Crítica | Tubarão, de Peter Benchley

estrelas 4

Emaranhados no monte de algas estavam a cabeça de uma mulher, ainda presa aos ombros, parte de um braço e cerca de um terço do tronco. A massa de carne dilacerada estava cheia de manchas roxas, e enquanto Hendricks vomitava na areia, pensou – e o pensamento o fez vomitar de novo – que o que sobrou do seio da mulher parecia achatado como uma flor espremida num livro de memórias.

Cinematográfico, não? Mesmo assim, pense bem: literatura e cinema são espaços semióticos totalmente distintos, por isso, não espere comparações entre o livro e o filme. Nem busque fazê-las. É pouco útil, a não ser que a sua análise seja puramente acadêmica, com fins de trazer novos elementos para os estudos de tradução intersemiótica. Mesmo que seja quase irresistível, leia o texto sem pensar diretamente no filme.

Tubarão foi um sucesso de vendas quando lançado, pois alcançou a marca de oito milhões de cópias com apenas algumas semanas de publicado. Apesar de ser óbvio a sua circulação com maior densidade após o sucesso da adaptação conduzida por Steven Spielberg em 1975, o livro tem o seu lugar na história da literatura moderna. É ágil, interessante, bem escrito e matéria prima de primeira linha para releituras audiovisuais. Não é a toa que o filme deu tão certo.

Conforme apontou Peter Benchley, a ideia surgiu após a leitura de uma matéria sobre um pescador que teria fisgado um enorme tubarão branco na costa de Long Island.  “Algumas crianças escolhem os dinossauros, mas eu escolhi os tubarões”, narra o autor no prefácio da edição mais recente lançada no Brasil.

A trama se desenvolve em Amity, um balneário calmo e tranquilo, com índice zero de violência. Os habitantes locais sobrevivem da temporada de verão, época em que o comércio torna-se aquecido. Tudo parece muito bem para os próximos eventos de veraneio, mas as suspeitas acerca de um enorme tubarão atacando nas redondezas põem todos em estado de alerta.

O desaparecimento da primeira vítima, uma garota alcoolizada que badalava numa festa na madrugada, é comunicado ao chefe de polícia Martin Brody. Ao investigar, coisas boas não são encontradas pelo caminho. O corpo, ou o que se supõe ser parte de um ser humano estraçalhado, aparece na praia, tal como descrito na epígrafe, deixando algumas pessoas preocupadas.

Diante da situação, o policial ordena que todas as praias sejam fechadas até maiores investigações. Quem não gosta nada da situação é o prefeito Larry Vahghan, um homem que divide o cargo com o seu talento como empresário, enxergando o espaço apenas pelo viés comercial, pouco se importando com os perigos de um tubarão à espreita na praia. Não satisfeito, ele desfaz a ordem de Brody e reabre as praias, pois em sua opinião, Amity não pode se prejudicar economicamente por causa de um ataque isolado de violência na praia.

As coisas, entretanto, ficam ainda piores. Uma criança é atacada durante o dia, causando pânico a todos os presentes. É a partir deste momento que a caçada rumo ao aniquilamento do tubarão inicia-se, reforçada com a chegada do oceanógrafo Martin Hooper. Juntos, os habitantes e os profissionais envolvidos precisarão arrumar uma maneira de resolver os conflitos estabelecidos.

No que tange aos aspectos estruturais, o romance é muito bem escrito. O suspense é trabalhado com equilíbrio, sem perder o ritmo do começo ao fim. Há vários personagens rasos que gravitam em torno do trio principal: Martin Brody, a sua esposa e o oceanógrafo Martin Hooper. O que falta nos coadjuvantes sobra nos protagonistas, pois diferente do que vemos no filme, os seus conflitos internos estão bem delineados. A crise no casamento do policial Brody é narrada com detalhes e integra parte dos seus problemas ao longo da narrativa.

Martin Hooper, ao cumprir duas funções dramatúrgicas dentro do romance, configura-se como um dos bons destaques: o personagem chega para ajudar no desenvolvimento das estratégias de captura e extermínio da fera marinha que está dizimando com o “american way of life” local, entretanto, torna-se um conflito na vida do protagonista ao flertar com a esposa alheia e trazer novos ares para o casamento falido de Brody. A expressão “para o bem e para o mal” nunca esteve tão bem empregada.

Ademais, antes de se tornar o clichê máximo das narrativas de terror ecológico, há discussões convincentes sobre os problemas do capitalismo, a mídia sensacionalista, a corrupção do ser humano e as celeumas de ordem ambiental. A polícia local, acostumada a bater o ponto cotidianamente e agir de maneira cordial com os habitantes e os visitantes, encontra-se diante problemas nunca antes imaginados. Tal estrutura, por sua vez, foi tão massificada nas diversas cópias do filme que hoje se tornaram o clichê dos clichês.

Peter Benchley nasceu nos anos 1940 e veio de uma família de intelectuais. Formou-se em Língua Inglesa na Universidade de Havard em 1961 e antes do sucesso do primeiro romance, Tubarão, tema do texto em questão, escreveu para a seção de necrológicos do famoso Washington Post, além de ter escrito para o Newsweek, para a National Geographic e atuado como redator da Casa Branca, ao escrever discursos durante o governo de Lyndon B. Johnson.

Apaixonado pela vida marinha o autor escreveu outros romances, sendo alguns dos mais conhecidos, A Ilha e Do Fundo do Mar, sendo este último uma aventura submarina diferente do inventivo filme australiano com tubarões modificados biologicamente. Membro de uma ONG que trabalhava em proteção da vida marinha, o escritor atuou frente aos debates sobre o assunto até o fim da sua vida.

Benchley faleceu em 2006. Oriundo de uma família de escritores, o seu avô, Robert Benchley, foi um humorista famoso, já o seu pai, Nathaniel Benchley, era romancista. Ainda nos anos 1970, década de sua publicação, o romance ganhou tradução para dez idiomas. Um verdadeiro fenômeno literário. O autor contou que não acreditava no êxito da obra, entretanto, teve que lidar com o sucesso. Nada mal para uma família de pessoas envolvidas com a narrativa.

Tubarão (Estados Unidos) — 1974
Autor: Peter Benchley.
Editora: DarkSide Books
368 páginas


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LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.