Crítica | Truque de Mestre

estrelas 2,5

Dentre as muitas frustrações de um cinéfilo, assistir a um filme que começa bem e termina mal está entre as que mais causam raiva. Depositar confiança em um roteiro, ser surpreendido constantemente e encontrar boa condução inicial em um filme despretensioso são coisas que animam a qualquer um e, é este o estágio em que ficamos na primeira metade de Truque de Mestre (2013), para daí em diante vermos revogada cada atribuição positiva, cada ponto de inteligência do roteiro, cada grande surpresa. O filme simplesmente deixa de ser bom do meio para frente. E nós que lidemos com isso.

Dirigido pelo francês Louis Leterrier, conhecido por seu trabalho em Carga Explosiva, no injustamente escanteado O Incrível Hulk (2008) e em Fúria de Titãs, o filme foi pensado como um show de mágica e deve ser assistido e curtido como tal. Durante quase uma hora nós temos um verdadeiro espetáculo de ilusões e pilantragens, dentro daquilo que este gênero tinha para oferecer e dentro da proposta da obra.

Esqueçam, por um momento, virtuosismos de direção. Truque de Mestre funciona, ao menos em seus primeiros 55 minutos, com base em um bom aparato técnico, começando pela montagem, assinada por Robert Leighton, de Questão de Honra e por Vincent Tabaillon, de O Incrível Hulk; passando pela simples, breve e eficiente trilha sonora de Brian Tyler — compositor queridinho de círculos “pop com requinte” de Hollywood, tendo antes feito a música de obras como Velozes & Furiosos 5: Operação RioOs Mercenários 2Homem de Ferro 3 — e chegando à fotografia de Larry Fong (Watchmen: O Filme) e Mitchell Amundsen, com excelente trabalho nas filmagens em palco.

Com esse corpo técnico o filme se mostra bem na tela, diverte pela inteligência do humor e dos truques e nos faz mergulhar nas ‘jogadas para o futuro’ que os Quatro Cavaleiros estão montando. Até então, não sabemos que isto será um dos grandes tropeços da fita na segunda metade, mas a perspectiva de um grande ato a longo prazo parece uma boa ideia. Para ajudar, o filme tem uma característica de destaque para o elenco, de modo que somos forçados a comprar o time dos mágicos, mesmo sabendo que eles estão do “lado errado da lei”. Ou não? Há uma pequena mistura de síndrome de Robin Hood aqui — e no final isso vira uma outra coisa, programada e pensada a muito tempo… — e talvez esse caráter nos faça ver os Cavaleiros com outros olhos, especialmente no ato em que eles permitem que todos gravem em seus celulares e fazem surpresas com os valores nas contas bancárias.

É a partir deste momento que a coisa parece degringolar de forma assustadoramente rápida e em quase todos os setores. Michael Caine, que já estava mal aproveitado, tem uma abordagem ainda pior nesta segunda metade. Morgan Freeman passa a atuar no automático, com seu personagem sendo quase um agente duplo, mas não sabemos disso até o final e, na verdade, não importa, porque essa mudança de direção, independente do papel a ser representado, não cairia bem no enredo. E, para finalizar, os diálogos entre a dupla Mark Ruffalo e Mélanie Laurent e do quarteto protagonista formado por Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Isla Fisher e Dave Franco, passam para algo desconexo, com pequenas frases de efeito e nonsenses sentimentais. Toda a diversão que havia na primeira parte é jogada fora e assume o leme do filme uma trilha mais puxada para o policial, seguindo uma operação que corre atrás do impossível e não chega a lugar nenhum em termos de narrativa.

Até a montagem, que na primeira parte fez um trabalho muito bom, se perde na alteração entre os blocos, não sabendo o quanto de tempo os policiais e os mágicos devem passar em cena, ou quando mostrar o Mister M-Freeman ou o personagem de Michael Caine. Instaurada a bagunça, o glacê das resoluções apressadas e já chateantes é derramado em doses cavalares e de forma semi-didática nos últimos minutos, o que irrita qualquer espectador que tenha prestado bastante atenção na primeira parte. Daí para o fim há pouca coisa que realmente nos surpreenda ou entretenha tanto quando o começo da fita.

Escrever um bom roteiro sobre mágica, principalmente em conjunto, é um desafio. É preciso considerar a linguagem de um espetáculo dentro de outro espetáculo. O show dentro da tela. A diversão vem quando o truque é muito mais do que parece e esta é a primeira impressão que temos de Truque de Mestre. Contudo, a linha narrativa da obra se desfaz daí para outra coisa, mudando o tom daquilo que garantiu a nossa atenção no começo. Ao término, vemos uma promessa não dita que até serve como curiosidade sobre o “próximo passo” do grupo. Mas já estamos em um momento onde não nos importamos muito, sentimento que se arrasta para a nossa opinião final sobre a obra: mediana, quando poderia ser excelente. Que baita frustração!

Truque de Mestre (Now You See Me) — EUA, França, 2013
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Ed Solomon, Boaz Yakin, Edward Ricourt
Elenco: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Isla Fisher, Dave Franco, Mélanie Laurent, Morgan Freeman, Michael Caine, Michael Kelly, Common, David Warshofsky
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.