Crítica | Tubarão 4 – A Vingança

estrelas 0

Obs: Leia as críticas de todos os filmes da franquia, aqui. Há spoilers.

Tarefa árdua analisar Tubarão 4 – A Vingança. Há filmes tão ruins na história do cinema que pelo alto teor de ruindade, tornam-se divertidos. Vejamos o caso de Sharknado. A trama que envolve tornados e tubarões é ruim, mas sabemos disso ao travar o pacto ficcional. Tanto os envolvidos na produção como os espectadores sabem que estão diante de algo criado para tirar sarro do público e brincar de experiências absurdas com um subgênero desgastado.

Toda essa hombridade, por sua vez, não faz parte da quarta parte de uma franquia que podia ter sido muito boa. Tubarão 4 – A Vingança é hediondamente ruim por tentar se levar a sério e colocar os seus personagens em situações demasiadamente vexatórias. O leitor pode até ficar aturdido com tantos advérbios para descrever o filme, mas não há melhor forma para deslindar sobre tamanha aberração cinematográfica. Adornado por equívocos, o filme não faz parte do âmbito do comentado grupo de produções bizarras que divertem. Esta sequência além de ruim é coberta por camadas generosas de tédio, falta de bom senso e dignidade.

Steven Spielberg (diretor) e Verna Fields (montadora) tornaram Tubarão um dos maiores sucessos dos anos 1970 porque souberam contar muito bem a trama do simples roteiro de Peter Benchley e Carl Gottlieb. A trilha sonora de John Willians, juntamente com a desenvoltura do papel criador da câmera de Spielberg e da sua equipe foram bem aproveitados na mesa de montagem, tornando-se referência no cinema mundial, abrindo as portas para um subgênero que até os dias atuais desenvolve narrativas, tais como Do Fundo do Mar, Isca e o recente Águas Rasas, exemplares interessantes dentro do feixe de filmes toscos, como por exemplo, os descartáveis e desinteressantes O Tubarão de Duas Cabeças e Tubarão Fantasma.

Antes de adentrar na análise de Tubarão 4 – A Vingança, uma pergunta não quer calar desde que os créditos do filme subiram ao final da recente sessão de revisão. Por que motivo um peixe é movido por uma vingança pessoal? Dessa pergunta surgem outras como numa cascata de reflexões diante de uma narrativa tão banal. Era essa a proposta? Então por qual motivo não assumiram a produção como uma boa comédia? Por que a família Brody continua assombrada por tubarões e os seus sucessores de geração continuam envolvidos com o mar? No final das contas fica a dica para o espectador: não pense em nada sobre este filme. Nada, absolutamente nada faz sentido. Sequer a participação de Michael Caine, ator que na época da produção não pode ir buscar o seu Oscar por Hannah e suas Irmãs, de Woody Allen, devido ao seu envolvimento nas filmagens desta aberração nas Bahamas.

Lançado em 1987, o filme teve o roteiro assinado por Michael De Guzman. Na história desenvolvida o pânico retorna para Amity. Desta vez o filho mais novo da família, o amedrontado Sean Brody (Mitchell Anderson) trabalha como policial, mesma função desenvolvida por seu pai. Logo no começo ele é atacado por um tubarão e morre. A sua mãe Ellen (Lorraine Gary), uma mulher que acompanha a saga da família contra tubarões desde o primeiro filme, acredita que a morte foi uma vingança do tubarão.

Acredite, caro leitor, me sinto até envergonhado em continuar a analisar este filme, pois risadas involuntárias e uma sensação de cinismo me tomam só pelo fato de ter que relatar o fajuto desenvolvimento deste roteiro. Para Ellen, o animal caça a sua família desde sempre e em luto pela morte do filho, ela decide visitar o seu filho mais novo, Michael Brody (Lance Guest), então morador das Bahamas. Lá, ela flerta com um piloto interpretado por Michael Caine e aproveita o tempo para se divertir com a sua neta.

Para atrapalhar os planos de vencer o luto, eis que novos conflitos se estabelecem. O tal tubarão da vez decide atacar no local em que ela foi. Mas, como assim? Você fez essa pergunta para si? Não se preocupe: se você se perguntou é porque é algo bem natural, pois estou refazendo-a desde que o filme terminou. Com tantas pessoas envolvidas e um estúdio tão poderoso financeiramente, como uma ideia dessas passou adiante e tornou-se um filme? Teria o tubarão a capacidade de compreender que a personagem deslocou-se? Ela nem sequer foi via marinha, caso tivesse ido, isso também não explicaria tal absurdo, vale ressaltar.

O que vemos nisso tudo é muito descaso e falta de bom senso. O realizar Joseph Gargent constantemente coloca a câmera em sua subjetividade, na tentativa de copiar o padrão do primeiro filme, mas a tática não funciona. A sensação é de tédio, pois o espectador sente-se tolo diante de tanta banalidade em apenas 89 minutos de filme. Os personagens são rasos, seus conflitos pouco convincentes e até os efeitos especiais são vergonhosos, haja vista os tubarões do primeiro filme, mais interessantes em termos estéticos, mesmo diante do menor orçamento da franquia. Compará-lo, entretanto, ao sofisticado filme do Spielberg é covardia e não cometerei tal atitude por aqui. O filme já é suficientemente ruim e o leitor, provavelmente, já está convencido, não é mesmo?

Como se todos os absurdos não fossem suficientes, os momentos finais reservam o pior de tudo. Ellen Vingativa x Tubarão Vingativo. Resultado? Ellen consegue empalar o bicho, vencer a batalha, mas o mico já foi pago por mais de 80 minutos e há momentos em que deixamos nossa rede de valores de lado, tensionados a torcer pelo animal, pois o extermínio de toda a família Brody tem como finalidade acabar com tais sequências inconvenientes.

Depois desta incursão, o estúdio decidiu acabar com a franquia e desde 1987 o filme não ganhou mais nenhuma continuação. Acho até estranho não ter sido produzido nenhuma refilmagem até então. Diante de produções corajosas que releram obras-primas, tais como Psicose e A Profecia, é de se estranhar que ainda não tenham mexido no clássico de Steven Spielberg. Quem sabe uma série? Enquanto isso não acontece, os filmes de tubarões continuam a povoar a insistente e persistente memória do cinema.

Tubarão 4 – A Vingança – (Jaws – The Revenge) – EUA, 1987.
Direção: Joseph Sargent.
Roteiro: Michael De Guzman.
Elenco: Lorraine Gary, Lance Guest, Mario Van Peebles, Karen Young, Michael Caine, Judith Barsi, Mitchell Anderson, Lynn Whitfield, Cedric Scott, Melvin Van Peebles
Duração: 89 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.