Crítica | Tubarão 3

estrelas 0,5

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Acredito que todos nós, de alguma forma, estejamos entediados no que tange ao hábito de ler críticas que detonam o cinema hollywoodiano, acusando-o de pouco artístico, “capitalista” demais, exagerado, dentre outras coisas. Sabemos que em partes, isto é uma verdade que pede questionamento. Dessa forma, gostaria muito de começar uma análise para Tubarão 3 de outra forma, mas peço licença ao leitor, pois diferente do que imaginava, tornou-se praticamente impossível sair do lugar comum deste modelo de crítica.

Tubarão 3 é um dos maiores equívocos na história das continuações de franquias estadunidenses. Sexta-Feira 13, Jogos Mortais, Halloween – A Noite do Terror, A Hora do Pesadelo e Velozes e Furiosos: todos foram responsáveis por continuações que se perderam durante o longo caminho que trilharam, mas a saga do assassino marinho consegue se destacar no painel das “ruindades cinematográficas”. Há problemas homéricos nesta sequência, todos atribuídos ao roteiro e a direção da produção, ambos, frutos dos anseios hollywoodianos de capitalizar em torno de ideias que deram certos no passado, mas que por algum motivo, insistem em aparecer nas continuações de franquias que se perdem logo no entre o segundo e terceiro episódio.

Tubarão 3 já começou envolvido em polêmicas. Os executivos da Universal escalaram Joe Alves, o designer de produção dos filmes anteriores, para dirigir a terceira incursão marinha. Sem talento para orquestrar a trama, o cineasta erra feio na condução narrativa, cometendo equívocos que justificam este filme como a sua única direção cinematográfica em toda a sua carreira. Na época da produção, os mesmos executivos processaram Enzo G. Castellari, realizador italiano responsável por ter assumido a direção de O Último Tubarão, sátira trash do filme de Steven Spielberg. Acusados de plágio, os envolvidos na obra italiana tiveram que retirá-lo de cartaz.

O inverso, por sua vez, deveria ter acontecido por parte dos italianos, haja vista a quantidade de coisas que foram plagiadas do filme na realização de Tubarão 3, produção que surgiu na esteira desta polêmica entre tribunais e indústrias cinematográficas. No filme italiano o tubarão solta alguns rugidos parecidos com um leão, mas a ideia satírica justificava a abordagem. A versão estadunidense, entretanto, tentou se levar a sério, acrescentando este detalhe ao filme, além de algumas pequenas tramas do roteiro, culminando num fracasso cinematográfico com poucos e esquecíveis precedentes. A culpa desta vez nem pode ser creditada em seu total aos escritores, pois conta-se que o texto passou por diversas modificações, realizadas pelos produtores, algo comum no circuito industrial hollywoodiano, sendo esta atitude um dos problemas que acometem muitos filmes que prometem “tudo” e acabam por se tornar “nada”.

O roteiro, escrito por Richard Matheson e Carl Gottilebe, tendo como base a história de Guerdon Truebllod, rendeu um filme de 99 minutos com a seguinte trama: o filho do chefe de polícia Brody, Mike (Dennis Quaid) se tornou oceanógrafo e trabalha no Sea World, juntamente com a sua namorada, a bióloga marinha Dra. Kathryn Morgan (Bess Amstrong).  O local é gerenciado por Calvin Bouchard (Louis Gosset Jr.), um inescrupuloso homem ávido por sucesso comercial. Logo, um tubarão branco é encontrado navegando pelos arredores do parque. Capturado, o animal é colocado no espaço e torna-se a próxima atração, algo que possivelmente garantirá novas cifras no relatório do gerente Bouchard.

O que todos não esperavam é a chegada da mamãe tubarão, uma criatura gigantesca vingativa e sanguinária, responsável por causar pânico aos visitantes, principalmente depois que uma atração submarina é inaugurada, mas as coisas dão errado, deixando algumas prováveis vítimas presas à mercê da sede de revanche do animal marinho que mais rendeu filmes na história do cinema entre 1970 e os anos 2000.

Para completar a produção enlatada, o roteiro nos apresenta Sean (John Putch), irmão mais novo de Mike, um rapaz traumatizado pela velejada realizada no filme anterior, situação que o deixou com sequelas psicológicas, o que nos aproxima do conflito interno do primeiro filme. Assim, o espectador fica diante da narrativa à espera que algo interessante justifique a realização do terceiro filme. Até os primeiros 50 minutos nada de instigante acontece. Depois disso, algo chega para balançar a narrativa, mas é tão inexpressivo e pueril que o filme se perde ainda mais e torna-se um fardo para quem está assistindo. A presença de Alan Parker na composição musical não ajuda em nada, tampouco a edição da dupla Corky Ehlers e Randy Roberts. Nada, absolutamente nada se salva neste filme. Só lamento para os esperançosos. Nem o 3D faz efeito aqui, a não ser provocar momentos de diversão involuntária, algo fora da proposta original.

No meio cinéfilo fala-se sobre certa maldição no que diz respeito ao terceiro episódio de sagas cinematográficas: Pânico 3, de fato, é o momento menos inspirador da franquia de Wes Craven, mesmo que tendo aspectos muito interessantes como um todo. A saga Star Wars tem O Retorno de Jedi considerado por alguns como um elo distante dos filmes anteriores. Amytiville 3D é um horror, não no sentido do gênero, mas em aspectos narrativos. A Hora do Pesadelo 3 é o momento em que as coisas começam a perder o rumo em sua totalidade.

Culpar tal maldição, entretanto, seria algo plausível, mas felizmente temos o filme anterior, Tubarão 2, como prova de que as coisas começaram a dar errado desde a primeira continuação e, para piorar a situação, ficariam ainda mais terríveis com o horroroso/tedioso Tubarão 4 – A Vingança. Isto tudo, por sua vez, é assunto para a nossa próxima análise.

Tubarão 3 – (Jaws 3D) – EUA, 1983.
Direção: Joe Alves.
Roteiro: Carl Gottlieb e Richard Matheson.
Elenco: Dennis Quaid, Bess Armstrong, Harry Grant, Lea Thompson, Simone MacCorckindale, John Putch, Louis Gosset Jr., Lisa Maurer.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.