Crítica | Tudo em Família (2005)

Nos primeiros instantes do drama Tudo em Família, escrito e dirigido por Thomas Bezucha, a tradição cinematográfica dos elencos luxuosos em produções de grande porte comercial se estabelece. Temos Diane Keaton, Rachel McAdams, Claire Danes e Sarah Jessica Parker, grande time feminino que geralmente consegue render bem em dramas, comédias e romances. E nesses mesmos primeiros instantes, acreditamos que uma família tradicional, tendo as suas peculiaridades delineadas, formará o centro nervoso do roteiro.

Sobre as peculiaridades, o espectador que pensou neste segmento está no caminho certo. No entanto, quanto à questão do tradicionalismo, Tudo em Família segue por um caminho mais distinto. Salvas as devidas proporções, é uma versão humorada e leve de situações que nas mãos do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, ganharia um olhar tenebroso. Tendo como temas o preconceito e homossexualidade, a importância dos laços familiares, a relação com o Outro e o respeito ao próximo, dentre outras abordagens, ao longo dos 104 minutos de duração, Tudo em Família se revela um drama adornado por discussões relevantes para pensarmos as configurações de parentesco e família que saem da “normalidade”.

O filme descortina a história de uma família da Nova Inglaterra que se reúne todo ano durante o Natal. Sybil Stone (Diane Keaton) é a matriarca da família, esposa do professor universitário Kelly Stone (Craig T. Nelson). Os filhos: Amy Stone (Rachel McAdams), Everett Stone (Dermort Mulroney), Ben Stone (Luke Wilson), Susannah Stone (Elizabeth Reaser) e Thad Stone (Tyrone Giordano). A mãe é uma mulher forte e protetora, mas quando se trata da personagem central, Meredith (Sarah Jessica Parker), noiva de seu filho mais próximo, Everett, ela se comporta de maneira antipática e agressiva. O mesmo padrão é seguido por todos os outros membros da família, pessoas responsáveis por tornar a estadia de Meredith um caos. Amy é uma das mais hostis, personagens que mais adiante, vão se mostrar frágeis e repletos de inseguranças que justificam parcialmente os seus respectivos comportamentos inadequados e grosseiros.

Meredith é uma executiva que mesmo sendo esclarecida e bem sucedida, carrega bastante insegurança quando o tema é a família do companheiro. A chegada do Natal aumenta a sua neurose, como podemos ver na cena de abertura. Tensa, ela receia não ser bem recebida, o que de fato é, à guisa de preâmbulo, só uma antecipação do que acontece ao se integrar como parte da festa de final de ano da Família Stone. Para suportar a pressão, Meredith decide convidar sua irmã, Julie (Claire Danes), uma bela revisora de artigos e livros, visitante que será recebida com mais calor e respeito.

Diante dos conflitos, quem achava que estava amando percebe que tudo era ilusão, quem não estava apaixonado se apaixona, quem é antipático recebe lições para se tornar amável, a matriarca revela em doses homeopáticas que está doente e que não há cura. Casamentos são desfeitos, promessas são quebradas e a vida continua, até que todos se reencontrem no Natal do ano seguinte, agora mais unidos e sem a presença da representação materna.

Comercializado como um drama passageiro para consumo na época do Natal, Tudo em Família é de fato um filme bem simples em termos narrativos, mas enquanto desdobramentos de ordem contextual, a produção levanta questões importantes para discutirmos a imagem da família numa perspectiva contemporânea, bem como as tensões destas festividades que forçam, em muitas situações, o uso de máscara que às vezes não se sustentam. O mito da sogra antipática é um deles. Aprendemos que desde a mitologia grega, o relacionamento entre sogras e noras é tenso. Afrodite, a deusa do amor, por exemplo, foi uma das primeiras “sogras” indesejáveis da história ocidental. Enciumada por conta do relacionamento entre seu filho Eros com a mortal Psique, fez de tudo para separá-los. Da Antiguidade Clássica aos tempos contemporâneos, o mito da sogra desagradável aumentou vertiginosamente. Resultado da soma de numerosas experiências negativas que resultaram num arquétipo repleto de aspectos ruins, o mito pode ser considerado como desdobramento de questões de gênero, resultantes da clássica estrutura patriarcal que rege a nossa sociedade há eras. Sybil, interpretada no devido nível de antipatia pela ótima Diane Keaton, é uma representação fidedigna deste estereótipo. É a deflagração do desastre natalino de qualquer nora insegura, tal como Meredith, vítima da implicância desta família antipática.

