caspere), nas imediações de Los Angeles, uma espécie de vala comum para onde tudo que é ruim e que é rejeitado pelas demais cidades ao redor vai. Imigração ilegal, jogos de azar, dejetos tóxicos, prostituição. O que você quiser há em Vinci em profusão, que funciona como uma poderosa crítica sócio-política a várias cidades do mundo e particularmente ao emaranhado de sub-cidades que entremeiam o centro-sul do estado da Califórnia, nos EUA. Vinci, assim como seus pares da “vida real” existem para dar vazão ao progresso disfarçado das metrópoles a caminho de um futuro às custas de muita exploração e muita morte direta e indireta. É absolutamente fascinante ver Pizzolatto colocar essa questão tão relevante dentro de uma estrutura narrativa dramática disfarçada de trama policial. Isso, por si só, já mereceria a atenção dos espectadores mais cínicos.

É lógico que o foco em Vinci e na complexa rede política que envolve municípios concorrentes e também o estado da Califórnia – representados pelos três policiais, Raymond “Ray” Velcoro (Colin Farrell), detetive de Vinci, Antigone “Ani” Bezzerides (Rachel McAdams), detetive de Ventura e Paul Woodrugh (Taylor Kitsch), policial da California Highway Patrol – dá contornos muito mais ambiciosos à temporada e exigem um grau de exposição maior aos roteiros, algo que inexiste na primeira. Isso, por si só, causa estranhamento e, de fato, é a razão para uma certa lentidão nos três primeiros episódios.

Essa vagarosidade, ditada pela história, vale frisar, impede que a temporada alce voos muito altos em sua primeira metade. Há um foco grande no desenvolvimento dos personagens, cada um com sérios traumas antigos, todos de certa forma relacionados com sexo. Velcoro assassinou o estuprador de sua mulher e potencial pai de seu filho e, a partir desse evento em seu passado longínquo, viu sua vida desandar. Bezzerides é uma mulher forte que se esconde atrás do sexo e de uma memória reprimida de infância. Woodrugh luta contra quem ele é com todas as suas forças, jogando-se em um relacionamento que não quer de verdade e sofrendo demais com isso ao ponto de ser um suicida em potencial. E, finalmente, temos o gângster que mencionei, Frank Semyon (Vince Vaughn), que deseja mais do que tudo ter um filho com sua mulher (Jordan, vivida pela bela Kelly Reilly), mas não consegue.

Decididamente, a primeira metade da temporada chega a se perder com monólogos filosóficos longos, com debates que correm atrás dos próprios rabos e não chegam a lugar nenhum. Pelo menos não em si mesmos. A jogada de Pizzolatto é de longo prazo e não “satisfaz” o espectador a cada final de episódio, o que provavelmente levou a alguns a fortemente criticarem a série. É que, realmente, assistir True Detective – pelo menos essa temporada – de maneira seccionada, episódio por episódio, tentando analisar cada um deles pode facilmente levar à conclusão apressada de que o showrunner perdeu a mão e isso é perfeitamente compreensível. Vendo o conjunto completo, porém, a coisa muda de figura quase que completamente, ainda que, se comparada com a 1ª temporada (injustiça inevitável!), a segunda seja realmente inferior.

Os dramas pessoais de cada um da quadra principal ganham profundidade quase novelesca, ainda que eles sejam interessantes. Há um tom fatalista que Pizzolatto imprime a cada curva, a cada nova e pequena revelação sobre o passado de cada um, com Velcoro e Semyon, por terem uma relação de longa data, ganhando maior foco. Mas o lado pessoal desses cabisbaixos e difíceis personagens espelham eficientemente a putrefação de Vinci e o que a cidade representa. Intolerância, preconceito, manipulação, violência, incapacidade de fugir. Tudo isso é a cidade e também Velcoro, Semyon, Bezzerides e Woodrugh.

