Crítica | Tudo Que Aprendemos Juntos

estrelas 3,5

Inspirado na história real de criação da Orquestra Sinfónica de Heliópolis, Tudo que Aprendemos Juntos, novo filme de Sérgio Machado, traz uma história já bastante explorada em inúmeros longas, mas que exerce sua força através do carisma de seus personagens e do local que busca retratar. Apoiando-se em sua história pessoal, na qual a música clássica se fez muito presente, o diretor da obra nos traz um filme bastante tocante, que sabe explorar cada um dos indivíduos que são colocados na tela.

Laerte (Lázaro Ramos), músico tido como menino prodígio na infância, batalha para conseguir se sustentar através de sua paixão. Após travar em sua audiência para a OSESP, ele passa a procurar outros locais de trabalho e acaba encontrando uma vaga para professor em uma escola na favela de Heliópolis. Lá se depara com uma turma completamente indisciplinada, com pouca instrução musical – à exceção de um jovem, Samuel (Kaique de Jesus), que demonstra um verdadeiro talento, ainda que necessite de um maior refino. Cabe a Larte transformar todo o potencial dessa turma em uma prova de como a música ultrapassa qualquer barreira.

Como já mencionado antes, a temática já fora explorada incessantemente, sendo Escola do Rock apenas um dos muitos exemplos que poderiam ser citados. O interessante está justamente no cenário que temos em questão. O ambiente de favela (ou comunidade), em geral ligado a um estilo musical como o funk ou o pagode é “invadido” pelo clássico e Sérgio Machado o faz de forma poética e orgânica, quebrando o tabu de que tais melodias são excludentes e reservadas apenas a pessoas de maior poder aquisitivo. A cultura pode, sim, atingir a todos e o clássico ganha ainda um caráter único por resgatar no interior de cada um sentimentos muito específicos. Uma música nunca será a mesma quando escutada por duas ou mais pessoas distintas, ela mexe conosco de formas distintas e independe de palavras cantadas para remoer qualquer tipo de sensação.

Lázaro Ramos, como de costume, nos entrega uma atuação sincera, um homem visivelmente angustiado pela forma como precisa batalhar e que se vê em paz apenas quando a música começa a sair de seus dedos. Há uma paz evidente quando as notas são emitidas de seu violino e Lázaro demonstra esse mergulho na paz, mesmo que momentânea, de forma magistral. Uma decupagem bastante subjetiva é realizada nesses momentos, a fim de aproximar o público de cada instrumento e não podemos deixar de sermos engolidos pelas melodias. O enfoque nos instrumentos de corda ainda é trabalhado de forma que o público crie um vínculo próprio com eles. Samuel, que acreditava que o violino fosse um instrumento de menina se vê contrariado como ele próprio diz. Mais uma vez barreiras são eliminadas, agora a do gênero.

A construção de Laerte é um dos pontos altos da narrativa, ao passo que sua aceitação daquela sua posição vai sendo gradual. Essa relação professor/alunos é explorada de forma bastante madura, o protagonista em ponto algum deixa de “pegar pesado” com a turma e sempre espera o melhor de cada um deles. Pinceladas de humor são bem inseridas mesmo nessa trama bastante dramática e o roteiro não soa forçado ao fazê-lo.

A fim de diminuir a distância entre o clássico e a música popular há uma escolha bastante precisa da montagem ao colocar em sequência planos completamente opostos que evidenciam como um universo pode conter uma ampla gama de musicalidades. Não precisamos nos limitar a apenas um estilo, nossos ouvidos certamente podem ser treinados para muito mais que isso e mesmo um homem que anseia por trabalhar na Osesp pode aproveitar uma noite de “balada”.

Tudo que Aprendemos Juntos é um filme de inclusão, tanto social quanto musical. Sua trama bastante cliché consegue ser positivamente revertida em uma narrativa bastante engajante e dramática, que explora a fundo a luta pelos sonhos e como qualquer um pode, batalhando e se sacrificando, atingir o que quer.

Tudo Que Aprendemos Juntos (idem – Brasil, 2015)
Direção:
Sérgio Machado
Roteiro: Maria Adelaide Amaral, Marcelo Gomes, Sérgio Machado, Marta Nehring
Elenco: Lázaro Ramos, Kaique de Jesus, Elzio Vieira, Sandra Corveloni, Fernanda de Freitas
Duração: 102 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.