Nos momentos finais, a família aparentemente equilibrada após tantas experiências de tensão, reúne-se para acender as luzes da árvore de natal. Juntos, eles contemplam o item obrigatório de toda casa que preza pelas regras de decoração natalina. O design de produção assinado por Jane Ann Stewart consegue contemplar o período com todos os elementos possíveis para inserir o espectador no clima e na simbologia dos objetos em cena, complementos narrativos importantes para a condução da história. Um pinheiro e as suas bolas, representações dos frutos daquilo que as pessoas querem para si. A bola prata como desejo de sucesso, fama e brilho. A bola dourada, fama, riqueza e tal como a prateada, sucesso. A verde carrega em si a necessidade de saúde e riqueza. A vermelha como mensageira da vitalidade, do amor e da paixão e a branca, espiritualidade, paz e amor.

Com apoio da direção de arte de T. K. Kirkpatrick, Tudo em Família ainda tem os sinos, itens de fundamental importância simbólica, pois são arautos do nascimento de Cristo, além das estrelas, representantes da necessidade de direção e porto seguro da humanidade, historicamente bússolas naturais que também significam a fama e a busca por oportunidades e vitórias. A guirlanda, utilizada na porta de casa como proteção, prática que remonta ao Egito Antigo, também está repleta de significação na atualidade, mensageira da paz, da prosperidade e da sorte. E mesmo que estejamos diante da abundância da “era das luzes”, as velas, mesmo que bem discretas, possuem grande significado, principalmente quando lembramos que há muito tempo, o fogo denotava o poder de uma divindade.

Diante do exposto, cabe ressaltar que nenhum desses signos natalinos possui maior significação que a neve, elemento lúdico e culturalmente difundido como representação desta época. Em Tudo em Família, temos a presença do “natal branco”, isto é, ocorrência de neve em um dia de natal. Já na abertura, enquanto Meredith e Everett estão se preparando para seguir viagem, temos como acompanhamento o clássico Let it Snow, Let it Snow, Let it Snow, canção escrita por Sammy Cahn e imortalizada por Frank Sinatra em sua gravação lançada em 1950. É o prenúncio do que será apresentado mais adiante, quando a neve exerce poder bastante simbólico, principalmente próximo ao desfecho. Numa visão geral, a neve é considerada a cristalização do divino, pois é a água, um símbolo da vida, num estado mais palpável e que se esvai com menor facilidade. Para o contexto narrativo em questão, possui bastante significação.

Por seu desempenho, Sarah Jessica Parker foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia/Musical. Lançado em 2005, Tudo em Família ainda é bem relevante após mais de uma década, pois trata de temas que nunca se esgotam: as relações familiares e os conflitos oriundos dos agentes que fazem parte deste terreno de contatos. Quando associado ao período natalino então, outro subgênero do cinema se faz presente, demonstrando um tipo de produção que será relevante enquanto o cinema existir como arte desta era de reprodutibilidade técnica constante.

Tudo em Família (The Family Stone) — Estados Unidos, 2005.
Direção: Thomas Bezucha
Roteiro: Thomas Bezucha
Elenco: Brian J. White, Claire Danes, Craig T. Nelson, Dermot Mulroney, Diane Keaton, Elizabeth Reaser, Jamie Kaler, Jason Aaron Baca, Luke Wilson, Paul Schneider, Rachel McAdams, Sarah Jessica Parker, Savannah Stehlin, Tyrone Giordano
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.