Crítica | Tubarão (Trilha Sonora Original)

Quando alguém se propõe a falar das trilhas sonoras de Psicose e Tubarão, os ouvintes que possuem o mínimo de repertório cinéfilo já se preparam para escutar obviedades. Ao seguir o velho bordão “a prática constante leva à perfeição”, inicio esta análise da composição de John Williams afirmando: já sabemos que a música tema do filme é uma das maiores referências da história do cinema. O que pretendo aqui é explicar os motivos que permitiram tamanha credibilidade.

Arrisco-me a dizer que qualquer pessoa que acredita ser entendedora de cinema e de audiovisual deva conhecer pormenores da trilha sonora de Tubarão, nem que seja para apontar possíveis incongruências em sua composição. Marco sonoro que nos acompanha desde os anos 1970, a produção musical criada exclusivamente para a aventura marinha de Spielberg é tensa, clássica e inesquecível, amplamente divulgada pela cultura pop, através de cenas metalinguísticas, toques de celular, etc.

Ganhadora do Oscar, do Grammy e do Globo de Ouro na categoria em questão, a faixa principal da composição de John Williams flerta apenas com duas notas musicais que se alternam, numa simbologia que se eternizou como representação em áudio do suspense e dos perigos eminentes de uma cena. Além da qualidade musical, esta obra-prima do cinema tem o mesmo efeito proposto por Alfred Hitchcock em sua famosa cena do chuveiro: elevar a tensão e sugerir a violência simbolicamente apresentadas pelo eixo visual.

Ambas as produções foram bem sucedidas nestes aspectos. Sugeriram ao invés de explicitar, tornando-se marcos cinematográficos importantes ainda na contemporaneidade, uma época de frivolidades cinéfilas e abandono do clássico em prol do que é novidade. Regida pelo minimalismo que engendram o tom ameaçador proposto pela obra fílmica, o tema principal traz a alternância entre as notas “E” e “F”, isto é, “mi” (a terceira nota da escala diatônica) e “fá” (a quarta).

Engraçado é que a história que envolve a composição desta trilha é curiosa. Segundo relato dos bastidores, Williams acomodou-se no piano e tocou as notas alternadas. A sua intenção era representar uma fera movida incontrolavelmente pelo seu instinto. Era uma oportunidade ideal para Spielberg, um cineasta iniciante que enfrentava problemas cotidianamente nos bastidores. A trilha seria o ideal para a ausência do tubarão, estratégia que seria muito (mal) aplicada em filmes do subgênero jawsplotation posteriormente.

A reação de Spielberg, no entanto, foi inesperada. Gargalhou e achou que o tema nada tinha a ver com a sua ideia para o filme. O cineasta desejava uma trilha com estilo esotérico, mas Williams insistiu que não combinava com as imagens que havia pesquisado na sala de montagem de Verna Fields. Interessado em criar algo visceral, alto, inquietante para quando o tubarão estivesse próximo, contraponto para a presença sonora calma que indicava quando a fera marinha estivesse distante, Williams conseguiu convencer posteriormente, o que permitiu uma parceria repetida em outros clássicos de Spielberg, tais como ET – O Extraterrestre e Jurassic Park.

Descrita por Williams como um tema esmagador, implacável e imbatível, a composição conta com o desempenho do tubista Tommy Johnston, particularidade musical incorporada em orquestras sinfônicas desde o século XIX, tendo a função de dar ritmo e ocupar lugares vagos em escalas. Seu efeito de caráter ameaçador é obtido pelo tom alto e geralmente não apropriado da trompa. Há, na percussão, incidentais de La Mer, de Claude Debussy e A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky.

Criada em 1905, La Mer foi classificada como uma obra musical impressionista, interpretada como uma composição não apenas sobre o mar, mas também uma representação de lembranças e sentimentos que evocam aventuras ao mar, numa total relevância para a trilha do filme em questão. Harmonicamente aventureira e repleta de sons proeminentemente dissonantes, a composição de Stravinsky possui ritmo aventureiro e marcações de tempo que mudam constantemente, tendo ainda as batidas em ascensão como marca. Conhecida pela presença de ritmos polifônicos, assimetria e ostinatos, isto é, ideias sonoras persistentemente constantes, esta obra-prima da música mundial é outra referência que encontrou ressonâncias na trilha sonora de Williams.

Este motivo ou frase musical repetitivo numa mesma altura, conhecido por ostinato, já era uma prática da música clássica, presente em composições de Bach, Ravel, Henry Purcell, Mandel, Beethoven, etc. Para a trilha do filme foram utilizadas repetidas vezes para expressar as atividades de Tommy Johnston. No painel de interpretações, a alternância de duas notas da faixa temática faz referências aos batimentos cardíacos do tubarão do filme, além de ter uma possível relação com a respiração de uma pessoa.

Tendo a divisão e a ruptura como célula principal da composição, a trilha também aposta em alguns pequenos arroubos de silêncio, trechos muito importantes que devem ser levados em conta no jogo narrativo entre as imagens e os sons.  Para os momentos da caçada final, Williams criou uma espécie de fanfarra heroica, intitulada pela equipe de Korngoldiana, numa referência ao compositor austríaco Erich Wolfgang Korngold, um famoso especialista em filmes de ação com lutas de espadas e piratas. É um dos trechos musicais que acompanha o trio formado pelo oceanógrafo Hooper (Richard Dreyfuss), o marinheiro Quint (Robert Shaw) e Martin Brody (Roy Schneider).

Conforme apontam alguns especialistas, Spielberg e Williams estão para o mar assim como Hitchcock e Herrmann estão para o chuveiro. Duplas de cineastas e compositores musicais que entendiam as necessidades dramáticas das histórias que comandavam. Por conta da sua qualidade, a trilha sonora de Tubarão foi considerada pelo American Film Institute como a sexta melhor/maior composição sonora da história do cinema. Recentemente fomos informados sobre o relançamento da trilha sonora em LP, remasterizada por Mike Matessino. O material será vendido em dois LPS, contendo 27 faixas musicais em versão turbinada para o século XXI.

Diante de tantos mergulhos neste denso mar de memórias, tal como restauração das imagens nos anos 1990, produção de dois documentários sobre os bastidores, especiais para TV em comemoração aos 40 anos de lançamento, bem como a versão em blu-ray repleta de comentários exclusivos, é estranho que ainda não decidiram produzir uma série inspirada no romance de Benchley e no filme de Spielberg. Melhor deixar o clássico quieto, não é mesmo, caro leitor? No entanto, se for mexer, por favor, não se esquecer da singular música tema do filme. É pedir demais?

Tubarão (Trilha Sonora Original)
Compositor:
 John Williams
País: Estados Unidos
Lançamento: 7 de julho de 2017
Gravadora: Sony Classical
Estilo: Trilha sonora

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.