Crítica | Tudo Sobre Minha Mãe

estrelas 4,5

Quando lançou Tudo Sobre Minha Mãe em 1999, Pedro Almodóvar era “apenas” um excêntrico e interessante diretor espanhol que fazia da fauna suburbana madrilenha — e de outras cidades da Espanha — o seu espaço de problematização, sátira e denúncia. Desde Maus Hábitos (1983), seus filmes chamavam a atenção da crítica e já garantiam um público cativo nos cinemas, que entre cores quentes ou paleta de tonalidades claras na fotografia; direção de arte kitsch e temas que giravam em torno do vício em diversas drogas, prostituição, homossexualidade e travestismo, sempre podiam esperar melodramas com alguma pitada de humor, uma forma muito particular de mesclar tragédia e comédia no cotidiano de pessoas à margem da sociedade.

O refinamento temático do cineasta em relação à primeira fase de sua carreira veio com A Flor do Meu Segredo (1995) e Carne Trêmula (1997), o que coloca Tudo Sobre Minha Mãe no caminho do amadurecimento definitivo do diretor, entregando a sua melhor obra até aquele momento.

A história acompanha Manuela (Cecilia Roth), que vê seu único filho Estebán (Eloy Azorín) morrer no dia em que completava 17 anos, em um acidente que recria em parte uma das famosas cenas de Noite de Estreia (John Cassavetes, 1977). Arrasada, Manuela vai a Barcelona à procura do pai de seu filho, uma travesti chamada Lola. Aparece então uma velha amiga, Agrado (Antonia San Juan), também travesti, e uma jovem freira chamada Rosa (Penélope Cruz) que irão marcar o cotidiano de Manuela na cidade da qual fugiu e para a qual retorna a fim de se encontrar.

Se compararmos este filme aos outros do diretor, chegamos à conclusão de que assistimos a uma obra mais plácida e ao mesmo tempo mais profunda, mesmo que os temas recorrentes de sua filmografia apareçam, inclusive o humor, que toma a forma de um desalento íntimo, como se fosse um riso culpado de existir diante de tanta miséria e sofrimento em volta. De imediato, o espectador consegue perceber ligações edípicas na relação entre Manuela e Estabán, marcada, com o passar dos minutos, pela fascinação do garoto pela mãe, a quem admira em diferentes níveis, mesmo por aquilo que ela não é: uma atriz. Essa nuance adípica aos poucos dá lugar a linhas interessantes de perversões e destrutividade, seja através do que Agrado chama de “ossos do ofício”; da degradação do relacionamento entre Huma Rojo (Marisa Paredes, simplesmente gloriosa) e Nina (Candela Peña), entregue ao vício; ou do relacionamento automático entre Rosa e sua mãe.

Mas essas ‘pequenas mortes’ na interação entre as pessoas não são o único caso problemas demasiadamente humanos no filme. Perceba que o roteiro de Almodóvar vai marcando o território da tragédia diante de conflitos que não percebemos, no começo, como elemento dramático sólido, tais como a relação de título e depois de impacto cênico com o excelente A Malvada (All About Eve / Tudo Sobre Eva, no original), a peça (e em certa medida, também o filme dirigido Elia Kazan) Uma Rua Chamada Pecado, de Tennessee Williams ou o livro Música Para Camaleões, de Truman Capote. Em cenas familiares mergulhadas em ambiente sanguíneo — cor-símbolo fundamental do princípio da vida explorada com grande beleza e inteligência pelo fotógrafo brasileiro Affonso Beato –, vemos o elemento trágico se formar, preparando-se para tomar conta do enredo após o acidente que faz Manuela mudar de vida e procurar [romper? Recuperar? Superar? Ficar em paz?] com o passado.

Note, porém, que a direção de Pedro Almodóvar faz a adequação de tom para cada fase, mas mantém o ritmo de valorização e destaque da mulher, com toda a delicadeza e fúria necessárias para tratar questões de gênero, usado como motor do melodrama urbano em um casamento mais que bem-vindo no filme e executado quase com perfeição, mixando os estilos formais e temáticas femininas de George Cukor, Douglas Sirk e Rainer Werner Fassbinder. Deste último, há um verdadeiro mergulho de Almodóvar em duas obras específicas onde o desejo, a ausência, a sublimação e o desespero andam de mãos dadas com inúmeras variações sexuais, As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1972), quando ele trabalha com as mulheres cisgênero de diversas sexualidades e Em Um Ano de 13 Luas (1978), quando ele trabalha com as mulheres transexuais e travestis, também de diversas sexualidades.

O grande encanto do roteiro é que, tendo plantado a tragédia desde o início e colocando a matriarca ferida e sozinha em busca de algo para expiar o que nem ela sabe ao certo — a dor da perda não é o único elemento em cena –, toda a trajetória acaba desaguando, quase em querer, em um ode à vida. O roteiro, porém, não nos traz isso como lição de moral ou forçosa mudança de ponto de vista no melhor estilo “aprender com os erros“. Nada disso. Saudade e tristeza são onipresentes, mas não dominam o tom a película. Manuela, a mãe sobre a qual descobrimos tudo, passa por fases onde se conhece melhor e redescobre as coisas. Durante esse trajeto, existe um certo “acostumar-se rápido demais”, principalmente no contato dela com Huma Rojo, mas nada que impeça o público de entender a força de sua personalidade e o contato dela com os muitos lados da feminilidade, sua e das outras que a rodeia.

O carinho e delicadeza com que o diretor nos apresenta Lola (personagem muito bem interpretado por Toni Cantó), fora do estereótipo ou demonização que se esperaria para alguém que, muitíssimo bem definido por Manuela, é uma epidemia, dá o tom da reta final de Tudo Sobre Minha Mãe. O amor à vida e às pessoas, o perdão — não o esquecimento — o reencontro e a partida são parte da teia de qualquer relação humana, importando, ao final, o que se vive e os momentos partilhados com alguém. Poucas vezes um filme com este tom e com tamanha tragédia em cena teve um final com essa mensagem. Mas vejam, não poderia ser de outra forma. Materno desde o título, o longa destaca o cuidado, o renovo, o tempo e a nova vida (literal ou simbólica) que tudo a todos mudam, uma gestação de amor complexo e instigante em película que rendeu a Almodóvar o prêmio de Melhor Diretor e do Júri Ecumênico (!) em Cannes, o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e mais dezenas de outros prêmios em festivais ao redor do mundo. Não é para menos. Tudo Sobre Minha Mãe é um marco do cinema e a inscrição final de Almodóvar no panteão dos mestres. Um daqueles filmes necessários para validar qualquer “carteirinha de humanidade”…

Tudo Sobre Minha Mãe (Todo sobre mi madre) — Espanha, França, 1999
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Candela Peña, Antonia San Juan, Penélope Cruz, Rosa Maria Sardà, Fernando Fernán Gómez, Toni Cantó, Eloy Azorín, Carlos Lozano
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.