Quando, então, há a alteração do status quo na metade da temporada (não é uma reviravolta, apenas realmente uma mudança de enfoque), depois de um belamente coreografado e incrivelmente violento tiroteio, Pizzolatto realmente engata sua narrativa e tira a série do que, com má vontade, poderia ser chamado de torpor. Ele embaralha as cartas um pouco e reestabelece a narrativa principal, inserindo novas situações e arriscando novamente ao exigir sobremaneira da memória do espectador, com nomes e situações obscuros citados a todo momento. Digo obscuros, pois eles estão lá. Foram mencionados antes, abordados anteriormente pelo roteiro. Mas quando eles reemergem, é tanto nome que parece novo, tantos detalhes que são trazidos à tona que é quase necessário começar a rabiscar um gráfico para não enlouquecer (tive que rever alguns episódios para realmente colocar meu cérebro em ordem).

E isso é bom? – o leitor pode me perguntar. Tenho para mim que sim. Didatismo é interessante em alguns casos, mas é chato. Somos todos adultos e Pizzolatto joga um jogo proibido para menores. Ele não está lá para nos ensinar o be-a-bá. Ou melhor, o be-a-bá foi ensinado na primeira parte e, na segunda, ele já exige que os conhecimentos sejam aplicados em sua plenitude. E o resultado é que tudo se fecha, tudo se encaixa como um jogo de Tetris bem jogado, mas que quase chega ao limite, tenho que admitir. Se alguém tinha alguma dúvida de que o capítulo de encerramento seria como foi, então definitivamente não estava assistindo a mesma série que eu.

As atuações são um capítulo à parte. E o destaque, pelo menos para esse crítico, fica com Vince Vaughn. Ator mais conhecido por seus papeis em comédias (Com a Bola Toda, Penetras Bons de Bico só para citar dois), aqui ele é um assombro. De um homem seguro de si e com um brilhante futuro a sua frente, nós o vemos – em razão do assassinato de Caspere, que dá início a uma bola de neve que o afeta assim como coloca os três policiais na investigação do caso – ter que voltar ao que fora, um homem que comanda sua equipe no dia-a-dia, com operações mundanas como boates, prostituição, tráfico de drogas e serviços de “proteção”. Suas economias de uma vida inteira de bandidagem sumiram de uma hora para outra quando seu negócio de aquisição de lotes de imóveis ao longo de uma futura linha férrea desaparecem completamente junto com Caspere e ele se vê desnudo, humilhado e Vaughn faz essa transformação com maestria, realmente deixando o espectador com pena dele.

Colin Farrell também está muito bem, pois a história de seu personagem se entrelaça com a de Vaughn, o que lhe garante mais tempo de tela e, por consequência, diversos momentos para trabalhar os ângulos de policial desgraçado, marido traído e pai ausente de um filho problemático. Ele é o retrato da decadência.

Kitsch e McAdams são eficientes também em seus papeis, graças a um roteiro que não os esquece e que erige passados críveis e dilemas morais interessantes para cada um deles. No entanto, inevitavelmente, a narrativa exigiu sacrifícios e eles acabaram tendo menos oportunidade de mostrar seus talentos. A impressão de conjunto causada por todos eles, todavia, é muito acima da média, com personagens humanos e, como tais, fundamentalmente falhos.

Nic Pizzolatto acertou mais uma vez com sua série. A segunda temporada de True Detective pode não ser tão boa quanto a primeira, mas ninguém pode acusar a produção de não ser ousada, de não desafiar o espectador, de não mexer com expectativas. Ah, se toda série fosse assim…

Obs: Para não dizer que absolutamente tudo – menos a temática geral – é diferente nessa temporada, Pizzolatto escolheu Nevermind, de Leonard Cohen como música de abertura e ela funciona como uma espécie de sucessora espiritual da canção da abertura anterior, Far From Any Road, de The Handsome Family, quando sincronizada a uma abertura de silhuetas emoldurando imagens da temporada de maneira semelhante, mas diferente ao que vimos antes. Dá vontade de ouvir e ver a abertura em loop indefinidamente, não?

True Detective – 2ª Temporada (EUA – 2015)
Showrunner: Nic Pizzolatto
Direção: Justin Lin, Janus Metz, Jeremy Podeswa,  John W. Crowley, Miguel Sapochnik, Daniel Attias
Roteiro: Nic Pizzolatto, Scott Lasser
Elenco: Colin Farrell, Rachel McAdams, Taylor Kitsch, Vince Vaughn, Kelly Reilly, Ritchie Coster, Afemo Omilami, Michael Irby, Leven Rambin, Abigail Spencer, Lolita Davidovich, James Frain
Duração: 480 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.